quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Meus velhos







Conto a idade dos meus velhos: 90, 88, 83, 82 anos. Conto-lhes as rugas dos rostos, as fraldas que mudo, as vezes que faço nestum com mel ou cerélac, em quantos pedacinhos parto a pera, a maçã, a laranja, o kiwi. Conto os banhos que dou, os medicamentos que coloco ao lado dos pratos: 17, 13, 9, 7 comprimidos. Conto as pomadas. Conto as voltas que dou à chave do relógio da sala de jantar para que a corda não pare: uma, duas, três, quatro... Conto as colheres de sopa, as camisas de dormir, os pijamas molhados e os vomitados, as babetes. Conto os sorrisos, quando chego ao fim do dia: um, dois. Conto os olhos vazios à minha volta, as tremuras das mãos engelhadas, os cabelos brancos ralos, cada vez mais ralos. Conto os terços, os pai-nossos, as ave-marias. Conto os sacos de compras. Conto as batidas do meu coração quando chego lá acima a correr, porque estou atrasada: pum-pum, pum-pum, pum-pum. Conto-as para saber se ainda estou viva. Para acreditar que ainda estou viva.
Às vezes também conto cansaços. E insônias. E solidões. E tantas tristezas, que lhes perco a conta se tento somá-las - arreganham-me os dentes e mordem-me a memória... E deixam rastozinhos de sangue. Já não conto lágrimas - a soma seria só um lago muito fundo, de águas paradas negras, negras, negras. 

Ana Paula Mateus



Uma prece



Senhor,

que não nos percamos de quem amamos. Que jamais fechemos a porta deixando ao relento algum bom sentimento, alguma emoção que nos faça sonhar... que resgatemos dos cantos empoeirados da consciência cada pessoa que já nos fez sorrir... e de alma banhada em simples carinho, esqueçamos as mágoas.

...

Amém.


Pedro Pedro



Riscos do mundo pet



“O PSICOLÓGICO DELE NÃO VAI BEM...”

Duas mulheres conversam no busão. Eu, bisbilhoteiro, escuto o papo. Elas falam alto. Impossível não ouvir e prestar atenção. Assim a bisbilhotice fica atenuada. As mulheres são jovens e falantes. A morena de óculos e cabelos encaracolados está inconsolável:

-Ele começou a dar sinais de tristeza há cerca de um mês. Não dei muita importância. Fiz carinho, brinquei, conversei com ele. Achei que o momento difícil seria superado rapidamente.

A moça magrela e lourinha investigou o caso:

-Quais foram os sinais de tristeza? Ele passou por alguma crise recente?

-Apatia, falta de apetite, silêncio... Era visível que o psicológico dele não ia bem. Ele perdeu um amigo atropelado, mas já faz mais tempo.

-Ele não interagia, não brincava com você?

-Nada, nada! Conversei mais de uma vez. Chamei para sair, dar umas voltas, e ele seguiu amuado, sem ação.

-Que coisa triste...

-Com o tempo, resolvi buscar ajuda. Levei-o a uma psicóloga. Ela foi certeira: o psicológico dele estava mal. Recomendou uma terapia.

-E aí?

-Estamos fazendo a terapia. Ele e eu.

-Fazem juntos?

-Sim, um trabalho intenso, com sessões individuais e conjuntas. Tudo com uma pegada lúdica.

-Tá dando resultados?

-Toquinho está melhorando. Já se alimenta melhor, brinca com seu osso e sua bola. Na rua, voltou a correr atrás dos outros cachorros. Está latindo mais, fazendo festa quando chego. Uma gracinha...

-E você?

-Não sei... Ando mal. Entrei em crise com a crise dele. Estou questionando minha capacidade de cuidar de um filho, de um amigo, de um bichinho querido. Meu psicológico não vai bem.

O ponto delas chegou e lá se foram as duas amigas. Toquinho, o pivô da crise psicológica, segue em paz. Sua dona, nem tanto. Riscos do mundo pet.

