quarta-feira, 22 de maio de 2019



Amanhã vou pintar o cabelo, decide. 

Porque no amanhã de certos dias pinta sempre o cabelo ou compra um batom diferente, mais claro, mais escuro, incolor, pinta os olhos ou ignora-os, usa ou não óculos escuros. Há ocasiões em que a encontram, hesitam, será ela?, devem pensar. 

“Meu Deus, estás diferente, que te aconteceu, mulher?” 

Apetece-lhe responder que morreu e ressuscitou, que estava na idade dos peixes e houve um cataclismo e se encontra agora na dos lagartos, mas ninguém iria compreender as suas palavras. Nem ela própria. Porque além da cor do cabelo, ou do lápis com que pintou os olhos, tudo está absolutamente igual.

Maria Judite de Carvalho

Inevitável



Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Não porque não te amasse, ou porque não me quisesses tu. Simplesmente tinha de acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separamo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.

Manuel Jorge Marmelo 
in O Amor é para os parvos 





Tentei lembrar o alfabeto, fazer crescer as letras, abrir novas palavras no colo das páginas. 
Mas nenhum nome tem o teu tamanho. 
Tentei ainda escrever-te em todas as linhas: os teus cabelos violentos, os teus passos que nem tocam no som – e até a pornografia perfeita da tua voz. 
Mas nenhum nome tem o teu tamanho. 
Nem a felicidade tem o teu tamanho.

António de Deus-Rosto




domingo, 5 de maio de 2019

A funcionária 528 e a poesia




A funcionária 528 olhou em volta, confirmou mais uma vez que tudo estava perfeitamente arrumado e, antes de sair, baixou o estore para que o sol não queimasse os livros antigos, alinhados por ordem alfabética na estante da Poesia. Depois desceu a escadaria arrastando os passos devagar, com pés de pedra que a puxavam toda para baixo, lhe encurvavam os ombros, desenhando-lhe uma silhueta estranha, enrolada para dentro como a dos búzios... 

No corredor cheio de luz, devolveu o sorriso a um aluno, acenou a outros, cumprimentou os colegas que se cruzavam com ela. Foi pacientemente que tomou o seu lugar na fila do bar, apetecia-lhe um café, o café que daria sentido à espiral de vertigens no seu peito vazio. Através dos imensos janelões, atirou o olhar para o lago do pátio interior, demorou-o no corpo negro de uma gaivota em contraluz, vigilante, preparando o salto que traria a morte a um peixe atrevido, à tona da água esverdeada. 

A morte de um peixe podia ser motivo para um poema... ou a cadeira derrubada na pressa das horas... ou a espuma das nuvens a galope, como cavalos selvagens tingindo pinturas... Coisas que ninguém via, coisas em que ninguém reparava. A funcionária 528 gostava de poesia. Tinha-se perdido dela há algum tempo, ou talvez lhe tivesse sido arrancada pelas lâminas do relógio, pela lista interminável das tarefas inadiáveis que guardava na pasta... Sentia falta da poesia, da sua pele rasgada, aberta em rabiscos de sangue nas palavras de um verso. 

Enquanto bebia o café, a funcionária 528 percebeu que há coisas que, não importa os hemisférios, não podem roubar-nos nem nos morrem nunca... E quem a observasse, perceberia o sorriso quase, quase feliz e leria nos seus olhos o poema secreto que como uma flor, nascia do caos quotidiano: um poema há muito esperado onde num céu cheio de nuvens a galope voava uma gaivota... Um poema que chorava a morte de um peixe... Um poema que desenhava uma cadeira tristemente tombada no chão dos dias. A funcionária 528 engoliu o cansaço com o café e respirou fundo. Sentia-se livre: tinha sucumbido à urgência da poesia, a invisível ponte entre o seu coração e a terra. 

Ana Mateus



Crédito da imagem: "Chosing the latest one", in https://www.jigidi.com/


Restolho




Tudo bem. Tudo indo. Tudo certo. Tanto amor. Tudo incerto.

Tanta coisa ruidosa. Tanta saudade danosa. Tanto querer. Tanto fazer. Tanto prazer. Tanta espera pelo nada. Tanto frio no vazio. Tanto choro sem consolo. Tanta loucura solitária.
Tanta dor sem cura. Tanto aqui. Tanto muito pelo pouco. Tanto pouco pelo muito. Tanta escuridão sem motivo. Tanta claridade sem necessidade. Tantos presentes urgentes. Tantos futuros incertos. Tantos invernos nus. Tantas primaveras mortas. Tantos ensaios sem roteiros. Tantas peças sem palmas. Tanta coragem sem causa. Tantos medos sem motivos. Tantos punhos cerrados. Tantos abraços contidos. Tantos ganhos sem necessidade. Tantas necessidades sem ganhos.

Tantas buscas sem encontros. Tantos imaginários. Tantos silêncios perversos. Tantas portas abertas. Tantos corações fechados. Tanta cumplicidade sem par. Tanto amor desperdiçado. Tantas lembranças acumuladas. Tanto eu presente. Tanto tu ausente.

Ita Portugal


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