sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A boneca desaparecida



Franz Kafka, conta a história, de que certa vez, encontrou uma menininha no parque onde ele caminhava diariamente. Ela estava chorando. Tinha perdido sua boneca e estava desolada. Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não se lamente por mim, parti numa viagem para ver o mundo. Escreverei para você sobre minhas aventuras”. Esse foi o início de muitas cartas. Quando ele e a garotinha se encontravam, ele lia essas cartas compostas cuidadosamente com as aventuras imaginadas da amada boneca. A garotinha se confortava. Quando os encontros chegaram ao fim, Kafka presenteou a menina com uma boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original. Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. Muitos anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta. Em resumo, dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.






Eu era a que menos luzia




No dia em que cheguei havia poucas ruas na Villa Madre Della Guardia. As tardes eram nuas e suadas, cada mulher casada tinha dois ou três amantes. Um calor tão intenso que ao mínimo sussurro do sol as demãos de tinta das janelas crestavam. Eu era magra e andava descalça, das tardes, era a que menos luzia (ao cair da noite). Eu era magra e era cega, meu cão guia também, cego e esquálido. Eles riam. As casadas e seus amantes e, com os maridos, à noite, me cuspiam. Eles diziam, homens e mulheres e crianças, que das tardes, eu era a de mais alta nuvem (de poeira). Não tinha sapatos, era esquálida e sem palavras, motivo pelo qual eu e o cão nos abrigamos no cemitério dos judeus, entre os mortos suicidas e comunistas sem falanges ou dentes. Era uma mulher magra, nua e cega e, por poeira, acinzentada. Vivia com um cão vira-latas cotó de uma pata e morava num mausoléu abandonado pelos genes. Se tive nome um dia, não lembro, nem pai, mãe ou irmãos. As tardes polvorosas levam as memórias para longe, mas as próprias, as tardes, delas mesmas, pouco levam. Da poeira da tarde pouco se lava embora com alarde e insultos ardentes muito se espana. As tardes varrem a poeira das ruas e das calçadas. Os amantes lavam o tédio em suores e salivas às tardes e, por ser quase sempre tarde, perto, muito perto, da hora da realidade, com algum cinismo, pouco se lembram.

Fabíola Lacerda



Crédito da imagem: Greta Garbo em cena do filme Flesh and the Devil




Um conto minúsculo




Desde criança que sou meio triste, melancólico. 
Por causa disso fiz n anos de psicanálise, tentei a arte, amores, tudo, para ser feliz. E eis que descubro que sou feliz sendo mesmo triste e melancólico.

Sérgio Andrade Sant'Anna




Crédito da imagem:   Buster Keaton, no filme Steamboat Bill










Lembrei disso porque está dando um sono...


 

"Primo Marcio na rede, eu no banco da varanda. Fazenda, verão, depois do almoço, aquele calor desgraçado, preguiiiiça, um trovão ao longe,

Eu pergunto: será que vai chover, Marcio?
Ele, bocejando. Vai não. (Começa a chover.)
Eu: Tá chovendo e o vidro do carro tá aberto.
Ele, de olho fechado. Uns pinguinhos à toa..
(Cai um dilúvio.)
Eu: Tá chovendo muito, Marcio!. Vamos fechar o vidro da caminhonete!
Ele, quase cochilando:
Tá louco, debaixo desse temporal!?

(Lembrei disso porque está dando um sono...)"

Fred Coutinho



 

Crédito da imagem: foto de Jose Luis Garcia Montalvo




Tenho mais de 60 e menos de 70 anos

 

Tenho mais de 60 e menos de 70 anos.
Mulheres de minha idade entram num limbo hormonal complicado difícil de ser entendido pelos melhores especialistas do ramo.

As unhas enfraquecem assim como os cabelos.
Os joelhos insistem em doer e os olhos pedem óculos com graus diferentes para longe, perto, cinema, jornal, buracos da prefeitura.

