quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Ainda sobre quietude



Em tempos de muito alvoroço, é bom não esquecer...







quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019




Não gosto de coisas pequenas, nem de pintar com a ponta dos dedos. Uso o corpo todo.

Tomie Ohtake


imagem: Google

Clariceando



E eis que sinto que em breve nos separaremos.
Minha verdade espantada é que eu sempre
estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só.
Eu e minha liberdade que não sei usar.
Grande responsabilidade da solidão.

Quanto a mim assumo minha solidão.
Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício.
Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima
que na solidão pode se tornar dor.
E a dor, silêncio.

Guardo o seu nome em segredo.

Preciso de segredos para viver.

Clarice Lispector



Crédito da imagem: poster by Rafael Duarte
45 x 30 cm
Papel matte

Para mulheres que compreendem recomeços





Só notei a primavera quando fui bater o meu tapete na janela. E percebi que as cores das flores estavam mais vívidas que as poeiras do meu passado. A vida me sorria lá fora como um jardim... Eu não havia parado para notar setembro. Estava presa em casa com um cisco no olho.

Karinne Santiago



Crédito da imagem: pintura de Angela Lemos Bezerra





Quando o relógio em forma de oito marcava o parimento da aurora, antes que alguém da casa abrisse portas ou janelas, e o começo das coisas ainda era reino da intuição, os quartos marcados pelos roncos dos adultos e os travesseiros molhados de baba de pré-adolescentes, minha tia Luzia se levantava, apanhava o terço e o livro engordurado velho de rezas, acendia o fogo, arregimentava os utensílios, dizia "ferve água, pula o pó pra dentro do coador, coa café" e esperava. Esperava.

Enquanto o canecão não fervia, abria o livrinho na reza para algum santo do dia e apertava os caroços do terço para a caminhada de repetições de aves-maris e padre-nossos no rumo dos mistérios e estações. Enquanto rezava, vibrava o tronco para frente e para trás, marcando o compasso de uma invisível cadeira de balanço. No primeiro mistério contemplamos...

A água fervia, mais ou menos na metade da trilha do rosário, borbulhando em recitações. Sem interromper o ritmo da oração, em uma das mãos a corrente de contas que habilmente manejava e, na outra, atarefava-se com a preparação da bebida, que fumegava pela casa, rescendendo a incenso de acordar os adormecidos. Terminada a reza e a depuração da bebida e aromas, arrumava a mesa com toalha de plástico e canecas de ágatas verdes, uma cesta de pães amanhecidos e uma fruta, quase sempre mamão.

Dirigia-se para a varanda. Sentava-se num pilão e acendia um baforante, olhando o amanhecer. Um rádio do vizinho passava a transmitir músicas de calangos, sertanejos, canções de violeiros. Durante 30 anos, do que me lembro, esse era seu imutável ritmo. Nunca se casou. Nunca falou de seus amores. Nunca indagava da vida de ninguém. Era um paredão de mistérios. Do que me lembro, além de trabalhar por opção feito uma serviçal eterna, eu conseguia capturar um ou outro momento de encantamentos, raros, pois sua rígida personalidade evitava demonstrar qualquer emoção. Um deles era exatamente este olhar matinal para o infinito, em tons de rosa e azul de papel de seda, quando parecia olhar e sorrir, leve sorriso de Mona Lisa. O infinito lhe penetrava a alma, e ela aquiescia. Aos humanos, não, era bondosa e gentil com todos, sem se entregar por inteira. Uma pessoa que esperava, e esperava, e esperava.... isso deve ter sido o seu grande segredo.

José Antonio Abreu de Oliveira


Crédito da imagem: pintura de Rui de Paula




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