segunda-feira, 3 de junho de 2019

Debaixo da pele todas as guerras são só minhas



Saborear a paz com o mundo. A paz com os homens.
E no entanto, travar guerras comigo na espuma dos dias, tantas vezes, na ronda das noites... Armadilhar os instantes, mesmo os mais improváveis, no desejo impossível de roubar as asas às aves, de mergulhar fundo nos abismos, de ver de olhos fechados aquilo que não pode perder o brilho... Lançar mísseis terra-ar, rebentar bombas e espoletar granadas, cavar trincheiras para encurralar as emoções. Sabotar a desesperança. Armadilhar a memória - sou guerrilheira de mim, sniper de elite na precisão dos tiros, nos disparos que implodem as sombras, que despedaçam os fantasmas... Queimar-me. Ferir-me. Sangrar. Convocar todas as forças em ataques aéreos às janelas do olhar; atear fogo de chão no rasto dos meus passos. Incendiar cheiros e cores e músicas e palavras... Fazer puro terrorismo à infinita saudade... É uma guerra sem aliados nem alianças, sem tratados de paz nem acordos de cessar-fogo. 
E depois, afinal, refugiar-me no bunker do coração, lamber feridas, curar as chagas no sal das marés. Trair o tempo. Iludir as sentinelas da razão. Depor todas as armas, rir das ironias do destino, continuar a querer os impossíveis, abrir as asas para voar mais longe... Tropeçar de ternura... Quem sabe, ir morrendo aos poucos, de excesso de paixão...
Render-me sem mágoa aos efeitos colaterais: a lágrima traidora, vigia teimosa e transparente aos outros, a encher de brilho a lonjura do olhar; talvez um bater mais forte do coração.
Em paz com o mundo. Em paz com os homens. 
Debaixo da pele, todas as guerras são só minhas.

Ana Mateus


Crédito da imagem: arte de Jared Joslin



Manhã modorrenta *



Acordar cedo. Quem acordou também? Deixa-me ver. O sacristão, pois alguém badala o sino, a sonoridade se esvai como cachoeira de águas frias escorrentes pelo vale. Ah, mamãe gambá, com seus gambazinhos agarrados às costas atravessou a rua. Em que forro dona gambá habita? o bem-te-vi se apresentou ao nascer do dia: o que ele viu, que tanto algaravia?

Sim, algumas nuvens acordadas, uma brisa que perpassou a janela, os objetos parecem atentos, veja o copo ainda molhado, letárgico, mas bem disposto. Os adornos da casa resistem, não os sinto acesos e ativos. Modorrentos, só se despertam por volta das oito horas. As cadelinhas, niente, niente, dormindo plenamente.

Vozes ao longe, desconfio que é um ônibus de partida, caminhões com trabalhadores rurais, olhal á, quem diria, aquele moço saindo da casa de...cala-te boca, nada tenho com isso, houvera de que a noite tenha sido pura diversão, o viver é que é importante. Algum amor para aguentar a barra.

Bem sei que daqui a pouco as lojas sobem suas portas e começa o frenesi. Não é lá um frenesi daqueles, é calmo, na verdade frenesi nenhum, anda faltando fregueses, mas um ou outro aparece, compra pão, ou leite, ou toma um café expresso, algumas lojas já nem abrem mais suas portas neste país de sonhos interrompidos.

Que dia é hoje? Que país é esse? Ah, sim, alembrei-me. Ainda com a cabeça em maresia. Mas estas cores que despontam no alto das montanhas, sabe, elas nos fazem crer que alguma coisa é possível para além do desalento. Não, ainda não, por favor, não me mostrem as manchetes. Não leio notícias quando a aquarela do empíreo se exibe. Depois, sim, depois a gente conversa e fica sabendo das novidades.

Que sejam amenas. Bom dia!


José Antonio Abreu de Oliveira



* o título é sugestão minha

Imagem da Web




Silêncio x Memória



A lei do silêncio é inútil. Quando algo nos persegue na nossa memória ou na nossa imaginação, as leis do silêncio são inúteis, é como fechar uma porta à chave numa casa em chamas na esperança de nos esquecermos que ela está a arder. Mas fugir do incêndio não o apaga. O silêncio em relação a uma coisa só lhe aumenta o tamanho. Cresce e apodrece em silêncio, torna-se maligno.

Tennessee Williams



Imagem daqui



Fotodescendentes



Há na fotografia algo de insidioso: ela faz, por exemplo, aparecer aquilo que nunca se percebe diretamente no rosto. Algo que se esconderia, paradoxalmente, nos seus traços: a descendência. Uma linhagem que se nota em retratos de família. A imagem em suspensão é capaz de conter o tempo, a continuidade da espécie. A fotografia é como a velhice: mesmo resplandecente, ela desencarna o rosto, manifesta sua essência genética.

Roland Barthes

Crédito da imagem: Pinterest

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O sonho é a pior das cocaínas


 


O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'



Crédito da Imagem: Digital painting by @aykutmaykut



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