Isto tudo se você não se olhar no espelho e evitar reparar como seus dentes escureceram, encavalaram, a boca murchou, e, pior! os lábios carnudos foram tragados pelo
beijo traiçoeiro do estômago.

Somos invisíveis para uma grande parcela da população e soco de areia para outros praticarem seus pequenos ataques de descarrego neurótico.

Aos poucos estou me acostumando a viver nesta zona de desconforto.
Sei que tenho poucas chances de me defender com sabedoria das provocações diárias.
Minhas respostas inteligentes chegam com retardo de minutos.
Às vezes, de horas.
Ou de dias.

Na maior parte das vezes que me deparo com um desaforo, viro uma arara.
Engrosso, perco a razão, dou margens para quem cometeu o desacato sair coberto de razões.

Poucas são as mulheres que conheço que possuem línguas afiadas como adagas de dois gumes e cravam um golpe certeiro nas ofensas desferidas contra a vantagem maior da vida que é envelhecer com saúde.

Por favor, não discutirei argumentos do tipo “os homens também passam pelos mesmos problemas, eles é que não se enxergam”.

Não escrevi este textinho para falar mal de ogro algum.
Vim contar para vocês, mais uma vez, o que acabou de acontecer comigo...

Fui vítima de duas mocinhas na faixa dos 25 anos.

Estive, na parte da manhã, no meu oftalmologista.
Sofro de uma encrenca no meu olho direito.

Saí de lá com a pupila dilatada.
Um pouco difícil caminhar pelas ruas.
Entrei numa galeria ao lado.

Liquidações... quem sabe aquele vestidinho fresquinho ali cabe em mim?

Entrei.

Fui recebida por uma emudecida recepção.

- bom dia!
Alertei que existia.

A mocinha franziu a testa e fez um gracejo:
- a senhora entrou na loja errada.

Recuei poucos passos até a vitrine.
Não era uma Farmacia, petshop, Casas Pedro, Hortifrutti.
Não estavam expostos legumes, remédios, esparadrapos, ração, quibes e esfihas.

Voltei, perguntei:
- aqui não é uma loja de roupas femininas?
- sim...

Forcei a tal calma que não possuo.

- gostaria de saber por quê motivo você disse que entrei na loja errada?

Com a petulância que a ignorância produz sobre certas pessoas, a garota insistiu:
- porque esta loja não tem nada que cabe na senhora. O público alvo desta loja é gente jovem e não pessoas idosas.

Ok.
Não sou de peitar ninguém debaixo de 42 graus.

- você pode fazer a gentileza de chamar sua gerente?
- pra quê?
- assunto confidencial, por favor.

Surge do fundo da loja uma garota tão jovem quanto a outra. Mesmo cabelo de chapinha, mesmo shape de bundinha arrebitada, cópia do mesmo biscoito doce.

Sou obrigada a admitir:
- putzzz, o Brasil vai mal.

Expliquei à gerente a maneira como fui recebida pela vendedora.
- não foi legal... E se eu tivesse vindo comprar um presente para minha neta? Para minha sobrinha, para uma amiga? Ela teria o direito de falar comigo daquele jeito?

Senti que minhas palavras esbarraram num paredão.
Não havia pedido de perdão em seus olhos.
As palavras que saíram de sua boca foram um amontoado de frases feitas sobre metas de vendas.
A gerente confirmou não se importar em perder uma freguesa.
Preferia não sujar a beleza de sua loja com a presença de uma múmia egípcia.

A sociedade brasileira envia mulheres acima dos 65 anos para a quinta dimensão, fora do tempo e do espaço.

Ali elas devem permanecer.
Comedidas.
De preferência, caladas.
Sem opinar nas conversas.
Bibelôs craquelados, sem valor de mercado.
Cacarecos que admiram a estupidez que avança.

