sábado, 15 de dezembro de 2018

Não chegamos a ser



Trago, em algum lugar dentro de mim, a certeza de que nos encontraremos de novo. Isto está muito claro prá mim. Vamos nos encontrar nos mesmos lugares onde estivemos. Vamos rever pessoas, paisagens, sentir de novo o gosto do café expresso, da água de coco. Além de reviver tudo, vamos recuperar o tempo que passamos separados. Sim, pois tudo foi aprendizado. Já não erraremos mais do mesmo modo. Não cometeremos as mesmas faltas, não padeceremos das mesmas solidões e nem nos imputaremos as mesmas indelicadezas. Este tempo de agora nos fortalecerá... é como um caminho de exílio, no qual amadurecemos. Por enquanto limito-me a fechar os olhos e pensar em você. Mas aqui dentro, em algum lugar que só enxergo de olhos fechados, sei que nos encontraremos de novo. 
(Sabe aquele banco lá no parque? Aquele, que um dia vimos um casal de velhinhos sentados, de mãos dadas? Lembra o que você disse? “Somos nós, daqui a mais alguns anos...” )

Não chegamos a ser. Mas o banco ainda está lá, e eu passo por ele todos os dias.


Dalva Nascimento

Hoje seria seu aniversário de 59 anos.
Tem festa no Céu.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018




Naquela época eu tinha medo do silêncio e não percebia que não havia mal nenhum em ficar a meio de uma conversa, ou mesmo em não haver conversa entre duas pessoas que vão lado a lado. O silêncio é como o mar. Envolve-nos, e pode submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas pode também embalar-nos, se perdermos o medo e nos deixarmos ir. Em ambos, mar e silêncio, nada pior do que esbracejar de pânico.

Rui Zink, in A Espera






Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico, a felicidade por plástico e o próprio plástico, por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.

Afonso Cruz, in O Cultivo de Flores de Plástico




Vem ver a lua




Já é noite. Vem comigo ver a lua. Vem comigo ver a lua que está sobre o mar. Repara como repousa o luar - tão calmo - sobre ele, tão revolto. Tão revolto como o meu coração nesta noite. Esta não é uma noite qualquer. É uma noite surreal, como nenhuma outra em nossas vidas. Pois que o mar joga duro suas enormes e líquidas ondas contra as pedras. Ouve o estrondo com que elas se jogam e o silêncio com que se desmancham em espuma, num queixume surpreendido pela lua, como num flash. Um queixume tão igual ao meu, cá nos meus olhos tão líquidos de encontro aos teus, tão rochosos. Vem comigo ver a lua. Repara em todos os seus amarelos e dourados que se espalham pelas águas deste anoitecer - serenos e silenciosos, selvagens e sofridos. Como eu. Já é noite e eu quero ir contigo ver a lua.

Dalva Nascimento



domingo, 2 de dezembro de 2018

Um passado



Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é o que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza mas a História, a verdade.

Afonso Cruz

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