Antônio Pimentel





Então era ontem.

Vinha pela estrada afora quando. Dois pequetitos, garotos de roça, enxada e marmita nas mãos. Reparei que traziam espetado na lapela da blusa um alfinete, desses comuns, luzindo ao sol. Me reconheceram, declarando um bom dia ao mesmo tempo. Estaquei, posto que o brilho dos alfinetes me curiosaram. Lasquei a indiscrição: - Oi, me expliquem o porquê dessa agulheta?

-Ah é que nós vamos capinar pasto.

-Uai, e o que tem capinar pasto com uma agulha ou alfinete? A enxada, ok, a marmita, ok...mas não vejo razão alguma nesse objeto. Mixplica?

- A gente vai capinar o morro com nosso pai, ele pegou empreitada, faremos em 3 dias a capina. Daí a gente vai arrancar algumas plantas cas mão: arnica, alecrim, são joão, assa-peixe, e outros tantos de matos que nem sei o nome. Disse o maiorzinho.

-E joá. Corrigiu o menor dos irmãos.

Dãããã, pensei, ainda não entendi. Eles silenciaram, como se eu já houvesse entendido e mais nada precisasse ser dito.

-Hummmm, deixa ver se compreendi: o alfinete é para prender algum pano que vocês levam comidinhas, ne? As merendas.

Riram. -Não. A comida e a merenda vai tudo junto na marmita e no embornal.

-Mas... mas...deconjuntei o pensar. Que mistério, que razão? Insistirei mais um pouco, sou assim, detalhista. Lasquei a última indagação.

-É para tirar bicho de pé se vcs pegarem lá no pasto? Riram alto, inesperados. - Não...quáquáquáquá!

O menor foi professoral: - É assim, a gente quando bate pasto, que arranca mato com a mão, sempre pega nos meios dos matos umas plantas espinhentas, como o joá, que espeta os nossos dedos e deixa o espinho. O alfinete é pra retirar espinho de planta que entra dentro dos dedos, é isso, o senhor não sabia? Todo mundo sabe!

-Ah! Tá explicado, agora! Mas vocês deveriam estar na escola...

A gente tá. De tarde. De manhã a gente ajuda nosso pai. O pasto é vasto, aquele lá, ele dobra a corcunda até o outro lado. Sem nós, meu pai sozinho não dá conta de fazer em três dias. São trezentos reais, que ele sua para a nossa comida. A gente tá acostumado. Tchau!

Sumiram, na curva. O alfinete se encaixou na explicação, mas alguma coisa...alguma coisa ainda estava fora do lugar...alguma coisa, que espeta, que sangra, um travo amargo de realidade.

José Antonio Abreu de Oliveira



Crédito da imagem: fotografia de José Feitosa






terça-feira, 13 de novembro de 2018

Entrrematizes



Num sei bem causdequê eu parava naquela casa, dava um jeito de puxar conversa com a dona e futicava o jardim, semblante de cores. Muitas. Das roxas, três; das amarelas, cinco; uma azulada, algumas entrematizes, tigradas, como se alguém entornasse o céu se esquecesse de alimpar.
Das cores, acho. Que era o que me paralisava. Não tinha jeito de não ver, que me lembrava de uns quadros antigos, aqueles jardins bagunçados, prenhe de pontilhamentos. Que era minha vida adolescente, vivaz, com medo e súbitas coragens. Minhas luzes de futuros. Cores prenunciosas. O que seria de mim, Houvera que fosse cravina, acácias, roseiral, musgo e jasmim.
E se passaram quarenta e cinco anos, de auroras e ocasos dourados. O jardim, não sei, ora sei, ora não tenho certeza, mas se vejo daquele conjunto de buqueres coloridos, me acho feliz em saber que permaneço indo lá, e sempre, e sempre. Nunca deixei de ir.

José Antonio Abreu de Oliveira


Crédito da imagem: fotografia minha



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