quarta-feira, 8 de abril de 2020

Fica em casa



Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.

Manoel de Barros   


É nas velhas casas, onde parece flutuar ainda a penumbra dourada do passado, que se recebe, 
mais perdurável e mais viva, a impressão da família e do lar. 

Júlio Dantas


 O lar é onde fica o coração. 
John Green


No meu coração fiz um lar
o meu coração é o teu lar
e de que me adianta tanta mobília
se você não está comigo?

Nando Reis



Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitas. 
E são feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas.

 Eugenio de Andrade





Como os ninhos, que são a casa da ave, e que todos diferem consoante a ave que o fabricou e o habita, a casa do homem reproduz com fidelidade a vida, a ocupação, o carácter, 
o sentimento dos moradores. Toda a casa tem, como os donos, uma fisionomia especial, 
que as gerações lhe imprimiram.

Carlos Malheiros Dias



Meu quarto. A melhor coisa que havia ali era a cama. Gostava de ficar ali deitado por horas, mesmo durante o dia, com as cobertas puxadas até o queixo. Era bom ficar ali, nada acontecia por ali, nenhuma pessoa, nada.

Charles Bukowski

Diziam que a velha casa não tinha nada de mais.
Tinha sim, em cada canto esquecido tinha história.
História de amor, história de dor, alegria e medo.
E vai saber quantas outras histórias cabiam apertadas aos cantos da velha casa...

Priscilla Dias Cavalcante 


O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora.

Mia Couto


Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

Mario Quintana


A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Florbela Espanca


É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro
...
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo
as torneiras jorram,
...
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.

Adélia Prado





Crédito das imagens: Praça São Salvador, 5 ,  Laranjeiras, Rio de Janeiro,  no ano de 1935. Casa do casal Carlos Lirio (in memorian) e Laura Mathilda Mallaber (in memorian)

Foto do dia



Em casa, na quarentena... saudades das ruas da minha  cidade! 💓


Calçadão de Copacabana, em 1947.

Reparando bem, naquela época era só "calçada"... Calçadão só depois, né?


Foto Kurt Klagsbrunn




segunda-feira, 6 de abril de 2020

‘Round midnight




Havia chegado um dia antes àquele rústico recanto de difícil acesso, mas tão próximo de tudo. Os outros apareceram mais tarde e dirigiram-se à casa maior, distante da singela cabana onde me instalei. Estava na pequena varanda, distraído com as gotículas frescas que às vezes caíam no meu rosto, imerso nos acordes dissonantes do anjo negro de Rocky Mount e contemplando a mata escura iluminada pela lua, quando ela se aproximou com seu semblante belo e triste, emoldurado por cabelos curtos e uma boina vermelha, levemente caída para a esquerda. Assentou-se ao meu lado e me ofereceu um cigarro, dizendo que rabiscava alguns versos e dava aulas de literatura em um colégio tradicional de sua cidade. Passei-lhe o copo de cerveja e enquanto o monge louco preenchia a atmosfera úmida com seu piano cheio de elipses, confidenciou-me que ultimamente andava muito cansada e com medo do que aconteceria nos próximos meses em nosso país. Após beber uns poucos goles de cerveja, encostou a cabeça no meu ombro, acomodando-a com um gracioso meneio, e a partir daí aquietou-se em um estado de completo silêncio. Misturadas às minúsculas gotas de garoa que pareciam prismas iluminados caindo do céu noturno, senti duas outras maiores, mornas e mais densas escorrerem lentamente sobre meu peito frio. A repetição contínua do tema de Monk instaurou uma aura reconfortante e hipnótica, que abstraiu o tempo e convocou o mistério. Absortos e inertes por lá ficamos, em comunhão de desenganos, até o fim da noite.

jm
Arquivos Vinis




 

Saudade também faz ninho





 

Por três dias, caminhando para os lados da Fazenda Confiança, ouvi uma criança gritar: 
- Volta, sabiá, volta!

Uma menina, balançando em um rústico pneu, pendurado por cordas em espraiada mangueira. Na terceira vez não resisti e gritei da estrada:

- Por que você chama a sabiá?
- Hein? A menina se estacou,
- Por que você fica gritando pela volta da sabiá?

