Três paixões, simples mas avassaladoras, me dominaram a vida: o desejo de amor, a busca do saber e a insuportável piedade pelo sofrimento humano. Três paixões, como vendavais, me lançaram aqui e ali, em rumo desordenado, sobre as profundezas de um mar de angústia beirando o desespero.
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Busquei o amor, primeiro, por trazer consigo o êxtase – êxtase tão imenso que, muitas vezes, teria de bom grado sacrificado todo o resto de meus dias por algumas horas de felicidade. Busquei-o depois para alívio da solidão – a terrível solidão na qual uma trêmula consciência vê, dos confins do mundo, o frio, imponderável e inerme abismo. Busquei-o, enfim, porque, na união do amor vislumbrei, em mística miniatura, um esboçar da visão do paraíso imaginada por santos e poetas. Foi o que busquei e, embora talvez pareça bom demais para um ser humano, foi – finalmente – o que encontrei.
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Com idêntica paixão, busquei o saber. Quis entender os corações dos homens. Quis saber por que brilham as estrelas. E tentei captar o significado da potência pitagórica na qual o número sobrepuja o fluxo. Disso, um pouco, mas não muito, consegui. Amor e saber, no que me foi possível, elevaram-me aos céus.
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Mas, sempre, tristeza e pena traziam-me de volta à terra. Ecos dos gritos de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas pelo opressor, velhos indefesos – carga odiada pelos filhos – e todo um mundo de solidão, pobreza e dor, caricatura do que deveria ser a vida humana. Desejo aliviar o mal mas não consigo, e também eu sofro.
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Foi essa minha vida. Valeu a pena vivê-la e a viveria novamente, se me fosse dada a oportunidade.
Neste livro, José Saramago reconta algumas das histórias do Velho Testamento através da ótica de Caim, filho de Adão e Eva e assassino de seu irmão Abel. Depois desse assassinato, ele sai numa jornada sem presente, passado ou futuro, visitando algumas cenas bíblicas e dando a elas uma nova interpretação - a de Saramago.
Seja você cristão ou não, é impossível que fique indiferente a este livro. Mas é preciso que a leitura seja feita de maneira imparcial, sem o prisma da religião. Afinal, este livro é uma obra de ficção. E não é a primeira vez que Saramago, detentor do Prêmio Nobel da Literatura nos apresenta uma obra onde faz com que nos confrontemos com Deus. É público que o autor é ateu, e considera Deus uma fantasia da humanidade.
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E é no tom da polêmica e da ironia que ele provoca os leitores com o seu Caim. Durante todo o livro Caim, protagonista e narrador, está em confronto com Deus (no livro sempre grafado com letra minúscula - deus), que acusa de crueldade e crimes muito maiores que o seu, nas passagens mais duras e polêmicas do Antigo Testamento, como a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, a confusão das línguas na Torre de Babel, o Sacrifício de Isaac, a destruição de Sodoma e Gomorra, etc.
Gosto do estilo de Saramago, e os diálogos desse livro têm o poder de prender o leitor. Não é um livro que chegue a escandalizar, se você consegue o prisma certo para a leitura. O tema é vastamente explorado nas artes em geral, e este certamente não é dos melhores de sua grande obra.
Deixo a vocês um trecho do final do capítulo 6, página 88, que certamente ilustra o que o livro nos diz:
“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.
Esse inusitado "veículo marítimo" é um projeto impressionante do arquiteto belga Vincent Callebaut. Chama-se "Physalia", e é uma espécie de navio-submarino, no formato de uma baleia.
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Physalia foi inspirado no “Physalia physalis” - água-viva, cujo nome traduz-se mais ou menos c como "bolha d'água". Seu ecossistema é 100% auto-suficiente, gerando toda a energia de que necessita através do sol.
Enquanto navega, a Physalia trabalha para reduzir a poluição da água através da bio-filtração. Possui milhares de filtros biológicos que captam a sujeira, devolvendo a água livre de impurezas.
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Realmente é uma criação visionária: um ambiente repleto de jardins flutuantes e coberto por um telhado composto por dois painéis solares de película verde e fina. As hidro-turbinas de geração de energia da água em movimento por debaixo do barco, são responsáveis, também, pela geração de energia necessária para a manutenção.
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Uma vez construída, a "eco baleia gigante" estará presente nas águas do Sena, Tâmisa, Volga, Danúbio...
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O design de Callebaut é certamente fantástico, impressionante de se olhar.... mas é um deleite imaginar que algum dia, esse tipo utópico de tecnologia possa realmente existir... não somente nos rios europeus... adoraria poder encontrar um desses passando pelo Tietê e pela Baía de Guanabara!
Nasceu em 21 de fevereiro de 1917, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, a décima quinta filha de Etelvina e Antônio Vivacqua, com o nome de Dora Vivacqua. Nos anos 20 mudou-se com a família para Belo Horizonte.
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Dora sempre foi muito rebelde, e já na adolescência contestava todas as ordens e opiniões sobre sua vida. Dona Etelvina, sua mãe, que já tinha todas as seis filhas mais velhas casadas, precisava ainda se preocupar com Dora.
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Sua rebeldia fazia com que se destacasse no cenário da pequena cidade: nunca aderiu ao uso de sutiã e tinha costume de desfilar pela praia de Marataízses de calcinha e bustiê improvisado com lenços... e isso numa época em que ninguém cogitava do uso do biquini! Ela começou a tornar públicas suas idéias em um país onde ainda não se usava maiô de duas peças nas praias e o culto ao corpo se resumia aos concursos de Miss Brasil.