Angela Mucci Bosco, 2019



sábado, 11 de janeiro de 2020

A beleza não existe, especialmente num rosto humano




 

 A beleza não existe, especialmente num rosto humano – ali está apenas o que chamamos fisionomia. Tudo é um imaginado, matemático, um conjunto de traços. Por exemplo, se o nariz não sobressai muito, se as costas estão bem, se as orelhas não são demasiadamente grandes, se o cabelo não é muito comprido. Esse é um olhar generalizante. A verdadeira beleza vem da personalidade e nada tem a ver com a forma das sobrancelhas.

Charles Bukowski



Imagem da Web








sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

As filhas da p...




Aceito alegremente o fardo de persona non grata, cantando desvio de pedras, rebolando e mandando beijos.

Para algumas ridículas eu sussurro que meu corpo não é fechado, e é a tua ignorância que te atinge fazendo crer que é a inveja, essa nem existe...tudo bem, continuem se enganando queridas, se esse é o seu desejo...

Não necessito de ridículas frases de auto-ajuda pra ficar de pé e pouco me importa a imagem que eu vejo em meu espelho, a imagem que eu persigo não se reflete em materiais sólidos, minhas curvas já conquistaram o único amor eterno, o PRÓPRIO.

O que a princípio tem cheiro de "perda de dignidade", no final das contas é apenas uma pedra sobre a liberdade, que minha raiva a triturou por algumas noites, meu rancor ácido dissolveu o mineral até virar fumaça, a dor passou, a mágoa esgotou e aí estão elas:

A louca que me restou ser, desenterrou mulheres mortas, se desavergonhou das putas, clamou por filósofas, depois de desejar sumir da vida, mas respeitando o fato de não ser a hora da morte, tudo que "vier vieu", pra quem tem ousadia de partir apenas desejo boa sorte.

Suicidei meus medos, peguei no colo uma mulher frígida chamada Moral e joguei pela janela, as críticas coloquei no correio com destino "puta que pariu".

E aqui estou eu, e agarrados em coleiras como cães empunho meus predadores mentais, metade do rosto iluminado carregando orgulhosamente minha sombra tal qual Rembrandt, fugi das procissões e danço blues no eterno velório da princesa que partiu.

Mas diariamente visito a maternidade, e do vidro mostro a face da persona non grata que dou luz, pois sendo comida diariamente pela hipocrisia, a minha puta, a todos os meus demônios ainda não pariu...

Érika Figueira




Crédito da imagem: Arte fotográfica de Jan Saudek




Um átomo de vazio




Estou repleto de ti desde um extremo ao outro extremo do meu corpo, e o teu corpo afoga-se em mim sem deixar um só átomo para a razão, a memória, o sentimento consciente, a alma visionária. É possível que te tenha tragado? Ergue a tua mão para mim para que eu saiba que estás viva.

Antoine Douaihy

Crédito da imagem: Arte do pintor italiano Roberto Ferri




À propósito da fama



Nada mais efêmero em nosso mundo, nada de mais precário que esta forma de conquista conferida pelo renome. Nada ocorre com tanta rapidez e facilidade do que o esquecimento.

Hannah Arendt




Crédito da imagem: Arte de Juliano Lopes



Sentimento de ser só



...

Mas eu basicamente acredito que ninguém pode ajudar em relação ao meu profundo sentimento de ser só. Nunca pude achar alguém que eu pudesse falar como falo a mim mesmo. – Perdoe-me por uma confissão dessas, minha reverenciada amiga!

* Carta de Friedrich Wilhelm Nietzsche à Malwida von Meysenbug, em Venice, início de Maio de 1884.*




Crédito da imagem: arte de Edvard Munch







Sofisticado labirinto

 

O viajante procura a saída pelas paredes externas dos corredores, quando na verdade, a porta está em seu interior...
Este é o segredo do mais sofisticado labirinto que já existiu, " a VIDA."
Yoskhaz



segunda-feira, 6 de janeiro de 2020


 

Se você se importa muito com o que tem a dizer, se seu coração bate muito rápido com o assunto, pode ter certeza de um completo fiasco. Você será patético, será sentimental, produzirá um trabalho pesado, austero, desprovido de domínio, ironia e sal, chato, banal, e o resultado final será a indiferença do público, e para você decepção e tristeza...

