terça-feira, 9 de abril de 2019

Carta a D.



Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher. Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo, têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida?

André Gorz 
(De André Gorz para Dorine Keir)





Tens ideia de quanto mal nos fazemos por essa maldita necessidade de falar?


Luigi Pirandelo

segunda-feira, 18 de março de 2019



Aprender a navegar o silêncio, saber esperar a maré cultivando com doçura o destino, não fixar ancora no tempo ou na pele, sussurrar palavras de amor que só o vento consegue ouvir e mergulhar todas as certezas no abismo sem tormentas da alma.

Antonio Jorge Valério



Crédito da imagem: "Woman Siting", escultura de Isabel McIlvain





Como eu gosto de ti, ninguém o entenderia. Nem a cama esvaída que me obriga a desprender-me do corpo noutras roturas noturnas e azedas. Nem a solidão taciturna que escorre devagar nos chuviscos flamejantes do amor. 
Como eu gosto de ti, nem o mundo o aceitaria. As árvores trépidas, os animais ferinos, a cadência dos lagos, mobília sisuda que ganha a morte sobre o couro crestado. 
Como eu gosto de ti, só a melodia do poente trova. E se a antemanhã sucumbe nas copas das sequoias - ricocheteando como uma bala célere - perfurando como um comboio alucinado - a incerteza dos teus sinais desmancha-se sobre os meus lençóis na loucura do leito. 
Como eu gosto de ti, só eu sei, de dentro para dentro, como um confim de baús entreabertos às galáxias chamejantes do céu da boca. Como eu gosto de ti, segredando-me da voz o rasto da tua presença, pernoitando-me de corpo fixo e amor esquivo, a temperança das tuas enchentes.

Alice Turvo


Imagem da Web







Tens direito aos teus rancorzinhos e ao bom proveito que eles te façam e também ao mau, que isso de rancores é igual a estrume: tanto dá tétano como dá flores.

Rui Caeiro



Imagem da Web
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