sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Estação das perdas

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Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: as perdas do ser humano.
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Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos.
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Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói.
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E continuamos a perder e seguimos a ganhar. Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas por que alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair... E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por que? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás.
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Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer. Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros. Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres. Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso. Receamos dar risadas escandalosamente da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as pelanquinhas do braço da vó com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto. Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos.
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E vamos adolescendo; ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pelos, ganhamos altura, ganhamos o mundo. Neste ponto, vivemos em grande conflito.
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O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos... Ah! Os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo. Aí, de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo, todos nos admiram. Tornamos-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?
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E continuamos amadurecendo ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer. Mas perdemos peso!!! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos-lhe aquele beijo estalado, mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias,
títulos honorários e a chave da cidade. E assim, vamos ganhando tempo enquanto envelhecemos.
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De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso e perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir. Perdemos a esperança. Estamos envelhecendo. Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo. Afinal, sempre haverá um renascer... pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede.
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Que a gente cresça e não envelheça simplesmente. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie. Que tenhamos rugas e boas lembranças. Que tenhamos juízo, mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia. Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos. E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados. Afinal, o que é o tempo?
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Aila Magalhães

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A canção dos homens

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Quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que aparece a "canção da criança".
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Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam a sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe cantam sua canção.
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Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta. Quando chega o momento do seu casamento, a pessoa escuta a sua canção. Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e, assim como em seu nascimento, cantam a sua canção para acompanhá-lo na "viagem".
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Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção. Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, levam-no até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um círculo ao seu redor. Então lhe cantam a canção. A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo, é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.
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Quando reconhecemos nossa própria canção, já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém. Teus amigos conhecem a "tua canção" e a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou às escuras imagens que mostras aos demais. Eles recordam tua beleza quando te sentes feio; tua totalidade quando estás quebrado; tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estás confuso.
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Tolba Phanem , poetisa africana

Metáforas

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Estávamos reunidos para cantar, ou melhor, para treinar cantar. A professora estava presente e alguns de seus alunos. Todos num misto de animados e inibidos, uma certa euforia. Improvisamos um palco: um canto de sala mais iluminado, onde um móvel abrigava o serviço de som. Para lá nos dirigíamos, quando escolhíamos o que cantar. Os demais alunos, enquanto aguardavam sua vez de cantar, se faziam platéia, torciam, incentivavam, aplaudiam. Muita atenção e muita gargalhada, como que para espantar o ridículo ou o seu conceito. Fui cantar. Cantei. Dei conta.
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Ao terminar, após um movimento de corpo qualquer, o colar que me servia de adereço se partiu. Todas as pedras e contas e fios e mais penduricalhos se espalharam pelo chão da sala onde estávamos. Nesse momento, a platéia solidariamente se abaixou para catar todas as peças, até as minúsculas. Não é preciso dizer que, por uns instantes, o clima mudou. Mas, continuamos. Outros cantaram, todos cantaram, enfim, ficamos alegres por que soltamos a voz, no volume possível a cada um.
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Finda a festa, catadas as peças daquilo que tinha sido um colar, retornei a minha casa. Escolhi, naquele momento mesmo, reconstruir outro colar. É certo que algumas pedras e contas se haviam perdido. O colar ficaria maiscurto. Isto não era problema, afinal, a maior parte do material estava comigo. Mas, e o design? Eu não o tinha registrado totalmente na memória. Era um colar bonito, rústico, colorido. O que sei acerca de colares é que a sua construção obedece a uma certa simetria, considerando que um de seus lados deve guardar semelhança com o outro lado. A outra coisa que sei acerca de artesanato é que qualquer peça deve resultar do estilo de quem a faz, isto é, do atendimento à voz do coração e a partir de alguma referência de harmonia entre cores e tamanhos e formas. Nada além disso; nenhuma experiência nessa área nem destreza.
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Organizei as peças em pares semelhantes. Algumas das partes ficaram sem par. Selecionei-as por cor, tamanho e características próprias. Nessa ocasião, me indaguei por onde começar. De uma coisa eu sabia: aquele colar que tinha sido, não era mais. Eu podia construir outro, mas não aquele.
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Daí em diante, comecei por qualquer começo, afinal, não havia modelo, mas havia material solto suficiente para dar vida e forma a um novo adereço. Iniciei enfiando cada conta, cada pedra, às vezes em conjunto, às vezes isoladamente, e observando a simetria entre os lados que compõem um colar. Quase pronto, sobraram peças ímpares. Optei por juntá-las a qualquer dos lados. A última parte é composta de uma espécie de mandala, como que juntando as polaridades na unidade. Fechei com nó simples as pontas dos fios que sustentam as pedrarias, até por que não sei dar outros tantos nós e também para possibilitar que este nó (quem sabe?) se desfaça outro dia e assim eu possa fazer, de outro jeito, outro colar.
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Quando o colar arrebentou e só sobrou um amontoado de contas, eu tinha pelo menos mais três opções: não reconstruí-lo, guardar o material ou jogá-lo no lixo. Qualquer que tivesse sido a escolha, um fato me parece inarredável: a realidade continuaria sendo construída, de um jeito ou de outro.
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Desconheço a autoria

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Em que direção caminhas?

