terça-feira, 7 de julho de 2020

Ofereci-te tanta coisa...



Ofereci-te tanta coisa...

A mais preciosa, aquela que há muitos anos não dava a ninguém - a mais preciosa, repito, foi a minha absoluta disponibilidade para estar contigo, ouvir-te, ou estar em silêncio perto de ti.

Al Berto
in "Diários"



Obra: "Room in New York", 1932 - Edward Hopper.






Olho-te e penso naquele poeta que fala da loneliness of much beauty. Quantas vezes nos sentimos extraordinariamente sós embora sentido-nos felizes. O amor é impossível mesmo quando possível.

Ana Hatherly



Crédito da imagem:  Arte de Tina Schwarz








Assim caminha a humanidade




Porém, a verdadeira e a mais profunda discórdia está na alma de cada um. O futuro se tornou a região do horror, e o presente se converteu num deserto. As sociedades liberais giram incansavelmente: não avançam, se repetem. Se mudam, não se transfiguram. O hedonismo do Ocidente é a outra face do seu desespero; o seu ceticismo não é uma sabedoria, mas sim uma renúncia; o seu niilismo desemboca no suicídio e em formas degradadas de credulidade, como os fanatismos políticos e as quimeras da magia. O lugar vazio deixado pelo cristianismo nas almas modernas não foi ocupado pela filosofia, mas pelas superstições mais grosseiras. Nosso erotismo é uma técnica, não  uma arte ou uma paixão.

Octávio Paz

(1914 - 1998)



Crédito da imagem: Francis Bacon, 'Head VI'






quinta-feira, 2 de julho de 2020

Mona... quem?



MONALISA APÓS120 DIAS

Em distanciamento social, distanciamento sexual, distanciamento odontológico, distanciamento médico e distanciamento do trabalho.

Nina, nina...


Naquele tempo, costumava levar gelo à Nina Simone. Era sempre simpática comigo. Tratava-me sempre por "Queriiiido". Levava-lhe uma bandeja cinzenta de plástico cheia de gelo, para ela pôr no whisky.
Ela descascava a cabeleira loura e atirava-a para o chão. Por debaixo da cabeleira, o seu cabelo verdadeiro era miudinho, como o pelo de um cordeiro negro tosquiado. Descascava as pestanas postiças e colava-as ao espelho. As pálpebras eram salientes. Pintava-as de azul. Faziam-me sempre pensar numa dessas rainhas egípcias, como as que eu tinha visto na National Geographic. A sua pele brilhava de molhada. Enrolava uma toalha à volta do pescoço e depois inclinava-se para a frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos. O suor rolava-lhe pela cara abaixo, salpicando o chão vermelho de cimento, entre os seus pés.
Habitualmente acabava o espetáculo com a canção "Jenny The Pirate", de Bertolt Brecht. Cantava sempre esta canção como se se tratasse de uma vingança sua, muito profunda, como se tivesse sido ela própria a autora do poema. A sua atuação era como um tiro, que alvejava, primeiro, a garganta de uma audiência branca. Depois, o coração. Finalmente, a cabeça. Nesses tempos, ela disparava a matar.
A canção do seu espetáculo que realmente me punha fora de mim era "Que bom era ter-te à minha espera". Sempre que a cantava, eu ficava assombrado, hipnotizado. Andava a recolher copos de Whiskey Sour quando ela atacava aquele piano, que desabava sobre nós, retumbante, com a sua voz fantasmagórica, serpenteando através do amontoado das cordas. Os meus olhos subiam para o palco e por lá ficavam, enquanto as minhas mãos continuavam a trabalhar.
Uma vez, estava ela a cantar essa canção, derrubei uma vela. A cera quente espirrou para cima do fato de um homem de negócios, sujando-o todo. Fui chamado ao escritório do gerente. O homem já lá estava, com os salpicos de cera quente espalhados pelas calças abaixo. Parecia que se tinha vindo para cima do fato. Nessa noite, fui despedido.
Lá fora, na rua, ainda podia ouvir a sua voz atravessando as paredes: "Seria o paraíso, ter-te à minha espera".
 
Sam Shepard (n.1943), "Crónicas Americanas",1982
 
 

Nina Simone nos bastidores após a apresentação no Carnegie Hall, 1963
 
 
 

Das minhas músicas

 
TERRA, de Caetano Veloso



🎼🎻🎵🎶🎹

Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens

...

Eu estou apaixonado, por uma menina terra
Signo de elemento terra, do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
...

