quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Me espere!...
Espere por mim, que eu retornarei - só espere com muito ardor;
Espere da mesma forma quando você sentia-se triste pela chegada da chuva amarela;
Espere quando o vento varrer os flocos de neve; espere no mais intenso calor;
Espere quando os outros, esquecendo-se dos seus dias anteriores, pararam de esperar;
Espere mesmo quando de longe não mais chegarem cartas para você;
Espere mesmo quando os outros já cansaram de esperar;
Espere mesmo quando a minha mãe e o meu filho pensarem que eu não existo mais;
E quando os amigos sentados ao redor do fogo brindarem à minha memória,
Espere, e não te apresses também em beber com eles pela minha memória;
Espere, pelo meu retorno, a despeito de todas as mortes;
E deixe aqueles que não me esperaram dizer depois que eu tive sorte;
Eles nunca vão entender isso, pois em meio a tanta morte,
Tu, com a tua espera, conseguiste me salvar;
Somente você e eu sabemos como eu sobrevivi -
É porque você me esperou quando ninguém mais o fazia.
Konstantin Simonov, poeta e dramaturgo russo.
Crédito da imagem: pintura de Henrik Uldalen
A semântica do indizível
Aprender o alfabeto da luz, a pronúncia sussurrada da folhagem, estudar apaixonadamente as conjugações estelares, aprofundar o léxico galáctico, mergulhar na semântica universal
e apesar disso, bastar-me o pensamento de contigo me cruzar para logo emudecer.
António Gil, in Obra ao Rubro
Crédito da imagem: "Do Delírio", de Lucia De Moura Chamma ( detalhe)
técnica mista, acrílico, óleo, spray, gesso, cola, bandagens sobre tela
100 X 80 cm
Rio, RJ, 2013
coleção particular
imagem do dia
Um raro e feliz flagrante de Jim Frazier. O pássaro azul olha para São Francisco de Assis que, por sua vez, o olha tão atentamente como se de fato o ouvisse cantar...
Esta escultura do santo foi feita por Fank C. Gaylord e se encontra na cidade de Chicaco- Ilinois, EUA.
Quando estiver na cama e ouvir o latido dos cães no campo, esconde-te sob as cobertas e não zombe daquilo que eles fazem, pois eles, como você, como eu e como todos os seres de cara pálida e alongada, têm uma sede insaciável de infinito...
Isidore Ducasse (1846-1870) - Conde de Lautrèmont
Crédito da imagem: Arte do pintor surrealista Tomasz Alen Kopera
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
A escuridão dos dias
Dia 170.
Por mais que os meus sentidos procurem um sentido, o dia de hoje é um grande et cetera. Não quero saber do que o médico diz. Respiro, respiro, respiro, e não me sinto confortável...
Poderia ser complicado, mas não é. Poderia ser divertido, mas não é. Gostaria de entender o que não está bem, mas não sei o quê. Sinto apenas que alguma coisa não está bem. Talvez seja do cansaço, desta mania de fazer, pelo menos, duas coisas ao mesmo tempo.
Não me apeteceu continuar a ler as Odes de Horácio, e recusei o convite para beber com Jean-Arthur Rimbaud uma cerveja no inferno. Sinto até a minha sombra fatigada e, ao contrário do que é costume, não é com olhos ardentes nem com um novo fogo que dispo a manhã ou pronuncio o meu nome.
Veio à lembrança uma fotografia que me tiraram em miúdo com várias pombas poisadas sobre os meus braços. Eu adorava essa fotografia, que se perdeu, que voou no tempo como as pombas. E a verdade é que me sinto apenas um menino de dez anos com os braços vazios, a quem ninguém quer tirar uma fotografia.
Veio à lembrança uma fotografia que me tiraram em miúdo com várias pombas poisadas sobre os meus braços. Eu adorava essa fotografia, que se perdeu, que voou no tempo como as pombas. E a verdade é que me sinto apenas um menino de dez anos com os braços vazios, a quem ninguém quer tirar uma fotografia.
Hoje preciso mesmo de ti.
Joaquim Pessoa, in ANO COMUM
Crédito da imagem: Arte de Leanne-lim-Walkerl
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