domingo, 30 de dezembro de 2018

Presente e futuro...




Ele chegou todo contente e deu-lhe um presente.
Ela ficou triste porque o que realmente queria era um futuro.

microcontos

Acreditar é preciso




Sementeira




"O poeta faz agricultura às avessas: numa única semente planta a terra inteira. Com lâmina de enxada a palavra fere o tempo: decepa o cordão umbilical do que pode ser um chão nascente. No final da lavoura o poeta não tem conta para fechar: ele só possui o que não se pode colher. Afinal, não era a palavra que lhe faltava. Era a vida que ele, nele, desconhecia."

Mia Couto


“Ah! Quanta gente sozinha,
Que a gente mal adivinha.
Gente sem vez para amar,
Gente sem mão para dar,
Gente que basta um olhar, quase nada…

Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão.
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada.”

In: Um Homem Chamado Alfredo, de Vinícius de Moraes



Imagem: refugiados Google




Quietude



" Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha. "

Caio Fernando Abreu



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