Thomas Mann, in Tonio Kroger




Imagem via Pinterest




Poesia do dia

 

Mágoas são pessoas
Com nome e endereço
Que se negam a partir
Mas que nunca estão

São errantes
No mundo errado

É a lembrança teimosa e indiscreta
Que escorre pelo rosto
Sem qualquer permissão…
É a dor que já é íntima

É a morte dolorida do outro
Que te sangra pouco a pouco
Quando o outro, na verdade
Nada sente

A corda no pescoço errado
Te acompanhando pra lá e pra cá
Lembrando que a covardia
Às vezes se traveste de coragem
E engana até mesmo a própria morte

É o olhar que desvia
O riso forçado
A mão fria cumprimentando sem vontade
A pergunta sem resposta
A resposta sem pensar…
Aquele bom dia nunca desejado
Ou desejado, mas calado
Sufocado pelas ásperas mãos do orgulho

A mágoa é o assassino,
Torturador,
Insensível…
O orgulho é o mandante
E a vítima
Pobre vítima inocente
A vítima é o Amor

Wanessa Eliodoro




Imagem da Web








Questões de viagem



 ...

pensemos na longa viagem de volta.
devíamos ter ficado em casa, pensando nas terras daqui?
onde estaríamos hoje?
será direito ver estranhos ensinando uma peça nesse teatro tão estranho?
que espécie de infantilidade é essa que, enquanto há um sopro de vida nos nossos corpos, nos torna determinados a ver o sol nascendo do outro lado?
o menor beija-flor do mundo?
observar algumas inexplicáveis e antigas construções em pedra,
inexplicáveis e impenetráveis,
ou qualquer paisagem,
imediatamente vista e sempre, sempre, prazerosa?
por que insistimos em sonhar os nossos sonhos e vivê-los também?
e será que ainda temos lugar para mais um pôr do sol extinto, ainda morno?
mas certamente seria uma pena não ter visto as árvores à beira dessa estrada
de uma beleza realmente exagerada.
não tê-las visto gesticular como nobres mímicos de vestes rosa.
não ter parado num posto de gasolina e ouvido a melancólica melodia de madeira,
com duas notas só,
de um par de tamancos descasados, pisando sonoros, descuidados,
num chão todo sujo de graxa.
(num outro país os tamancos seriam todos testados.
os dois pés produziriam exatamente a mesma nota.)
uma pena não ter ouvido a outra música, menos primitiva,
do gordo pássaro pardo cantando em cima da bomba de gasolina quebrada,
numa igreja de bambu de um barroco jesuítico.
três torres.
cinco cruzes prateadas.
uma pena não ter ponderado,
velada e inconclusivamente,
sobre que conexão poderia haver entre os séculos do mais tosco sapato de madeira,
aos caprichosos, meticulosos e fantásticos entalhes das gaiolas de madeira.
jamais ter estudado história na caligrafia fraca das gaiolas
e nunca ter ouvido essa chuva, tão parecida com discurso de político,
com duas horas de oratória implacável e, de súbito, um silêncio de ouro,
em que a viajante abre um caderno e escreve.
será falta de imaginação o que nos faz procurar lugares imaginados, tão longe do lar?
ou pascal se enganou quando escreveu que é em nosso quarto que deveríamos ficar?
continente, cidade, país, sociedade…
a escolha nunca é ampla e nunca há inteira liberdade.
aqui, ali.
não.
teria sido melhor ficar em casa, onde quer que isso seja?

