segunda-feira, 27 de novembro de 2017

De que mais precisa um homem



De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar - e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol pra pescar?
E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos, uma pro caniço, outra pro queixo, que é para ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça pra puxar tristeza, e um pouco de pensamento pra pensar até se perder no infinito...
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra - um pedaço bem verde de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim - que um jardim é importante - carregado de flor de cheirar?
E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para mexer a terra e arranhar uns acordes de violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque pra puxar mistério, que casa sem mistério não tem valor de morar...
De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar - um desses que desmereça um pouco da amizade, de um amigo pra paz e pra briga, um amigo de paz e de bar?
E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo, e pra discutir com o amigo e pra servir bebida à vontade ao amigo?
De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular?
E enquanto pensando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o destino o carrega em sua onda sem rumo?
Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher - as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo...

Vinícius de Moraes


Estátua viva



Já havia visto aquele homem diversas vezes, sempre no mesmo local: a grande entrada de um parque próximo de casa, onde se apresenta ao público.

Calvo, estatura mediana, magro e um grosso bigode. Com a cara, a cabeça e as duas mãos inteiramente pintadas de prata, a mesma cor de seu terno puído, ele trabalha como estátua viva, dessas que surpreendem os simples de coração, especialmente crianças e idosos, fazendo um leve salamaleque em reverência a quem lhe deposita moedinhas na pequena caixa de papelão à sua frente.

Essas figuras sempre cativaram minha atenção e comiseração. Não apenas porque fico a imaginar a sede e o calor infernais que suportam debaixo de sóis torrenciais, mas especialmente porque sou incapaz de ficar mais de um minuto em pé sem que me doam as costas ou as pernas. Imaginem então horas a fio como eles ficam, tão imóveis que até os movimentos torácicos tornam-se quase imperceptíveis.

A atmosfera enigmática por trás daquele semblante prateado sempre me atraiu também. Algumas vezes, ao passar por ali, peguei-me pensando como seria a vida íntima daquele sujeito calvo, prateado e visivelmente triste. Não há mesmo meios de se imaginar como pode ser feliz um homem em pé, em cima de um caixote, que se abaixa ao tilintar de qualquer moedinha que lhe oferecem. E faz disso a sua rotina diária.

Pois hoje, agorinha mesmo, vindo para casa, testemunhei com um grande incômodo a cena que eu jamais pensei em ver: o relógio marcava mais de oito horas da noite do domingo quando, sentado no ponto de ônibus em frente ao parque, vi aquele homem. Com o rosto ainda prateado, sua expressão era só cansaço.

Já lavei o meu próprio rosto por duas vezes e não saiu da pele a sensação de coceira pelo excesso de tinta prata num dia de sol. Aliás, não saem de minha retina as cenas que não vi, daquele homem pagando o ônibus com moedas de centavos recebidas a tão duras penas, daquele homem chegando em casa e beijando esposa e filhos à distância para não lhes sujar os rostos de prata, daquele homem deitando em sua cama para descansar costas, pernas e pés moídos por tão árdua tarefa. Daquele homem cerrando os olhos e só os abrindo no dia seguinte, percebendo que dormira sem tirar a tinta do rosto de tão exausto que estava.

E com as mãos ainda prateadas, o homem prepara o café, retoca a maquiagem prata no rosto triste e sai ainda de madrugada para mais um dia de trabalho.

Sai na verdade a enfrentar, com a alma endurecida de uma estátua quase sem vida, uma outra segunda-feira em sua vida cinza.

Cinza como a prata.

Fernando Augusto Martins Canhadas


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Imagem do dia





Nos achamos e nos perdemos



Que nome te dar?
Não há outro como tu.
Somos cada um um pouco do outro.
Tu és a outra metade de mim.
A parte de ti que de mim ficou.
A parte de mim que foi contigo.
Ninguém me está tão próximo
e ninguém me escapa tanto.
Como pode ser que constantemente nos encontrávamos
e sempre nos perdíamos?


Livre adaptação de um treco de Manuel Alegre, em “A terceira rosa”


Nem tanta lucidez



Precisamos urgentemente de nos enganar com o que quer que seja, 
de fugir à brutal realidade das coisas, de entrar em zonas que nos poupem da lucidez. 
Adoecemos rapidamente se não formos entretidos.


Pedro Paixão 
Amor Portátil


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

...