quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dos meus livros



"- É verdade que seu marido saiu sete vezes de casa?
- Eu não conto as saídas. Conto só as vezes que ele voltou ...
- Está certo.
- E lhe digo, Doutor: não fique a perder. Porque ele voltou mais vezes do que saiu.
- Bom, há maneiras curiosas de fazer contas ...
- Para mim, o meu marido me chegou sempre multiplicado..."

Mia Couto, no livro "Venenos de Deus, Remédios do Diabo"


Imagem: facepage Colors For You


Aos nossos filhos



Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes
arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre;
enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no
gatilho.

Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em
que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe
e mais puro, e ajude a redimi-lo.

Paulo Mendes Campos


Crédito da imagem: fotografia de Marcelo Buainain


Dizendo adeus... até quando?



Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'



Crédito da Imagem: Google


Dos meus livros



Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja, para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo. Porque tu foste de um mundo incorruptível onde o tempo não passa e é aí que tu moras no eterno de ti.

Vergílio Ferreira, in 'Cartas a Sandra



Crédito da Imagem: "The Remains of a Memory" de Adam Martinakis


Clariceando



Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu nunca falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.

(Clarice Lispector, em A Paixão Segundo G.H.)



Crédito da Imagem: Fotografia de © Pierre Debusschere



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