Elizabeth Bishop



Crédito da imagem: by Etienne Aigner






Dos meus livros


"Dom Casmurro", de Machado de Assis


Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.

E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.


Machado de Assis



Dos meus filmes


 "Stalker" (1979), de Andrei Tarkovsky



Como amo teus olhos, minha amiga,
E a chama radiante que neles dança,
Quando por um instante fugaz eles se erguem
E teu olhar voa célere
Como o relâmpago no céu.

Mas há um encanto mais poderoso ainda
Nos olhos voltados para o chão
No momento de um beijo apaixonado,
Quando brilha por entre as pálpebras baixas
A sombria, obscura chama do desejo.


Poema de Fyodor Tyuchev (1803-1873), citado na última cena do filme "Stalker" (1979), 
de Andrei Tarkovsky.


A graça e a beleza


 

- Filho, você percebe a diferença entre a graça e a beleza?
- Acho que não. Nunca pensei sobre isto.
- Está vendo aquela moça ali parada com um olhar distante?
- Sim.
- É a beleza, que não carece de explicação, certo?
- Certo! Mas e a graça, pai?
- Observe mais um pouquinho...Percebeu algo diferente imediatamente antes de ela ter começado a andar?
- Acho que sim.
- Então?! A graça é este estado, este instante, entre a percepção da beleza e o início do movimento. Entendeu?
- Acho que entendi, ou melhor, senti.

jm, Arquivos Vinis




Crédito da imagem: Vintage ballerina photo Ziegfeld Follies girl dancer



Dos meus livros


Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do 
vai-e-volta

 Ariano Suassuna 


Nós não precisaremos nunca de inventar uma imagem falsa da Vida para poder amá-la. Porque, na dureza e sob o Sol, nós aprendemos à força a amá-la, com o que ela tem de ardente e glorioso, mas também com o que possui de degradado, sangrento e sujo. O que é cruel e sujo também faz parte da vida e terá que ser enfrentado com as armas do sangue, do riso, e da luta, com a valentia tenacidade do homem diante do que a Vida tem de mais desordenado - o sofrimento, a humilhação e a Morte.





Enquanto isso, no verão carioca...


 

A rotina de quem não tem ar condicionado:

8h – Acordo e vou à farmácia. Fico por lá 1 hora olhando os produtos. Vez ou outra levo um Sonrisal para disfarçar.

10h – Shopping. Ao fim da jornada já conheço os funcionários pelo nome.

14h – Frequento três agências bancárias e tiro pelo menos cinco extratos aos berros de "é um absurdo o que o Governo faz com a gente".

17h – Entro em um táxi e peço para dar voltas na quadra. Digo ao motorista que estou com a sensação de estar sendo seguido.

17h30 – Supermercado Pão de Açúcar. Você me encontra facilmente na seção de Congelados.

20h – Uma passada no cinema. O critério de escolha do filme é a duração. Levo uma almofada pro pescoço.

Cristiane Barbará



Imagem da Web





Diante da cortina do seu coração

 


Quem nunca esteve sentado, cheio de medo,
diante da cortina do seu coração?

Rainer Maria Rilke




Crédito da imagem: arte de Amy Judd







É a minha pouca casa

 
 ...

A esta casa em silêncio que sobra neste espinho-pedra de horizonte,

ao esquadro de madrugada repentina,
ao ausente corpo quase nada, acrescento

diurnamente acrescento pedras-de-afiar

as nascentes, que calmas e vorazes brotam do corpo, da parede, das velas que me alumiam o voo, do livro que adormece na mesa, no corpo, no quase nada que acontece

na forma da cauda de cometa, na nuvem que ajeito com as mãos, com dois braços, com o linho tranquilo do corpo, na veia-rio que acolhe o sopro o ar a margem onde navega de mim o quase nada que acontece, acrescento

a casa.

