domingo, 27 de novembro de 2016

Continuação



Adoro Reticências...
Aqueles três pontos intermitentes que insistem em dizer
que nada está fechado, que nada acabou, que algo sempre está por vir!
A vida se faz assim!
Nada pronto, nada definido.
Tudo sempre em construção.
Tudo ainda por se dizer...
Nascendo...
Brotando...
Sublimando...
Vivo assim...
Numa eterna reticência...
Para que colocar ponto final?
O que seria de nós sem a expectativa de continuação?

Nilson Furtado

...


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Terra boa criadeira

Tenho andado longe de cá, muitos afazeres, muitas leituras. Projetos novos em curso. Vez ou outra sinto falta de passar por aqui, postar algum texto que me deliciou...como esse de hoje, que combina com esse tempinho chuvoso que faz aqui pelo Sudeste, em final de primavera. Esta estação, apesar de sua claridade, de suas cores e flores exuberantes, sempre me pareceu combinar demais com  a chuva, já que esta é quem rega a terra e brota as sementes para que se possam florescer. Finalzinho de primavera batendo forte dentro de cada um de nós, maduros, mas sempre em renovação. O texto deste meu grande escritor e querido amigo José Antonio Abreu de Oliveira vem regar esta tardezinha chuvosa. Apreciem.


E o bem-te-vi catando alimentos na rua, sob a chuva. Penso que são os insetos que ontem atacaram o bairro, bamboleantes em torno das luzes. Acompanhando os pulinhos da ave, me deparo com uma outra coisa, nada a ver: a planta humilde brotando do meio de pedras. Olhei fora, me vi por dentro. Sementes germinando no coração, no peito, sei lá onde fica o núcleo de se sentir ativo e vivo. Devo ser alguma espécie de vegetal, desenvolvo-me em sutilezas. Mas o momento é ajardinado e estou em total sintonia com coisas que brotam e se desenovelam. Percebi umas cascas grossas de carvalho em minha pele, mas o dente-de-leão e as margaridas brancas também encontram terreno, talvez em meus olhos, ou minhas mãos, estou um tanto doce como as amoras maduras. E não cessa o brotamento, coisa curiosa, justo quando me sentia granito. Não estranharei se algum beija-flor tecer um ninho na testa. Enamorei-me da chuva de hoje.

Texto de José Antonio Abreu de Oliveira, postado em sua Facepage, aqui

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dos livros




As meninas queriam-se assim, prendadas. Sem grandes rasgos, nem desejos soltos. As meninas queriam-se sossegadas. Calmas, generosas e caladas.
Bálsamo e água pura. Tecto e sacrifício.

As meninas queriam-se castas. Ignorantes quanto às artes do amor. Com sorte os homens ensina-las-iam e com eles desbravariam sendas e entrariam em bosques frondosos e baías quentes. A maior parte das vezes não tinham essa sorte. Mordiam a vontade em silêncio. Cumpriam a obrigação de esposas. Silenciosas e hirtas. Virgens de prazer.

As meninas não davam gargalhadas, as meninas não entendiam as anedotas "sujas", as meninas sentavam-se com os joelhos juntos, as meninas não assobiavam, as meninas não subiam às árvores.

Felizmente as meninas tinham livros. Felizmente as meninas tinham sonhos. Felizmente as meninas tinham asas. E voaram.


Maria Jorgete Teixeira


Crédito da imagem: pintura de Pablo Gallo


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Em que lareiras na floresta



[...]
aqui ao lado deste jardim (vê-se do jardim) há uma cegonha. Vive numa chaminé, claro. A cegonha não lhes interessa, a estes homens, porque não está presa, acho que é por isso que a cegonha não lhes interessa, mas não sei se me deva contentar com essa explicação. 
Sei que nas lojas às vezes têm animais em gaiolas. Às vezes no meio da rua. É para abater a pedido, a carne palpitante. É um cheiro, não de fezes, mas de medo: toda a esquina, quase toda a rua, cheira a medo. 
No entanto os animais continuam a comer. Comem até morrer. Não sei se diga que são originais, quanto a estes visitantes, a estes homens, não sei se comem também até morrer, nem sei se já defecaram hoje, todos. Chegam aqui e ficam à espera: olham para mim e uns para os outros e estão à espera: de qualquer coisa vinda de fora deles, de fora para dentro, um consolo, uma emoção, uma surpresa, um divertimento, qualquer coisa que lhes anime a vida, que por momentos os faça não estarem arrependidos de ter nascido. 
Hoje melhor seria, claro, terem ficado diante da televisão, terem ficado a ler qualquer graciosa história de amor com happy-end, por exemplo aquela novela intitulada em português "um homem no jardim zoológico". Não sabem por que é que eu estou aqui: mas sabem que não é para os divertir. E se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eu, como eles? sim, se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eles, como eu?

[...]


Alberto Pimenta
em Que Lareiras na Floresta


Crédito da imagem: Uol Notícias, (Visitantes deixaram homenagens ao gorila morto em zoológico norte-americano), aqui


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Amanhecer barulhento




Trago um texto delicioso, com jeitinho de roça, de interior - e de delicadeza. De um autor que admiro. Peço licença ao autor pelo título meramente ilustrativo que dou à sua prosa poética.
Espero que gostem.
Uma barulhada lá fora entrando por frestas das janelas, fui ver. Era o sol, um monte de sol, uma montoeira. Tanto em rumas como espalhado: finas camadas.É um tipo de oceano, com ondas que vão e vêm, espumoso nas bordas. Brilhoso nos pelos dos gatos.Pra todo lado, na pele verde dos pinheiros, galopando sobre pastos, ruas, inventador de sombras.Tinha sol voando e sol cabisbaixo, parado e semovente, uma coisa.E azulado de tudo, no alto claro. Tinha até sol alaranjado nos caquis.Ensurdecedor. Por isso levantei-me presto, mergulhei no seu calor, Eu estava líquido de sono, me solidifiquei.
Bom dia.

José Antonio Abreu de Oliveira



Crédito da imagem: Pinterest


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