sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O lar é onde está




Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette. Ficamos a olhar o verde jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para as novas caminhadas. O recomeçar das coisas.

- Não sei onde as lesmas sempre vão, avó.
- Vão para casa, filho.
- Tantas vezes de um lado para outro?
- Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou – É uma coisa que se encontra.


Ondjaki
Em 'Os da minha rua'

Surpresa que nos espera




Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner


Renovação


Parece milagre, mas as sementes de cura começam a florescer nos mesmos jardins onde parecia que nenhuma outra flor brotaria. A alma é sábia: enquanto achamos que só existe dor, ela trabalha, em silêncio, para tecer o momento novo. E ele chega.


Ana Jácomo



terça-feira, 7 de novembro de 2017

Casa vazia



"Somos todos casas vazias esperando por alguém abrir a fechadura e nos libertar. Um dia, meu desejo se realizará. Alguém chega como um fantasma e me tira de meu confinamento. E eu sigo, sem dúvidas, sem reservas, até eu encontrar meu novo destino."

Kim ki-duk, 2004



Fotografia de Laura em Paris


quarta-feira, 1 de novembro de 2017



Não sei se foi por preguiça, por condicionamento,
pela dificuldade de estarmos plenamente atentos no instante de cada ação.

O fato é que a planta havia morrido há semanas e durante todo aquele tempo eu continuei a regá-la, como se estivesse ali.
O vaso cheio de terra, vazio de verde, permanecia no mesmo lugar,
entre os outros, como se nada houvesse acontecido.

Toda vez que eu repetia o movimento, eu me dava conta da estranheza do meu gesto, mas acabava me entretendo com outra coisa e adiava mais uma vez a retirada do vaso.
Outra hipótese é o embaraço que às vezes temos para reconhecer a morte das coisas.
Para aceitar que o tempo delas acabou, embora possa ser tão óbvio como um vaso sem planta.
(...)

Nossos gestos de desapego são capazes de criar espaço para o novo.
Minha mãe plantou outra muda de planta naquele vaso.
A última vez que vi, estava florida.



Ana Jácomo




Imagem daqui
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