Desta casa azul em silêncio, imenso azul fraga em silêncio, colho o resíduo húmido da palavra, o coalho, o bolor duma palavra (ínfima ou imensa, azul apenas) antes que a manhã aconteça; aguardo, então aguardo. No coração-em-cinza da terra, na manhã clara, ainda repousa o restolho, a aguadilha azul da palavra adormecida, a pedra solta e solitária, inquieta, um corpo quase nada

onde adormeço e sobrevivo; é a minha pouca casa.

À casa (azul, de azul silêncio), acrescenta-se todos os dias essa pedra inquieta, aparentemente solar; repentina e silenciosamente

solar,

como um frágil grito.


breve leonardo



Crédito da imagem: fotografia de  Sérgio Gustavo Coutinho Grossi, todos os direitos reservados







Tarde demais




"there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late."


Oh Yes, Charles Bukowski

(tradução)

Há coisas bem piores do que estar sozinho
mas frequentemente leva-se décadas para perceber isto
e mais frequentemente ainda quando se percebe
já é tarde demais
e não há nada pior do que já ser tarde demais




Crédito da imagem: Fotografia de Jill Freedman





Aprender a estar morto



...

O Senhor Palomar decide que, de agora em diante, fará como se estivesse morto, para ver como corre o mundo sem ele. Há já algum tempo que se apercebeu de que entre ele e o mundo as coisas já não correm como antigamente; se antes lhe parecia que esperavam ambos algo alguma coisa um do outro, ele e o mundo, agora já não se lembra do que havia a esperar, de mal ou de bem, nem porque é que este esperar o mantinha numa perpétua agitação ansiosa. (...) Este é o passo mais difícil para quem aprende a estar morto: convencer-se de que a sua própria vida é um conjunto fechado, todo no passado (...)

Italo Calvino, in Palomar



Imagem da Web, desconheço a autoria





Pequenos milagres




Não posso fugir dos pequenos milagres. Você me abraçou na eternidade daquela rua e eu dormi feito pena que finalmente alcança o solo.
Você me jogou da altura dos seus ombros: não quero fugir das coisas que caem. Do seu corpo arremessado entre as minhas mãos e das palavras que inteiramente nossas, tomam rumo.

Tudo continua vivo enquanto o desejo assentar terreno. Tudo o que a terra absorve já não é desejo, é reparação.
Quero viver a noite em que o mundo dorme. Porque seus olhos abertos são os pequenos milagres.

Raissa Correia




Crédito da imagem: Itatiquara ao pôr do sol - fotografia minha




terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma história de Natal


Com meus desejos de um Santo e Abençoado Natal, deixo vocês esta noite com uma história de um de meus proseadores preferidos... 

Boas festas! 
🎄🎅



Certa vez, prometi um presépio de presente para uma amiga muito querida e, naquele momento, com grave problema de saúde. Sabia que ela sempre sonhara adquirir um presépio, mas por um motivo ou outro, adiava a compra. E assim, já com sessenta anos, ou mais, ainda não montara a creche santa, que tanto desejava. Fui visitá-la, poucos dias antes de sua internação hospitalar. Prometi levar um pequeno presépio para ela.

Dentro do carro, lembrou à faxineira: 
- O Zé vai me trazer um presépio, guarda bem, que ainda quero montá-lo no Natal!

Aquela haveria de ser a última viagem para tratamento, minha amiga não resistiu e partiu deste mundo, deixando-nos entristecidos por tão precoce e irremediável despedida.

Em decorrência do havido, naquele ano não comprei o que havia prometido, mas em meu coração se instalara uma espécie de desassossego, não sei bem explicar, como se as montanhas não devolvessem o eco, algo retido em meu interior, que já não era meu e deveria ser devolvido ou entregue ao dono ou a quem de direito, um sentimento que não conseguia nominar claramente. Uma ação necessária de se cumprir, ainda não completada em sua total extensão.

Este ano, passarei o Natal na casa da filha dessa minha amiga.

Lembrei-me de levar o presépio.