Ela desceu do balanço e se aproximou da porteira: 
- A sabiá, ela fez um ninho na mangueira, mas o vento derrubou, e ela se foi.

- Com certeza está construindo ninho num lugar mais seguro, que o vento não destrua - eu disse.

E ela: 
- Ah, eu sei, mas saudade também faz ninho, né? E o meu nenhum vento derrubou.

Correu para o balanço, continuou a chamar a sabiá, e eu segui meu rumo. Tá certo, volta sabiá!


Falar nisso, tem um ninho de outra aqui no quintal, numa mangueira também. É uma gorda senhora, que come todos os mamões que nascem perto do muro. Uma esfaimada. É quem primeiro tinge o dia de ferrugem, laranja ou terras acobreadas. Saltita, veloz, bicando insetos sob o pé de acerola. Com certeza, é a mesma, há quatro anos que a conheço. Uma vitoriosa.

José Antonio Abreu de Oliveira




Imagem via Pinterest







Coisas que não servem para fazer poesia

 

São coisas pequenas, sabes...? Coisas que se arrastam nos dias mais longos, na luz tardia, dourada, que espreita ainda pela janela da cozinha enquanto jantamos, coisas que não tiro quando me dispo e ficam comigo, encostadas ao meu rosto, sussurrando inquietudes debaixo do travesseiro. Pequenas coisas: o vento que enrolou a roupa no varal e encheu de sede as rosas... O peixe que deixei queimar enquanto lia os trabalhos dos miúdos... O velho que me bate à porta a pedir esmola e que tem a boca cheia de feridas... Coisas de nada, que se prendem a mim de mansinho e me fazem subir as escadas numa lentidão desalentada. Coisas que me entristecem, não sei bem porquê: os bilhetes esgotados para aquela peça de teatro que queria ver contigo em Lisboa; o texto que não sei escrever e que tenho que entregar até quarta-feira à noite; a festa onde não tenho vontade de ir; o meu poema inacabado sobre a morte de um poeta; as saudades de ouvir ecoar no chão da casa, os passos da minha filha; o meu rosto pálido, do outro lado do espelho; o frasco quase vazio do perfume que me deste... Coisas invisíveis, pequeninas, que empurram as palavras para longe e me enchem de silêncios... Coisas que não servem para fazer poesia, entendes...?

Ana Mateus



Imagem via Pinterest








Uma casa está em muitos lugares

 

Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette. Ficamos a olhar o verde jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para as novas caminhadas. O recomeçar das coisas.
- Não sei onde as lesmas sempre vão, avó.
- Vão para casa, filho.
- Tantas vezes de um lado para outro?
- Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou – É uma coisa que se encontra.

Ondjaki

in 'Os da minha rua'




Imagem via Pinterest




Dossiê



Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.

Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.

Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.

Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.

Uma história de dois lados.


Daniela Dias




Imagem via DevianArt








Fazer amor



O sexo vive seu apogeu quando é a perfeita tradução de um desejo que nasce na alma e não na carne, na cabeça e não na genitália, no coração e não na pele, dessa forma ele é o encaixe perfeito do amor, seu complemento natural, a melodia da sua letra, a noite pós dia, a concretização da sua utopia, a sua mais que exata gradação, tanto que nesta situação, harmonicamente permite com toda propriedade, que o denominem "fazer Amor".

Leonardo Andrade






Crédito da imagem: Arte da pintora Anouk Lacasse



É como olhar a lua



Boa noite!



... eu adoro o final de tarde quando luminoso! É como que o recolher à nossa interioridade, o regresso ao nosso eu absoluto. E os aromas que se mesclam com mais intensidade, trazendo de volta tantas reminiscências...
E a noite adentra-se e o estar de frente para nós fica translúcido! Como olhar a lua.

Serenidade...

(...)

Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha,
E uma suposição de outra coisa,
E o resultado de existir…

Álvaro de Campos
In De la Musique -17.09.1929



Crédito da imagem: Fotografia de Victor de Lara




Na monotonia desfiada dos dias

 

Podia contar-te pouca coisa. De como na minha vida tudo se passa devagar, na monotonia desfiada dos dias. Mas não sei bem falar de rotinas, nem me apetece tecer as palavras murmurando o que todos sabem. Que a minha vida não me deu nada. Só este aperto de peito de vez em quando, ao sentir que envelheci sem enfeitar o tempo dos sonhos que tive. Que já não sonho. Podia contar-te que houve histórias dentro da minha história, iguais às de tantos outros e que isso não tem nada de encantador. Podia contar-te que o azedume que se encravava nos dedos, há muito que virou indiferença. Meus dias passam agora devagar. Não estou triste, nem alegre. Sou um normal homem que tem pouca coisa para contar e o que diz do dia de hoje, logo esquece. Melhor convidar-te para uma conversa sobre os outros, que falar deste acabrunhado, até a mim enfada.

Laura Silva









Crédito da imagem: Arte do artista brasileiro Cândido Portinari








O poder da palavra


 

A paixão é um mistério que entra por todos os sentidos, assim como o criador foi misterioso quando decretou: 
"E o verbo se fez"  ... 

Não sei bem em que língua Deus disse isso, mas de uma coisa tenho certeza: ele sabia do que estava falando.


Celia Musilis
Fragmento do texto "O poder da palavra"





Crédito da imagem: Arte de Jan Saudek






Poesia do dia





Chegança

Eu te trouxe de presente um olhar.
Um olhar que achei escondido entre as pedras do rosário
E que brincava de encantamento com a Virgem Maria.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que não descuidam de nenhum movimento
E que de tão atentos se tornam anjos da guarda.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que contém dentro de si tamanha proteção
Que os olhos deles parecem um mar de cheganças.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que revelam uma entrega tão desmedida
Que se tornam portas de entrada de todas as abnegações.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Apenas um olhar.
Nada mais, além do meu servo olhar.

Oswaldo Antonio Begiato 




Imagem via Pinterest





Sinto uma dor enorme de não ser dois




Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé — não sei se há em mim, uma coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre. Sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas.

Caio Fernando Abreu

in "Lixo e Purpurina" do livro "Ovelhas Negras"



Imagem via Pinterest








As horas loucas

 

Pergunto-me se alguma vez saí de lá... Do fascínio de caminhar lado a lado, a minha mão na tua ausência, os teus dedos no meu desejo. A partilha enclausurada da ternura, a inconcebível inexistência do tempo, a prova da eternidade no baldio dos pensamentos, fragmentos do nosso querer... A forma patética, inconsistente, das escapadelas, sob a enorme lua diluída, as horas loucas, mergulhadas na abstração desta caminhada, em direção a nada... Só o vento sabe de que cor pintámos o Amor! Lado a lado, gestos que se cruzam na densidade de bifurcação da alma...
 
AnaLimão






Crédito da imagem: Arte de Ron Hicks









Também se deve aprender o amor

 

Para aprender a apreciar uma música é preciso saber percebe-la, delimita-la, em sua própria expressão, depois é necessário esforço e boa vontade para suportá-la a despeito da sua estranheza... ter paciência e ternura pelo que ela tem de singular; chega, enfim, o momento em que nos habituamos a ela, em que sentimos que teríamos saudade dela se ela nos faltasse....Mas não é só com a música que isto nos acontece: é justamente dessa maneira que aprendemos a amar todos os objetos que amamos.
Acabamos sendo compensados pela nossa boa vontade, paciência, ternura pela estranheza, quando esta pouco a pouco, se desvela e vem oferecer-se a nós, como uma nova beleza- é essa a gratidão pela nossa hospitalidade. É só desta forma que aprendemos a amar. Também se deve aprender o amor!

F. Nietzche



Imagem da Web




sábado, 4 de abril de 2020

Imigrantes



 Eu não moro mais aqui/ Nem aqui quero morar/
Ô beira-mar, adeus dona,/ Adeus riacho de areia”.

Coral Trovadores do Vale

“Quando ao longe me voltei/ a minha casa/ era um ponto branco”

José Tolentino Mendonça

Imigrantes

Para minha vó Corina e sua casa no vale


Na primeira vez que regressamos
a casa ainda estava de pé.
Os telhados cantavam
pássaros cobriam as janelas.

