terça-feira, 9 de outubro de 2018

Fim de caso



"É interessante observar que os homens falam tão bem e tão demoradamente de coisas fúteis, mas são tão parcos em relação às coisas do amor. A nossa bela história está a chegar ao fim, não é verdade? Já o sabemos há muito, mas ainda não tínhamos encontrado palavras para o exprimir. Talvez por preguiça, seguramente por falta de ardor ... Porventura também por medo. Gostaria, porém, que verbalizássemos a situação. Não quero que a nossa história se atole. Deve permanecer leve, como no início. Leve, bonita e memorável!
(...)
Haverá sempre uma parte de ti que me amará, assim como ocuparás sempre um lugar especial no meu coração. Mas já passou o tempo do amor, compreendes? Já não consegue crescer nem desabrochar. Resta-lhe estiolar-se aos poucos, o que pretendo evitar.
Devemos restituir-nos a liberdade, antes de começarmos a inventar mentiras mais ou menos mesquinhas, a desfiar as pequenas cobardias quotidianas, tão banais, tão medíocres. Porque não havemos de ganhar coragem suficiente para reconhecer que está tudo acabado entre nós, que a nossa história foi breve mas intensa, mas que os nossos caminhos divergiram e que decidimos pôr-lhe termo, hoje, um dia bonito, em que tudo à nossa volta está calmo e nos amamos tão bem ontem à noite?"

Theresa Révay
em "As Luzes Brancas de Paris"

Arte by Maria Amaral


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Saber amar


Amamos tão pouco e tão mal, como uma metade ou até mesmo como um quarto de nós mesmos. E amamos, no outro, alguns pedaços escolhidos, os mais conhecidos, aqueles que nos causam menos medo. É tão raro amarmos alguém por inteiro, com aquilo que nos agrada e com aquilo que não nos agrada.
É tão raro sermos amados por inteiro, com nossas cavidades de sombra, com nossos dorsos de luz.


Fabricio Carpinejar

(Arte de Elena Chernenko)

Entrar em mim e me perder


Essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distração, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis.
O hábito de entrar em mim mesmo me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus males; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz."

Jean-Jacques Rousseau
em "Os devaneios do caminhante solitário: segunda caminhada"

(Arte de  Marti Carbonell)

É preciso coragem

Amar é um risco assumido por aqueles que não temem os cortes de novas feridas. 
É o salto dado pelos loucos que não se preocupam com o trapézio sem rede, apenas se jogam na cega confiança de que o outro irá apará-los. 
(...)
O amor por si só é uma loucura. E, sendo assim, não responde à razão. Tem pernas próprias. 
(...)
O mais importante diante do arame farpado capaz de decepar expectativas é crer que a passagem é exata. Não pode haver a pretensão de passar incólume, já que o amor transforma a qualquer ser que toque, mas saber que é necessário encarar o risco. 
O amor é para os raros, aqueles que acreditam no abraço do lado de lá. Aqueles que não temem o perigo de amar.

Gustavo Lacombe

(Arte de Haleh Bryan)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018


Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.

Adélia Prado, em “Bagagem”

Resultado de imagem para mesa posta com bule azul vintage


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