Era isso. Precisava entregá-lo. Não por culpa, ou obrigação. Talvez porque era um afeto que necessitava ser expresso. Deve ser isso. Vou levá-lo com profunda alegria e emoção para a casa onde deveria estar desde sempre.

Há promessas que são mais que promessas. É um encontro com nosso afeto vivo, que tem mais a ver conosco que com o prometido.

José Antonio Abreu de Oliveira




Crédito da imagem: meu presépio






A poesia nossa de cada dia


 

Psiu!
Quando um poema nos invade,
outras realidades se abrem e,
“do homem bruto ao deus astuto”,
surge o Ser em possíveis idades.
Ave Poesia!

Carmen Silvia Presotto
in Vidráguas



Imagem da Web



Que a imagem de tua vida inteira não te perturbe jamais

 

Que a imagem de tua vida inteira não te perturbe jamais. Não sonhes com todas as coisas dolorosas que provavelmente te aconteceram, mas, a cada momento presente, pergunta: o que há de insuportável e de irreversível neste acontecimento? Lembra-te então de que não é nem o passado nem o futuro, mas o presente que pesa sobre ti. (...) Lembra-te de que cada um de nós só vive no momento presente, no instante. O resto é o passado, ou o obscuro futuro. Pequena é, pois, na verdade, a extensão da vida.

Marco Aurélio
In Meditações





Crédito da imagem: "Icarus", by Jeff Barson



Dos meus livros

 
Livro do Desassossego
Fernando Pessoa

 É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?


 Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.

 Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria.
 
A solidão desola-me. A companhia oprime-me. A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos.






 

O sentimento do abismo

 

Estamos despreparados para o vazio. O sentimento de desespero nunca é súbito, não é um desabamento - é o fim de uma escalada mental que vai queimando todos os cartuchos da razão até, aparentemente, não sobrar nenhum, e então a ideia de solidão deixa de ter o charme confortável de uma ideia e ocupa inteira a nossa alma, em que não caberá mais nada, exceto, quem sabe, a coisa-em-si que ele parece procurar tanto: o sentimento de abismo.

Cristovão Tezza



Crédito da imagem: arte fotografica de Craig Gum




O que se diz sobre a efemeridade da vida...

 

O discurso de que a vida é efêmera é mero engodo. Ela é enfadonha o bastante para tirar-nos dia a dia a vitalidade e mostrar-nos a insignificância. Ela o faz com justiça, pois nossa espécie nada produz em suas existências vazias. A vida é demasiadamente longa para tal mediocridade. Espera-se que a inteligência faça algo de grandioso. Argumento tolo. Nossa permanência na Terra só comprova o ciclo infinito de estupidez e o incomensurável poder destrutivo da ganância.

Genivaldo Batista




Crédito da imagem; arte fotográfica de Paolo Ventura




O egoísmo pessoal tapa todos os horizontes




Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona. Talvez um dia!

José Saramago




Crédito da imagem: Europa Press



Rezar e pagar

 

Desde que a humanidade entrou no período de civilização, tão longe quanto a memória alcança, o povo reza e paga. Ele reza por seus príncipes, por seus magistrados, por seus exploradores e parasitas. Ele reza, como Jesus Cristo, por seus carrascos. Ele reza até mesmo por aqueles que deveriam rezar por ele. E depois ele paga para aqueles por quem reza. Ele paga o governo, a justiça, a polícia, a igreja, a nobreza, a coroa, a renda, o proprietário. Ele paga por seus passos, para ir e vir, para comprar e vender, para beber, comer, respirar, aquecer-se ao sol, nascer e morrer. E implora-lhe o céu para dar-lhe, abençoando o seu trabalho, meios com que pagar cada vez mais. O povo nunca fez outra coisa senão rezar e pagar.