Se não fosse o silêncio lá dentro
ninguém saberia que aqueles quartos
estavam desabitados.

Quando a vizinha nos avistou
fez uma festa danada.

Ela contou que o ano foi bom.
_choveu muito e a roça cresceu,
Deu até abobras d'água!

Todos sentimos tremenda saudade!

Na segunda vez que regressamos
a casa seguia de pé,
já os telhados não cantavam
haviam ido de encontro ao chão.

A vizinha já não se lembrava de tudo
haviam transcorrido tantos anos.
Daqueles que sentiram saudades
poucos restavam.

Na terceira vez que regressamos
a casa tinha perdido a cor.
Janelas e portas estavam rachadas
e a vizinha nada pode contar.

Também ela havia partido
fez-se silêncio, memória apagada.
Foi então que nos sentimos estranhos
onde  tinha sido o nosso lar.

Na quarta vez que regressamos
a casa já não existia,
só as ruínas perduravam.

A luz trêmula alumiava na memória
a criança jogando bola,
o mesmo rio corria lá embaixo
mas em nós, algo havia mudado.

Um menino nos perguntou
- ocês quem são?
Vovó espantada tratou de responder:
- sou a dona daquela casa!

A tristeza abriu-lhe um rasgo
quando ouviu a criança  responder:
- minha senhora, nunca teve casa aqui!

Só naquele dia percebemos
o tempo escorrido em nossas viagens.
Nossa geografia havia  mudado
pertencíamos a outro lugar.

Na quinta vez que regressamos
havia passado muitos anos
nem me lembro quanto tempo.

Levei  vovó dentro da saudade
mamãe não regressou.
Minhas irmãs não se lembravam
que tínhamos nascido lá
e meus sobrinhos sequer ouviram falar.

Cansado me sentei à sombra da goiabeira
fiquei pensando nas andanças perdidas.

Lembra-se daquela criança?
Também ela sentou-se comigo.

Trazia em mãos as roças engomadas
vestia um terno de idades
tinha  os dedos calejados.

- senhor, que faz aí sentado?
outra vez me perguntou assombrado.

Ao ouvi-lo debrucei-me na terra
tentei  do alto comer os bocados
para agasalhar as  grotas que me abriam
a falta dos meus antepassados.

Vi o rio descendo o morro
a cana crescendo na margem do córrego
o pai tocando o gado
a mãe comendo laranja.

- Seu moço trate de me escutar
pois não vou dizer outra vez,
faço o mesmo que a minha vó
sou herdeiro daquela casa.

Enquanto me rasgava a palavra
apontei o balanço dependurado.

- Era ali que brincávamos!

Também ele trazia o olhar cansado
desesperado de tanto viver.
Naquele dia ele pode me entender
pois já seu riso estava trancado.
- Senhor, aquela casa era minha casa,
eu também fui parido ali!

Na fotografia daquele moço
cresciam paisagens de outros lugares.

Na sexta vez eu não regressei.
Da casa nem memória restava.

Não tive tempo de contar aos meus netos
que ela era azul,
não falei da roseira à beira da janela
por onde eu cheirava o mundo
nem da goiabeira no quintal.

É a mesma goiabeira
debaixo da qual um homem senta
tira a flauta da garganta
e põe-se a cantar versos tristes.

Quando alguém pergunta o que ele faz;
responde  ciscando o tempo:
- busco aquela casa
perdida em outro mapa.

Na sétima vez ninguém regressou
meus filhos já estavam partindo
 meus netos pertenciam à outras paisagens

a casa terminou de morrer
pois dela  ninguém sentia saudades.

