domingo, 30 de dezembro de 2018

Se perguntarem por mim digam que voei



- É por essa janela que costuma voar?

Joana Ofélia sorriu.

- Qualquer janela serve. Foi Demérita que me ensinou. Basta olharmos através dos vidros e somos mais livres do que pássaros. As pessoas podem continuar a ver-nos, mas só nós sabemos que há muito que ali não estamos, que voamos com as aves, com o vento, com a poeira da estrada, com a água da chuva.

Alice Vieira, in Se perguntarem por mim digam que voei


Imagem: Pinterest



Poemas e bolas



Lentamente, a praça enche-se de sol e de ruído. No único banco sem sombra só estou eu, nas mãos - aninhados - os poemas de Herberto Helder, nos olhos o mel dourado das suas palavras... De repente uma bola azul e branca tomba-me no colo, umas mãos pequeninas vêm reclamá-la e uma voz tímida sussurra um Obrigado! quando a devolvo. Regresso aos poemas já menos concentrada: junto do banco pombas e pardais bicam restos de pão, lutam por um quinhão de croissant com chocolate que abandonam em fuga espavorida, tentando pôr-se a salvo da rota da correria doida de um cão... Devolvo a bola ao miúdo outra vez e outra e mais uma ainda... E agora os Obrigados trazem gargalhadas que rebrilham à luz morna da manhã como cascatas de água cristalina. 
Desisto: fecho o livro e abro o caderno dos apontamentos... Na folha branca nasce-me, sem avisar, um poema parolo onde sol rima com bola, com criança e com ave... Tenho a certeza que, de dentro do seu maravilhoso livro, com um sorriso condescendente, o Herberto Helder me perdoa o mau gosto... 
Fecho os olhos e viro o rosto para o sol. Pela quinta vez, tenho uma bola azul e branca nas mãos. Sorrio. Decididamente, gosto de praças cheias de sol e pombas, com cães a correr e crianças a jogar à bola.

Ana Mateus


Crédito da imagem: "Brincadeiras de rua", de Delmiro Gouveia


Podes dizer ao mundo inteiro que estas letras são tuas. Assim como os desenhos que fiz, os espaços que deixei. Podes dizer a toda a gente que um dia te amei e que foste tu quem me fez poeta. Podes nadar em orgulho ao saber que todos os copos que bebi foram por ti. Que os cigarros que fumei ansiosa e apressadamente foram pela saudade do teu corpo. 

Quando falarem de raios e relâmpagos, de trovões e de tufões, vais poder dizer que fui eu quem fez a China, quem ergueu muralhas e deitou lágrimas de sangue. Quando te perguntarem se um dia me conheceste, diz que sim.

Responde um afirmativo de poder e de vontade. Podes deixar o medo do conhecimento alheio, agora que te sou completamente alheia. Quando um dia o mundo se desfizer verdadeiramente em estações trocadas - o Verão pelo Outono ou o Inverno pela Primavera - aí podes descansar. Podes contar à galáxia e aos seus sobreviventes que, meu eterno desconhecido, um dia me fizeste rainha.

José Eduardo Agualusa, in Revista Egoísta, nº 32


Imagem: Pinterest



Como é que se esquece alguém que se ama?



Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume' 



Crédito da imagem: Estudio Ars Thanea


Sentindo-se leve



Podemos subir a pé uma escarpa, uma duna, uma montanha, uma falésia, sei lá eu, um penhasco no fim do mundo, qualquer coisa que nos deixe mais perto do azul... 
E depois eu posso dizer palavras belas à toa: ave, peixe, árvore, mar. 
Ou talvez não chegue a dizer nada. 
E esse silêncio entre nós será a música com que pousas as nuvens no meu colo. 

Ana Mateus


Imagem: Pinterest



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