terça-feira, 13 de novembro de 2018

O nó das sombras




Ninguém sabe ao certo quando foi que ela começou a entristecer. Ninguém se deu conta, porque foi acontecendo devagar, tão devagar como o sol quando desce e lentamente vai cobrindo de sombras as copas das árvores nas montanhas... E se primeiro ficam escuras as montanhas, depois são os prados, os rios, e de repente, mar e céu, tudo são sombras da mesma cor da sombra da noite. Da sombra da morte.

Foi assim que aconteceu com ela, como um sol que se põe. Devagar. Sem ninguém perceber. 

Um dia deixou de cantar, mas a família não notou. Os amigos não notaram. Tempos mais tarde (quando...?), davam com ela de olhos parados, colados no vazio, ou lendo para dentro (quem sabe...?) as histórias que guardava no peito... Chegou uma altura (qual...?) em que percebiam já todos que ela se assustava quando falavam com ela, como se habitasse num outro lado do tempo onde o ponteiro das horas girava em sentido inverso... Depois, deixou de sorrir. E de ter coisas para contar. Deixou de falar. E cobriu os olhos de sombras escuras, da cor da noite. Cobriu o rosto de véus de tristeza e de silenciosas solidões. Talvez tenha sido então (seria...?) que todos notaram - e era tarde. 

Impossível resgatar do breu da noite a luz de um sol que se apagou para sempre. 

Ana Mateus


Crédito da imagem: fotografia de Sebastian Schaeffer



A casa




Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.

Manoel de Barros


Crédito da imagem: fotografia minha







Que interessa quem amei mais? A minha mãe casou para se amparar, o tio Alberto amou toda a vida a cunhada e nem no leito de morte lho revelou, e a minha tia Inês negou-se ao rapaz por quem se apaixonou por estar prometida ao tio Alberto. Todos cumpriram as suas obrigações. Não terem acordado ao lado do objeto amado, não terem iniciado os gestos ou as palavras do amor não amputou a paixão. Amaram na presença e na ausência. É assim que se faz. O amor não anda ao nosso lado, o amor anda à solta nos peitos, como um pássaro engaiolado. Adormece-nos. Desperta-nos. Faz-nos sair e voltar a casa. Chorar. Rir. E se isto não é viver, o que é a vida?

Isabela Figueiredo


Crédito da imagem: pintura de Haleh Bryan

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sorri



Hoje, sorri. Sorri todo o dia. Não te forces a sorrir. Escolhe apenas sorrir. 
Sorri como se sorrir fosse o teu respirar. Sorri como se não vivesses sem sorrir. Sorri como se a tua vida dependesse disso. Não cedas. Não desabes. Não desistas. Sorri. Sorri sempre. 
Sorri ao teu vizinho. Sorri ao homem da padaria. Sorri ao condutor do autocarro. Sorri ao teu colega. Sorri a quem te ama e tu amas. Sorri para ti mesmo. 
Sorri, porque o sorrir faz parte do teu lado mais gracioso. Sorri, porque quando sorris não estás a chorar. E se estás, é de alegria e não de tristeza. 
Sorri quando olhas o céu. Sorri quando olhas o chão. Sorri enquanto caminhas. Sorri quando te olham com indiferença ou desdém. Sorri quando se riem de ti. Sorri quando sorriem para ti. Sorri sempre. Sorri sem parar. Sorri até que não se lembrem de ti senão a sorrir. E não tenhas medo de parecer divergente. Não tenhas medo de parecer deslocado. Se afinal consegues sorrir, ainda és dos poucos capazes de acreditar que tudo pode vir a ser diferente.

José Micard Teixeira


Crédito da imagem: Photo by @rehahn_photography





Para ti amigo, eu tenho sempre tempo. Terei sempre o meu relógio parado para ti, o tal relógio que esquecemos numa qualquer gaveta, e que acaba por parar, pois esse é o meu tempo para ti, o relógio que não marca o tempo útil.
Para ti, quer estejas bem ou não, serei sempre o mesmo, terei sempre a ternura que guardo ainda da porção amorosa de mim, que saiu ilesa à própria indelicadeza alheia.

Filipe Sá Carneiro
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