Sandrio Cândido




Imagem via World in Photo



 




Entre bougainvillias e demônios




não que essa bougainvillia não me inspire
ou esse bem-te-vi solitário não me diga alguma coisa
existe entre mim e as coisas lá fora um abismo escuro
e a estrada não aponta o sol
esperava que você fosse ao inferno comigo
e me dissesse que nem tudo estava perdido
mas preferiu pegar o primeiro voo e bater suas asas gastas
ir para um mundo onde não estou
pra que então o telefone depois
e dizer que sente a minha falta
cara, os dias e noites são todos meus
os anjos e os demônios me pertencem
e sei que quando acordar eles vão estar lá
mas você não

Adriana Godoy



Crédito da imagem: fotografia de Lucas Mendes




O ouvido das conchas







Oceanos esculpem a eternidade
no ouvido das conchas

Elke Lubitz






Não te rales, pai


 
Paizinho,

Espero que estejas feliz aí, onde não há tempo e o espaço é o infinito amor.
Eu? Nem sei! Deambulo pela casa, entre a exasperação e os ansiolíticos. Eu sei que sou muito nervosa, Vou tentar, paizinho, vou tentar aclamar-me. Fazes-me tanta falta!
A mãezinha está bem, assim o suponho porque não a posso ver. Estamos em estado de emergência... Tenho tanto medo por ela, queria tanto que estivesse comigo!
Mando sim, diariamente mando-lhe o meu carinho, os meus beijinhos e reafirmo-lhe sempre a saudade dolorosa que guardo no peito.
E tu não estás! Preciso tanto do teu abraço, da tua voz!
Ontem comemorou-se o Dia do Pai!
Achas que me iria esquecer? Não te falei, não te escrevi, mas como sempre a tua energia e o teu amor tocaram-me.
Os meus olhos choraram pétalas de rosas, numa antevisão da primavera do teu riso. Estiveram sempre comigo as tuas gargalhadas. Hoje, porém, o dia está triste e cinzento deprimindo todos os medos  e, na vã tentativa de reagir às cores fúnebres do país, uno-me ao amor e tudo faço para que o arco-íris desponte daí... de onde estás.
Não te rales, paizinho, a mãezinha não tem real consciência do perigo, apenas tem consciência da minha ausência e sofre. No mais, tenho que acreditar no que me dizem, pois é isso que desejo, expurgar as sombras da tristeza como tão bem me ensinaste. Acredito, por isso, que está bem.
Nunca esqueças que o meu amor por ti está unido ao teu, para que façamos a nossa eternidade.

Quebrando a proibição das manifestações de afeto, o maior e mais quentinho abraço.
A tua filha.

Margarida Afonso Henriques
20.03.2020




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quinta-feira, 26 de março de 2020

Estratégia de dominação

 
 
Se há algo que muitos líderes políticos não viam a hora de aprender, é o estratagema de transformar as calamidades em vantagens: reacender a chama da guerra é uma receita infalível para desviar a atenção dos problemas sociais, como a desigualdade, a injustiça, a degradação e a exclusão, e fortalecer o pacto de comando-obediência entre os governantes e a sua nação. A nova estratégia de dominação, fundamentada no deliberado impulso à ansiedade, permite que as autoridades estabelecidas não cumpram a promessa de garantir coletivamente a segurança existencial. Deveremos nos contentar com uma segurança privada, pessoal, física.
 
Zygmunt Bauman
 
 
 
Crédito da imagem: arte de Igor Morkis 




A centelha de insegurança



Assim como as leis do marketing impõem que os comerciantes proclamem incessantemente que o seu objetivo é a satisfação das necessidades dos consumidores – embora estando eles plenamente conscientes de que, ao contrário, a insatisfação é o verdadeiro motor da economia consumista –, assim também os empresários políticos dos nossos dias declaram, sim, que o seu objetivo é garantir a segurança da população, mas, ao mesmo tempo, fazer todo o possível, e até mais, para fomentar a sensação de perigo iminente. O núcleo da atual estratégia de dominação, portanto, consiste em acender e em manter viva a centelha de insegurança.

Zygmunt Bauman



Imagem da Web



 





Qualquer estado interior negativo é contagioso

 

Qualquer estado interior negativo é contagioso: a infelicidade espalha-se mais facilmente do que uma doença física. Através da lei da ressonância, ela desencadeia e alimenta a negatividade latente nos outros, a menos que estes lhe sejam imunes - isto é, sejam altamente conscientes.

Eckhart Tolle | O Poder do Agora




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Às vezes é preciso recolher-se

 

Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambiguidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.

Lya Luft



Crédito da imagem: Fotocolagem de Karel Teige








O mito do eterno retorno

 
 
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:
 
- Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!
 
Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
 
Nietzsche
 
 
 
Crédito da imagem: Spider's view of the moon, by Nina Bryant
 
 
 
 

Ciencia x Filosofia

 

Ciência é o que você sabe.
Filosofia é o que você não sabe. 
...
A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na retaguarda para ver. Muitos homens cometem o erro de substituir o conhecimento pela afirmação de que é verdade aquilo que eles desejam.
 
Bertrand Russell



Imagem via Pinterest




Das miinhas músicas


"Paciência", de Lenine


😷
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência . . .
 
. . . O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência . . .


Paciência

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não
A vida não para
A vida é tão rara

Canção de Lenine





Assim seja


 

Que as nossas almas sigam irmanadas na utopia de um mundo cuja maior loucura seja a dignidade de todos os homens. Cuja alegria de uns não esteja alicerçada na desgraça de inúmeros outros. Cuja esperança sobreviva ao caos. Onde o pão nosso de cada dia esteja à mesa recheado de sonhos e poesia.

Eduardo Galeano



Imagem da Web




A peste

 

Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (...) Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria idiota.” E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Nossos concidadãos, a esse respeito, eram como todo mundo: pensavam em si próprios. Em outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram suas precauções. Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis.

Albert Camus
in: A Peste




Crédito da imagem: Fotografia de Cena do filme "O Sétimo Selo"
(1957), de Ingmar Bergman




E tem a hora da sessão Coruja...



... E tem a hora da sessão Coruja...

🎤🎵  Só entende quem namora   😍💓






terça-feira, 24 de março de 2020

Noite




A noite estende sobre a terra um manto de névoa, como uma poeira úmida, muito fina... Por baixo, na escuridão, há um murmurar antigo e indecifrável no rastejar dos bichos, no esvoaçar das asas das aves da escuridão. A noite tem peso, tem cheiro, tem cor. Ela traz o silêncio que guarda a memória de um abraço infinito e eu não sei, afinal, se amo a noite ou se tenho medo dela. 
 
Ana Mateus

Fotopoema



 Para os amantes de gatos e poesia... um encontro com fotografias de Andy Prokh



Para quem, nos felinos, aprecia,
a beleza, o carisma, o fino trato,
um simples gato pode ser poesia...



Chegando devagarinho,
o gato leva o silêncio
ao canto do passarinho.





O amor indiscreto
dos gatos de rua
ofende a pureza da lua?





Na mesa posta,
o gato se lambe
porque se gosta.






Um pulo de gato,
gracioso e exato,
qual verso no ar...




Tapeando a rosa,
o gato antegoza
ciúmes do beija-flor...

Gatos e Atos, de Bartolomeu Correia de Melo




Ter nas pessoas
a confiança dos gatos,
que fecham os olhos
e esticam o pescoço,

Leila Míccolis
 



No pátio
passeia o silêncio
do gato

Rogel Samuel



Tocar o âmago

 

A verdade é que eu nunca acreditei nos diários íntimos. Penso que em muito poucas ocasiões alguém consegue tocar de leve o próprio âmago, em instantes que podem ser maravilhosos ou assustadores. Mas isso talvez ocorra três ou quatro vezes ao longo de uma existência. De modo que não é questão de simular que a pessoa alcança diariamente essa profundidade, quando, no melhor dos casos, mal chega ao primeiro subsolo.

Mario Benedetti
em "A Borra do Café"



Fotografia do escritor Mario Benedetti, de Consuelo Bautista









Prece sem pressa



Dai-me sempre uma poesia que abra feridas e ao mesmo tempo cure todos
os nexos, todos os lados de dentro.
Uma poesia emplastro, uma poesia ungüento.
Uma poesia prova, uma poesia de vento,
que ao mesmo tempo
dure.

Elisa Lucinda








Crédito da imagem: Julie Newmar sob as lentes de Peter Basch








A dança


 


Eu lhe mandei meu convite, a nota inscrita na palma da minha mão pela chama da vida.
Não dê um salto gritando: “Sim, é isso que eu quero! Vamos em frente!”
Apenas se levante em silêncio e dance comigo.