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Em 1932 acontece uma tragédia na família Vivacqua: Antônio, pai de Dora, é assassinado em Cachoeiro do Itapemirim por pessoas que, dias antes, ele havia despejado de um dos seus inúmeros imóveis. Dora, que tinha então 15 anos, e a mãe voltam para Belo Horizonte mas, como em Cachoeiro, a moça sentia-se oprimida... manifestou desejo de ir morar no Rio de Janeiro, sob a tutela do irmão Atílio. E assim se fez.
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Em 1936 Dora, então com 19 anos, vive um romance inaceitável com José Mariano Cunha Neto, pertencente a uma das mais importantes famílias cariocas. Seu irmão Atilio manda-a de volta a Minas, para a casa da outra irmã Angélica.
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Longe de ser uma solução, isso tornou-se mais um problema: Dora tem um caso com o cunhado Carlos, e é flagrada pela própria irmã na cama do casal. A maior parte da família preferiu acreditar nas mentiras de Carlos e tomou Dora como esquizofrênica. Isso lhe custou dois meses de internação no Hospital Psiquiátrico Raul Soares, em Belo Horizonte, e dez quilos a menos.
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Mas, um outro irmão, Achilles, veio em defesa de Dora... preocupado com a saúde da irmã ao sair do hospital, convence-a a passar uma temporada na fazenda de Archilau, outro dos irmãos Vivacqua. Dora tinha liberdade na fazenda, até que apareceu como “Eva”, trajando literalmente três folhas de parreira presas nos seios e no púbis... e duas cobras-cipós como braceletes. Quando repreendida por Archilau, jogou-lhe um vaso de cristal na testa.
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Esta rebeldia custou-lhe a segunda internação, desta vez na Casa de Saúde Dr. Eiras, famosa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro. Achilles intervém mais uma vez e a irmã Mariquinhas resgata Dora, levando-a para morar com ela em Cachoeiro. O que aconteceria por pouco tempo, pois logo Dora foge para o Rio.
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De volta ao Rio, retoma seu romance com Mariano, sem oficializar a relação. Tentou fazer paraquedismo, mas estava apaixonada e cedeu a pressão do namorado e desistiu da aventura.
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Nasce Luz Del Fuego...
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Dora fez um curso de dança e se apresentava em picadeiros de circos, com suas incríveis serpentes, às quais ela chamava de Cornélio e Castorina: duas jibóias, cobras não venenosas. O nome que adotou em 1947, Luz Del Fuego era em alusão a uma marca de um batom argentino recém-lançado no mercado. A imagem do “fogo” representava bem sua nova opção de vida, já que antes ela era “água viva” (Vivacqua)...
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Luz Del Fuego tornou-se famosa... fazia apresentações nos grandes teatros de Copacabana, rivalizando com as grandes vedetes da época, como Mara Rúbia, Virgínia Lane e Elvira Pagã, esta última com um estilo bem parecido com o de Dora, pois também exibia seu corpo, coisa que não era muito comum nos anos 50. Doava rendas de seus espetáculos para instituições beneficentes, fazendo leilões de si mesma. Foi multada e detida para interrogatórios várias vezes, depois alardeava em praça pública que o delegado, juiz ou prefeito, era muito duvidoso para seu gosto, porque "homem que é homem aprecia a beleza do corpo feminino". E era detida outra vez, por desacato à autoridade.
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Resolveu publicar trechos picantes do diário que mantinha: a sedução pelo cunhado e fatos que revelavam prostituição. Em um segundo livro, também autobiográfico, Luz Del Fuego lançava a base de sua filosofia naturista, e com o dinheiro da venda arrendou uma ilha nas proximidades de Niteroi - RJ, criando aí a sede de seu clube naturista. Esta Ilha foi batizada por ela como Ilha do Sol, e foi o primeiro reduto naturista do Brasil, o que lhe rendeu fama internacional.
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Nos anos 50, a Ilha do Sol tornou-se uma das grandes atrações dos turistas que vinham ao Brasil,muitos deles artistas de cinema americano, como Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Power, César Romero e outros. Na Ilha do Sol, a nudez era total e obrigatória, e ninguém, nem mesmo autoridades ou personalidades públicas tinham autorização de desembarcar nela sem deixar no pier as peças de roupa que trajavam, porque seu pensamento e lema era o de que “o nudista é uma pessoa que acredita não ser a indumentária uma peça necessária à moralidade do corpo. Não é concebível aceitar-se que o corpo tenha partes indecentes, que precisam ser escondidas”.
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Com o passar do tempo e a chegada da idade, o mito foi desaparecendo. As reservas financeiras foram escasseando, e seus amantes já não eram mais homens ricos e influentes, e sim homens rudes da região. Seus amigos ficavam preocupados com o perigo que envolvia esses relacionamentos, mas Luz dizia que não precisavam se preocupar, e arrematava: “Eu sou uma Luz que não se apaga”.
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E o previsível aconteceu... no dia 19 de julho de 1967, Luz foi brutalmente assassinada, juntamente com seu caseiro Edgar, pelos irmãos Alfredo Teixeira Dias e Mozart “Gaguinho”. O crime só foi desvendado duas semanas depois, e os corpos foram resgatados no dia primeiro de agosto. Extra-oficialmente, circulou durante algum tempo a versão de que a morte da naturalista fora determinada por motivos políticos, embora a explicação mais aceita para o caso seja a de que o pescador, que já era um fugitivo da polícia, a tenha matado por vingança, em virtude dela o ter delatado às autoridades após uma briga que os dois tiveram.
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Abaixo, um clip de 1949...
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.. Veja aqui a biografia completa de Luz del Fuego.