Pierre-Joseph Proudon




Crédito da imagem: Fotografia de  Silena Lambertini






A obscena palavra

 

A nudez começa no rosto; a obscenidade, com a palavra
(...)
Estabelecem que devemos ser estátuas ou espectros.
E assim que nos surpreendem existindo em carne e osso, acusam-nos de impostura.
É por isso que o menor gesto toma tão facilmente uma aparência de escândalo:
rir,
falar,
comer
são flagrantes delitos.
 
Simone de Beauvoir 
In: Os Mandarins








Dos meus filmes


 Beleza americana, 1999




Este é um filme onde tudo é perfeito, onde tudo se encaixa milimetricamente formando uma sinfonia arrebatadora.

Atuações mais que perfeitas em personagens marcantes!


Lester (Kevin Spacey)

"Sabe quando você sente que ficou em coma durante vinte anos?"


Carolyn (Anette Bening)

Ela e suas rosas, as American Beautys perfeitas, bonitas, porém sem perfume, uma perfeita alusão à superficialidade e hipocrisia da sociedade americana conservadora. 

Uma flor perfeita esteticamente, porém sem perfume. A rosa cultivada por Carolyn acompanha as fotos da família e decora a mesa durante o jantar de uma família destruída.


As rosas, o mais conhecido motif do filme, são sempre vermelhas, associadas a paixão e a violência. E há o duplo sentido de seu uso, já que, se para Lester elas surgem relacionadas à Angela (paixão), elas também são cultivadas por sua esposa, o que por si só expõe a busca de Lester por substituir a paixão juvenil dos tempos em que conheceu Carolyn.


 O desejo sexual por Ângela sempre representado na presença, no quadro, das rosas vermelhas cultivadas por Carolyn, uma materialização tanto da fantasia do homem de meia idade em crise como obsessão sexual da adolescência e da repressão sexual hipócrita do seio familiar. Lester transfere seus impulsos sexuais da esposa distante para a Lolita mitificada.





 Ricky (Wes Bentley)

"Foi naquele dia que eu descobri que existe vida por trás das coisas e essa força benevolente que me fazia sentir que não precisava ter medo de nada...nunca!
Sabe às vezes eu sinto que tem tanta beleza no mundo!" 



"Eu sempre ouvi dizer que a sua vida inteira passa diante dos seus olhos como num flash, no segundo que antecede a sua morte. Primeiro: esse "segundo" não é só "um segundo". Ele se estica pra sempre, como num oceano de tempo. Pra mim, foi como estar deitado no acampamento de escoteiros, olhando estrelas cadentes... e as flores amarelas das árvores da nossa rua... ou as mãos da minha avó, e o jeito como a pele dela parecia pergaminho... a primeira vez que eu vi o Firebird novinho do meu primo Tony. E a Janie... e a Janie. E... Carolyn. Acho que eu deveria estar muito puto pelo que aconteceu comigo. Mas é difícil ficar bravo, quando há tanta beleza no mundo. Às vezes eu sinto como se estivesse a vê-la de uma vez só, é demais, meu coração se enche como um balão prestes a estourar. Então, eu me lembro de relaxar, e parar de tentar agarrá-la, e então ela flui através de mim, como chuva. E eu não consigo sentir nada além de gratidão por cada pequeno momento da minha vidinha miserável. Vocês não tem ideia do que eu estou falando, tenho certeza. Mas não se preocupem... um dia vocês terão. "
  
Fala final do filme, por Lester 




E é particularmente bonita a forma como Ricky se debruça para observar os olhos perdidos de Lester, complementando o que ele diz muito antes a Jane, sobre seu hábito de filmar pássaros mortos ou mesmo a moradora de rua que ele viu morrer congelada. 

“Quando se vê algo assim, é como se Deus estivesse nos olhando por um segundo. E, se prestar atenção, pode fazer o mesmo”. 

Ali, pela primeira vez, Ricky contempla o olhar de Deus sem o filtro de uma câmera. E sorri...







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