Mostre-me como você segue seus desejos mais profundos, descendo em espiral em direção à dor dentro da dor, e lhe mostrarei como eu me volto para dentro e me abro para fora para sentir o beijo do Mistério, doces lábios sobre os meus, todos os dias.

Não me diga que você quer encerrar o mundo inteiro no seu coração. Mostre-me como você evita cometer outra falta sem se desesperar quando sofre uma agressão e tem medo de não receber amor.

Conte-me uma história sobre quem você é, e veja quem eu sou nas histórias que estou vivendo. E juntos nos lembraremos que cada um de nós sempre tem uma escolha.
Não me diga que as coisas serão maravilhosas… um dia. Mostre-me que você é capaz de correr o risco de ficar completamente em paz, totalmente à vontade com a maneira como as coisas são neste exato momento, e também no momento seguinte, e no seguinte…

Já ouvi histórias demais sobre a audácia heróica.
Conte-me como você desmorona quando esbarra no muro, o lugar que você não pode transpor pela força da sua vontade. O que conduz você para o outro lado desse muro, para a frágil beleza da sua condição humana?
E depois de mostrarmos um ao outro como definimos e mantivemos os limites claros e saudáveis que nos ajudam a viver lado a lado um com o outro, vamos correr o risco de lembrar que nunca deixamos de amar em silêncio aqueles que um dia amamos em voz alta.

Leve-me para os lugares do planeta que ensinam você a dançar, os lugares onde você pode correr o risco de deixar o mundo partir seu coração, e eu conduzirei você aos lugares onde a terra debaixo dos meus pés e as estrelas no céu fazem meu coração ficar inteiro de novo, e de novo.

Mostre-me como você cuida dos negócios sem deixar que eles determinem quem você é.
Quando as crianças estão alimentadas mas as vozes internas e as externas gritam que os desejos da alma têm um preço alto demais, vamos lembrar um ao outro que o que importa não é o dinheiro.

Mostre-me como você oferece ao seu povo e ao mundo as histórias e as canções que você quer que os filhos de nossos filhos recordem, e eu revelarei a você como eu me empenho, não para mudar o mundo, mas para amá-lo.

Sente-se do meu lado e compartilhe comigo longos momentos de solidão, conhecendo tanto a nossa absoluta solitude quanto o nosso inegável pertencer.
Dance comigo no silêncio e no som das pequenas palavras cotidianas, sem que eu me responsabilize no fim do dia por nenhum de nós dois.

E quando o som de todas as declarações das nossas mais sinceras intenções tiver desaparecido no vento, dance comigo na pausa infinita antes da grande inalação seguinte do alento que nos sopra a
todos na existência, sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.

Não diga “Sim!”.
Pegue apenas a minha mão e dance comigo.

Oriah Mountain Dreamer



Imagem ddda Web









Então compreendi perfeitamente o que gerava a dor



Então compreendi perfeitamente o que gerava a dor. Não era o corte com a ponta da faca, a topada na quina da cama, o amigo que não liga mais, o café que sujou o fogão, as palavras duras, as notícias na tv, obviamente isso soma-se ao fardo, mas não é ele em si. A dor era gerada pela sede insaciável do nada. Pois quando não se tinha o que queria sofria e quando conseguia almejava outra coisa para sofrer. E é por essa sede que os humanos consomem seus dias, pelos futuros que nunca virão ou que serão fadados quando chegarem. E a maior idiotice era perceber: eu também era um desses tais que nunca estava de barriga cheia.

Fernando Pessoa



Crédito da imagem:  Fotografía de Samad Ghorbanzadeh








É triste explicar um poema


  
É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de poeta.

Hilda Hilst



 
Arte Surrealista de Wolfgang Paalen




Cuidado com a sedução da clareza




Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio! .
 
Rubem Alves









Crédito da imagem: Arte de Kenne Gregoire









E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros?

 
 
E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros? É um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes… um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque ele é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, às vezes muito triste, às vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honoráveis sentimentos… não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura? E não somos todos mais ou menos sonhadores?

 
Fiodor Dostoievski



Crédito da imagem: Alice Glass by Daniel Jackson crystal castles' leading lady alice glass is embracing her own darkness  





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