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Na busca de ideais, cá na terra às vezes esmagamos nossos melhores sentimentos utilizando-nos apenas da pressa da vivência, para alcançarmos nossas metas, que julgamos ser prioridade para uma conquista de vida.
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Caminhando na terra, muitas vezes esquecemos de viver o mais importante, que são os sentimentos.
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O ser humano é dotado de sentimentos que devem dar vazão do coração.
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Quantas vezes, na hora de chorar, nos deixamos levar pelas aparências de que somos fortes, sufocando a dor que quer realizar sua intenção, de lavar a alma e o coração?
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Quantas vezes na hora de sorrir, disfarçamos nosso sorriso para que outros não nos vejam felizes, como se tivéssemos que esconder esta imagem, com medo de declarar nossa alegria e nossa felicidade.
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Quantas vezes nos calamos, quando a palavra era de amor, reservando este sentimento por receio de sermos machucados.
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Para onde estamos caminhando se nos propomos a viver apenas suprindo as necessidades que nos trazem conforto e status, esmagando o coração?
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O que daqui levamos, senão apenas sentimentos que foram doados, compartilhados?
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O que mais levamos ao partir, a não ser as lembranças do carinho, do afeto e dos amores?
Deixemos fluir os sentimentos que habitam dentro de nós, para com todos que passam por nossas vidas, mesmo que sejamos mal interpretados, desprezados, mesmo assim terá valido a pena senti-los, tê-los doado.
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O egoísmo de sentimentos não nos leva a lugar algum, apenas aprisionamos nossos corações, quando podemos vibrar com as nossas emoções.
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Passamos a vida a procura da felicidade e ainda não aprendemos que felicidade é dar amor, é sentir, é desfrutar, chorar, sorrir, falar na hora em que o coração pede que se solte na voz toda emoção.
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Felicidade é doação, é sentir a vida pulsar na emoção ouvindo as batidas do coração.Isto é vida para ser comemorada.
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Este é o sentido da mais bela chegada ao infinito.Em que direção caminhas?Pela bússola do coração, no rumo dos sentimentos?
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Em que direção caminhas? Será apenas na direção da razão? Entre o céu e a terra, caminhai deixando seu rastro como um vencedor, que nesta terra passou e seus melhores sentimentos viveu, e na lembrança os levou!
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Cora Maria
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"Algumas vezes, os caminhos que tomamos são longos e difíceis, mas são exatamente esses caminhos que vão dar em lugares com que sempre sonhamos."

Pedagogia do amor

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Religar conhecimento ao amor é o mais instigante desafio do momento. É esta a metavirtude que precisa orientar nossa sofisticada tecnociência. Como afirmou um sábio, o amor é a tecnologia mais sofisticada de todos os universos!...
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Sem amor não é possível reinventar e reencantar nenhum mundo, nenhuma sala de aula... Nós precisamos da pedagogia do amor, porque esta é a primeira e a derradeira lição de uma escola transdisciplinar holística da existência. Somente no dia em que aprendermos a amar total e incondicionalmente é que receberemos um certificado de humanidade plena. Esta é a Utopia Humana e estamos aqui para fazê-la florescer...
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Não é difícil constatar que o desencantamento do mundo se deu através da desconexão com esta fonte de Vida, sobre a qual Teilhard de Chardin afirmava: “Quando os seres humanos domarem as ondas, os ventos, as tempestades, os furacões, quem sabe não dominarão, também, as forças do amor? Então, pela segunda vez na história da humanidade, teremos inventado o fogo!”
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Aprender a conhecer e a fazer de forma integrada, através da experiência viva e com discernimento continua sendo uma arte a ser devidamente aplicada e aperfeiçoada. Para tal, necessitamos de uma escola do Olhar, pois a visão é a véspera do conhecimento. Abrir o olhar para si, para o outro, para o Universo e o Totalmente Outro, eis uma lição fundamental. Um olhar fluídico, que não fica paralisado num único alvo, capaz de acompanhar a dança do agora. Mudar o mundo é mudar o modo de olhar...
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Necessitamos, também, de uma escola da Escuta. Escutar antecede compreender. Precisamos transcender esta crise absurda, esta surdez diante dos alaridos e canções da realidade.
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Aos 15 anos, orientei meu coração para aprender.
Aos 30, plantei meus pés firmemente no chão.
Aos 40, não mais sofria de perplexidade.
Aos 50, eu sabia quais eram os preceitos do Céu.
Aos 60, eu os ouvia com os ouvidos dóceis.
Aos 70, eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, porque o que eu desejava não mais excedia as fronteiras da Justiça.
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Quando orientamos o coração para aprender? Não apenas para conhecer o mundo exterior e para, nele, atuar. Sobretudo para aprender a estar no mundo, navegar o encontro e florescer como seres humanos. Para tomar consciência do fio de ligação que conecta todos os nossos passos e todos os eventos no qual habitamos. Como afirma o estadista, Václav Havel, a educação, hoje, é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre os fenômenos. Quem é terapeuta sabe que cada sintoma é um texto sagrado, que precisa ser escutado e interpretado, em seus múltiplos significados. Como afirma a sabedoria dos velhos rabinos, cada frase bíblica é suscetível de 72 interpretações! Pois são 72 os nomes que damos àquilo que não tem nome, segundo a Cabala. Esta é uma sábia prevenção contra o perigo dos catecismos estreitos e dos fundamentalismos fanáticos, cuja tragédia estamos presenciando. Como afirmou um sábio, fanático é uma pessoa que não muda de idéia e nem de assunto!
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Roberto Crema
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