segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Mesa farta



Se o que me ofereces são cacos e pontas afiadas de culpa numa existência entre escombros e restos de um passado que me aprisiona e me quer à míngua, digo-te que não. Dentro de mim habita um ser fluído que, apesar de profundo, não aceita viver com as raízes fincadas neste terreno onde proliferam os ratos e as cobras de tuas promessas não cumpridas. Recuso também os espinhos e galhos secos dos teus descartes. Sou livre, carrego nos olhos asas que me alçam longe, adiante por caminhos que se bifurcam... e mais adiante se bifurcam de novo e por todos eles eu andarei, pois sou viva. Afasta de mim o cálice do pouco vinho da tua alegria e o prato das migalhas do teu desejo. Quero fatura - me alimentarei de meus próprios sonhos.

Dalva Nascimento


Imagem: Google

segunda-feira, 29 de julho de 2019




De manhãzinha ele abre as minhas cortinas 
e faz o Sol nascer em mim 

Ao anoitecer eu sou lua
nua no céu daquele moço
cheia de luz
nova a cada carinho 
minguante de pudor
crescente de amor.

3Z

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Alhos e bugalhos


 


preciso prestar atenção para não esquecer nada cenoura batata ovo leite mas como ele pôde fazer uma coisa dessas ordinário homem é assim mesmo tudo palhaço tenho que comprar também farinha de trigo integral que é melhor para o estômago onde já se viu contar tanta mentira fingir que esqueceu o celular vê se eu caio numa desculpa dessa tomate azeitona queijo parmesão será que ele pensa que eu acreditei nisso  de verdade nossa como tá caro o óleo de canola vou comprar o de soja mesmo e levar a maior bronca do cardiologista não acredito que ele me acha assim tão estúpida porque sou mesmo uma lerda para entender as coisas que cara de pau mentir tanto durante tanto tempo pimentão azeite cebola cheguei a sentir dor no peito quando ele me disse aquelas coisas vou ali naquele corredor pegar o coentro e a salsa que mania que eu tenho de não fazer lista tenho que deixar de ser assim tão boba mas é que eu acreditava nele e achava que era de verdade essa semana não vou comprar carne vermelha só frango e peixe também ele me acostumou mal me ligando sempre me procurando sempre dizendo que me amava e agora o que é que eu faço alho presunto requeijão light pra ver se eu perco esses quilos extras que ganhei não sei como juro que essa noite não vou ligar prá ele nunca mais vou ficar quieta e dormir cedo nem vou pensar nele não vou nem comprar macarrão preciso comer mais legumes e verduras afinal de contas sou uma mulher ou uma pamonha vou por esse corredor aqui que é para passar longe dos biscoitos sei muito bem viver sem ele olha só  aqui nas prateleiras quanto chocolate nossa o que é isso que tá me dando uma vontade de chorar e todos esses chocolates ao leite com castanha com coco com uva passa meio amargo crocante com menta em barra e bombons de todos os tipos cores e tamanhos

...e assim ela saiu do supermercado, com as sacolas cheias de suas comprar e de seus chocolates. Foi comendo pelo caminho - um, dois, três bombons. Ao chegar em casa guardou todas as compras e chorou pelo resto da noite, sentada no sofá em frente ao telefone mudo. Foi deitar já quase de manhãzinha, com uma embalagem de bombom em forma de coração. Partido.

Dalva Nascimento



domingo, 7 de julho de 2019

Sub-reptício






Sei que não é loucura minha, sei que é só maldade tua. Ficas aí, do teu mundinho pequeno a me espreitar. A me vigiar pelas frestas das tuas janelas, pelos buracos na parede que tua malícia vai abrindo dia após dia. E pensas que assim vais me possuindo. Sinto que teus olhos vão me consumindo, em fatias, em nesgas, em pedaços. Mas eu, a cada dia, mais cresço. A cada dentada tua, a cada bocada, sou um pouco mais eu. Cresço na medida em que pensas que me consomes. E tu, como um rato, te esgueiras sobre as telhas. Fazes malabarismos perigosos só para me ver passar. Não faz mal. Gosto de me exibir. Faço questão de mostrar minha intensidade. É disso que tens inveja. De minha paixão embriagadora, de minha euforia incontrolável. O que tu querias, mesmo, era ter as minhas asas. Essas mesmas asas que me fazem ser capaz de alcançar o inatingível. Mas tu não és capaz de voar como eu. Guardastes tuas asas dentro de um armário escuro e o fechaste com cadeado. Só sabes mesmo viver assim, na espreita. Se escondendo pelos cantos  como um rato, ou rastejando feito um caracol a levar sua pobre, triste e escura casa nas costas, cheia de imperfeições e sujeiras. Não faz mal. E porque sei que me vigias, a cada dia abro mais as minhas asas, na esperança de que te lembres que também podes voar.

Dalva Nascimento


"No ar, no ar
eu sou assim
brilho do farol
do mais amargo fim
simplesmente sol"
 (Biafra)


Credito da imagem: obra de Marc Chagal




segunda-feira, 17 de junho de 2019

Recomeço




Nosso barco enfrentou uma grande tormenta,  numa noite escura. Cruzou águas cinzas e revoltas. Sob imensas ondas naufragou, nosso pobre barco perdido, agitado e sacudido pelos ventos.  As ondas barulhentas arremessaram na areia nossos despojos. Agitados, feridos e trêmulos olhamos, sem acreditar, que tudo tinha ficado ali, na areia. Nos restou criar coragem e voltar a praia e recolher o que o mar nos devolveu. E sonhar de novo. E recomeçar. Manter no olhar a ternura necessária para reconhecer e encontrar ali, entre cacos e farpas, aquela lembrança, aquela palavra que nos prova que nem tudo afundou afinal. Encontrar aquele que navega ao nosso lado, de mãos dadas, em busca da manhã que nasce e nos traz a esperança do recomeço.

Dalva Nascimento



Crédito da imagem: fotografia minha, Quiosque da Loura, à noite, na Praia do Dentinho, em Praia Seca, Araruama-RJ




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

...