sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Aniversário de 106 anos de Jorge Amado


Hoje é o aniversário de Jorge Amado, o escritor e romancista nacional que mais li e um dos meus preferidos, entre tantos... Graças aos meus professores de Literatura Portuguesa, que no decorrer dos tempos escolares, sempre indicavam suas obras como leitura obrigatória. Tomando gosto, mais para frente procurei ler mais de seus livros, me apaixonando por suas Teresa Batista e Gabriela, me aventurando e sofrendo com seus Capitães de Areia e me apaixonando por Mar Morto, uma das maiores emoções que a literatura nacional me apresentou. Grande Jorge Amado, sua obra imortal é um legado e motivo de orgulho para todos nós.

"Lívia olha de sua janela o mar morto sem Lua. Aponta a madrugada. Os homens, que rondavam a sua porta, o seu corpo sem dono, voltaram para as suas casas.
Agora tudo é mistério. A música acabou. Aos poucos as coisas se animam, os cenários se movem, os homens se alegram. A madrugada rompe sobre o mar morto."

domingo, 1 de julho de 2018

Imagem do dia



A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados.

René Descartes


quarta-feira, 20 de junho de 2018


"Ó sono, ó gentil sono, ama da natureza, que motivo de espanto em mim descobres, para as pálpebras não me vires cerrar, nem mergulhares meus sentidos no olvido?"
(Shakespeare)

De vez em quando a insônia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade gasta do meu corpo, esmagar o coração."
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético

Crédito da imagem: Bert Van den Roye / Stock.Xchng

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

De que mais precisa um homem



De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar - e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol pra pescar?
E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos, uma pro caniço, outra pro queixo, que é para ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça pra puxar tristeza, e um pouco de pensamento pra pensar até se perder no infinito...
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra - um pedaço bem verde de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim - que um jardim é importante - carregado de flor de cheirar?
E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para mexer a terra e arranhar uns acordes de violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque pra puxar mistério, que casa sem mistério não tem valor de morar...
De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar - um desses que desmereça um pouco da amizade, de um amigo pra paz e pra briga, um amigo de paz e de bar?
E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo, e pra discutir com o amigo e pra servir bebida à vontade ao amigo?
De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular?
E enquanto pensando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o destino o carrega em sua onda sem rumo?
Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher - as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo...

Vinícius de Moraes


Estátua viva



Já havia visto aquele homem diversas vezes, sempre no mesmo local: a grande entrada de um parque próximo de casa, onde se apresenta ao público.

Calvo, estatura mediana, magro e um grosso bigode. Com a cara, a cabeça e as duas mãos inteiramente pintadas de prata, a mesma cor de seu terno puído, ele trabalha como estátua viva, dessas que surpreendem os simples de coração, especialmente crianças e idosos, fazendo um leve salamaleque em reverência a quem lhe deposita moedinhas na pequena caixa de papelão à sua frente.

Essas figuras sempre cativaram minha atenção e comiseração. Não apenas porque fico a imaginar a sede e o calor infernais que suportam debaixo de sóis torrenciais, mas especialmente porque sou incapaz de ficar mais de um minuto em pé sem que me doam as costas ou as pernas. Imaginem então horas a fio como eles ficam, tão imóveis que até os movimentos torácicos tornam-se quase imperceptíveis.

A atmosfera enigmática por trás daquele semblante prateado sempre me atraiu também. Algumas vezes, ao passar por ali, peguei-me pensando como seria a vida íntima daquele sujeito calvo, prateado e visivelmente triste. Não há mesmo meios de se imaginar como pode ser feliz um homem em pé, em cima de um caixote, que se abaixa ao tilintar de qualquer moedinha que lhe oferecem. E faz disso a sua rotina diária.

Pois hoje, agorinha mesmo, vindo para casa, testemunhei com um grande incômodo a cena que eu jamais pensei em ver: o relógio marcava mais de oito horas da noite do domingo quando, sentado no ponto de ônibus em frente ao parque, vi aquele homem. Com o rosto ainda prateado, sua expressão era só cansaço.

Já lavei o meu próprio rosto por duas vezes e não saiu da pele a sensação de coceira pelo excesso de tinta prata num dia de sol. Aliás, não saem de minha retina as cenas que não vi, daquele homem pagando o ônibus com moedas de centavos recebidas a tão duras penas, daquele homem chegando em casa e beijando esposa e filhos à distância para não lhes sujar os rostos de prata, daquele homem deitando em sua cama para descansar costas, pernas e pés moídos por tão árdua tarefa. Daquele homem cerrando os olhos e só os abrindo no dia seguinte, percebendo que dormira sem tirar a tinta do rosto de tão exausto que estava.

E com as mãos ainda prateadas, o homem prepara o café, retoca a maquiagem prata no rosto triste e sai ainda de madrugada para mais um dia de trabalho.

Sai na verdade a enfrentar, com a alma endurecida de uma estátua quase sem vida, uma outra segunda-feira em sua vida cinza.

Cinza como a prata.

Fernando Augusto Martins Canhadas


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