quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dos livros




As meninas queriam-se assim, prendadas. Sem grandes rasgos, nem desejos soltos. As meninas queriam-se sossegadas. Calmas, generosas e caladas.
Bálsamo e água pura. Tecto e sacrifício.

As meninas queriam-se castas. Ignorantes quanto às artes do amor. Com sorte os homens ensina-las-iam e com eles desbravariam sendas e entrariam em bosques frondosos e baías quentes. A maior parte das vezes não tinham essa sorte. Mordiam a vontade em silêncio. Cumpriam a obrigação de esposas. Silenciosas e hirtas. Virgens de prazer.

As meninas não davam gargalhadas, as meninas não entendiam as anedotas "sujas", as meninas sentavam-se com os joelhos juntos, as meninas não assobiavam, as meninas não subiam às árvores.

Felizmente as meninas tinham livros. Felizmente as meninas tinham sonhos. Felizmente as meninas tinham asas. E voaram.


Maria Jorgete Teixeira


Crédito da imagem: pintura de Pablo Gallo


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Em que lareiras na floresta



[...]
aqui ao lado deste jardim (vê-se do jardim) há uma cegonha. Vive numa chaminé, claro. A cegonha não lhes interessa, a estes homens, porque não está presa, acho que é por isso que a cegonha não lhes interessa, mas não sei se me deva contentar com essa explicação. 
Sei que nas lojas às vezes têm animais em gaiolas. Às vezes no meio da rua. É para abater a pedido, a carne palpitante. É um cheiro, não de fezes, mas de medo: toda a esquina, quase toda a rua, cheira a medo. 
No entanto os animais continuam a comer. Comem até morrer. Não sei se diga que são originais, quanto a estes visitantes, a estes homens, não sei se comem também até morrer, nem sei se já defecaram hoje, todos. Chegam aqui e ficam à espera: olham para mim e uns para os outros e estão à espera: de qualquer coisa vinda de fora deles, de fora para dentro, um consolo, uma emoção, uma surpresa, um divertimento, qualquer coisa que lhes anime a vida, que por momentos os faça não estarem arrependidos de ter nascido. 
Hoje melhor seria, claro, terem ficado diante da televisão, terem ficado a ler qualquer graciosa história de amor com happy-end, por exemplo aquela novela intitulada em português "um homem no jardim zoológico". Não sabem por que é que eu estou aqui: mas sabem que não é para os divertir. E se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eu, como eles? sim, se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eles, como eu?

[...]


Alberto Pimenta
em Que Lareiras na Floresta


Crédito da imagem: Uol Notícias, (Visitantes deixaram homenagens ao gorila morto em zoológico norte-americano), aqui


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Amanhecer barulhento




Trago um texto delicioso, com jeitinho de roça, de interior - e de delicadeza. De um autor que admiro. Peço licença ao autor pelo título meramente ilustrativo que dou à sua prosa poética.
Espero que gostem.
Uma barulhada lá fora entrando por frestas das janelas, fui ver. Era o sol, um monte de sol, uma montoeira. Tanto em rumas como espalhado: finas camadas.É um tipo de oceano, com ondas que vão e vêm, espumoso nas bordas. Brilhoso nos pelos dos gatos.Pra todo lado, na pele verde dos pinheiros, galopando sobre pastos, ruas, inventador de sombras.Tinha sol voando e sol cabisbaixo, parado e semovente, uma coisa.E azulado de tudo, no alto claro. Tinha até sol alaranjado nos caquis.Ensurdecedor. Por isso levantei-me presto, mergulhei no seu calor, Eu estava líquido de sono, me solidifiquei.
Bom dia.

José Antonio Abreu de Oliveira



Crédito da imagem: Pinterest


domingo, 22 de maio de 2016

Olhos de nada




"Ela entrou no ônibus. Sentou-se. Ligou sua música, e foi. Todo dia, no caminho, a menina ia cantado, mesmo que sem som. Gostava sempre de reparar as pessoas, e notava que, normalmente, todas pareciam ter a mesma expressão facial de “nada”. 

Foi quando o Sol começou a mágica brincadeirinha de se esconder, e encheu a visão da menina de cores e o coração de sonhos e esperança. Alguns pássaros surgiram passarinhando em “V” em direção ao Sol, e levaram todas as tristezas da mocinha para bem longe! Os olhos da menina queriam acompanhá-los até lá, até o final, afinal não é todo dia que a tristeza vai embora. E assim fizeram, não desgrudaram um minuto dos belos passarinhos que iam em perfeita sincronia em direção ao céu colorido. 

Foi quando a menina se deparou com um daqueles olhares de “nada”, o qual ela imaginava não mais existir depois de tão belo espetáculo bem a frente de todos os olhos presentes naquele caminho. Porém, lá estavam eles. Todos os olhares vagos e tristes, em especial o de uma mulher. Um olhar de quem julgava louca a menina que se curvou toda pra ver um pôr-do-sol e uns pássaros: coisa que se vê todo dia." 

Rita Apoena


Crédito da imagem: daqui



quinta-feira, 19 de maio de 2016

As flores do medo




Na rua onde moro
junto ao restaurante da esquina
plantaram um pequeno roseiral
na calçada esburacada
houve logo quem ficasse com medo
que subisse o preço das refeições
mas afinal isso não aconteceu
há uma semana que as rosas
vão esmorecendo na calçada
enquanto o medo muda de cor.

Carlos Alberto Machado
em Registro Civil - poesia reunida.


Crédito da imagem: Google



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