🎼🎻🎵🎶🎹





Dos meus livros


"Contos do Gin-Tonic", 1973 
de Mário-Henrique Leiria (1923-1980) 

 

O Menino e o Caixote
 
- Não pode ser - disse o senhor Sousa ao filho, o Ernestinho de oito anos.
- Mas, papá, eu vejo nos filmes. Todos têm - afirmou a criança, à procura de uma salvação para aquilo que lhe parecia um desejo certo.
- Onde é que já se viu um leão em casa? Só nessas fitas idiotas. E, além disso, o menino não vê que não há espaço? Para a semana arranjo-lhe um gato bonito, daqueles que bebem leitinho e fazem miau.
O Ernestinho desistiu de convencer o pai. Para quê? Era um homem com bigode, sempre a explicar o que não era preciso. Nem sequer percebia de leões.
Sentou-se no chão a pensar. Com certeza que devia haver um leão, ali em casa! Não era a vassoura atrás da porta, nem a cadeira larga da mãe dormir aos domingos, nem sequer o embrulho do lixo à espera de ser deitado fora. Foi investigar, toda a gente sabe que os leões estão onde menos se espera.
Na cozinha, lá ao fundo, estava o caixote vazio que trouxera as compras da Cooperativa. O Ernestinho pousou-lhe a mão, acariciou-o com ternura e um certo receio. O caixote rugiu e sacudiu a areia amarela e antiga que lhe aquecia a juba. O menino puxou-o ao de leve, como quem ensina e acompanha, e o caixote seguiu-o, pisando firme.
O Ernestinho sentou-se no chão da sala. Entre o sofá e a mesinha da televisão o caixote ficava mesmo bem, confortável, como na caverna onde nascera e dera o primeiro rugido.
- Agora vamos caçar, Baluba - explicou o Ernestinho ao caixote.
- Que faz o meninho aí com esse caixote? - perguntou severamente o senhor Sousa, abrindo a porta, de sobrolho franzido.
O menino olhou para o pai, assustado, e depois para o seu amigo Baluba.
- Mata o velho, Baluba! - gritou, num desespero.
O leão saltou veloz e, com uma única dentada eficaz, arrancou a cabeça do senhor Sousa.






   

Uma carta

 

Querido Max:

Talvez desta feita já não me levante; a julgar pela febre pulmonar que tive este mês, é muito provável que me sobrevenha uma pneumonia e não é o facto de escrever que a afugentará, embora isso tenha um certo poder. Caso essa hipótese se confirme, é esta a minha última vontade em relação aos meus escritos:
De tudo quanto escrevi, apenas podem ser conservados os livros: "Urteil", "Heixer", "Verwandlung", "Strafkolonie", "Landartzt" e a novela "Hungerkuenstler". (A meia-dúzia de exemplares da "Betrachtung", podem ficar, não quero dar a ninguém o trabalho de os *amachucar, embora daí nada deva voltar a ser impresso). Quando digo que aqueles cinco livros e a novela podem ser conservados, não quero dizer com isso que deseje que voltem a ser impressos e sejam transmitidos à posteridade; pelo contrário, se acabarem por se perder, tal fato irá ao encontro dos meus desejos. Simplesmente, uma vez que eles existem, quem quiser conservá-los pode fazê-lo, não o impeço. Por outro lado, todos os meus escritos, sem exceção (aparecidos em revistas ou sob a forma de manuscritos ou cartas), tanto os que possas apanhar à mão como os que consigas obter por meio de pedidos aos possuidores (...) - tudo isto deve ser queimado, sem exceções e de preferência sem ser lido (...), é isso que te peço.

Franz

Nota:
Max Brod, felizmente, não cumpriu com as disposições do seu amigo Franz e até, pelo contrário, salvou da fúria perfeccionista e destrutiva deste, os manuscritos de algumas das suas obras, que lhe surripiou, ostensivamente, levando para sua casa. Foi por um triz, portanto, que a obra de um dos maiores escritores do século XX e de toda a história literária, não ficou incógnita... O apelido do remetente, é Kafka.

(Max Brod foi um escritor em língua alemã, compositor e jornalista judeu. Foi amigo, biógrafo e testamenteiro de Franz Kafka.)

*amachucar - verbo transitivo

1. Amarrotar; amassar.

2. [Figurado]  Acabrunhar; deprimir.


Crédito da imagem: fotografia de Priscila Prade, com os atores Anderson Di Rizzi e Maurício Machado, intérpretes da peça "Um Beijo em Franz Kafta", de 2019
a·ma·chu·car - Conjugar
verbo transitivo
1. Amarrotar; amassar.
2. [Figurado]  Acabrunhar; deprimir.

"amachucar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/amachucar [consultado em 02-07-2020].

Os amigos - epílogo & epitáfio






 

Há muito tempo, víamos os amigos todos os dias.
Depois, voltamos a vê-los só nos casamentos.
Agora, tornamos a encontrá-los nos funerais.
Um dia destes, nem aí os veremos.
Será o nosso.

J. E. Simões



Imagem da Web



quarta-feira, 1 de julho de 2020

 

Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar. 

Henry Miller
in "O Mundo do Sexo"




Fotografia de Rita Franchini Santilli









Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

...