segunda-feira, 23 de maio de 2016

Amanhecer barulhento




Trago um texto delicioso, com jeitinho de roça, de interior - e de delicadeza. De um autor que admiro. Peço licença ao autor pelo título meramente ilustrativo que dou à sua prosa poética.
Espero que gostem.
Uma barulhada lá fora entrando por frestas das janelas, fui ver. Era o sol, um monte de sol, uma montoeira. Tanto em rumas como espalhado: finas camadas.É um tipo de oceano, com ondas que vão e vêm, espumoso nas bordas. Brilhoso nos pelos dos gatos.Pra todo lado, na pele verde dos pinheiros, galopando sobre pastos, ruas, inventador de sombras.Tinha sol voando e sol cabisbaixo, parado e semovente, uma coisa.E azulado de tudo, no alto claro. Tinha até sol alaranjado nos caquis.Ensurdecedor. Por isso levantei-me presto, mergulhei no seu calor, Eu estava líquido de sono, me solidifiquei.
Bom dia.

José Antonio Abreu de Oliveira



Crédito da imagem: Pinterest


domingo, 22 de maio de 2016

Olhos de nada




"Ela entrou no ônibus. Sentou-se. Ligou sua música, e foi. Todo dia, no caminho, a menina ia cantado, mesmo que sem som. Gostava sempre de reparar as pessoas, e notava que, normalmente, todas pareciam ter a mesma expressão facial de “nada”. 

Foi quando o Sol começou a mágica brincadeirinha de se esconder, e encheu a visão da menina de cores e o coração de sonhos e esperança. Alguns pássaros surgiram passarinhando em “V” em direção ao Sol, e levaram todas as tristezas da mocinha para bem longe! Os olhos da menina queriam acompanhá-los até lá, até o final, afinal não é todo dia que a tristeza vai embora. E assim fizeram, não desgrudaram um minuto dos belos passarinhos que iam em perfeita sincronia em direção ao céu colorido. 

Foi quando a menina se deparou com um daqueles olhares de “nada”, o qual ela imaginava não mais existir depois de tão belo espetáculo bem a frente de todos os olhos presentes naquele caminho. Porém, lá estavam eles. Todos os olhares vagos e tristes, em especial o de uma mulher. Um olhar de quem julgava louca a menina que se curvou toda pra ver um pôr-do-sol e uns pássaros: coisa que se vê todo dia." 

Rita Apoena


Crédito da imagem: daqui



quinta-feira, 19 de maio de 2016

As flores do medo




Na rua onde moro
junto ao restaurante da esquina
plantaram um pequeno roseiral
na calçada esburacada
houve logo quem ficasse com medo
que subisse o preço das refeições
mas afinal isso não aconteceu
há uma semana que as rosas
vão esmorecendo na calçada
enquanto o medo muda de cor.

Carlos Alberto Machado
em Registro Civil - poesia reunida.


Crédito da imagem: Google



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Metamorfose




“A máscara proporciona um relativo conforto, uma relativa segurança. Com ela, você se move sempre dentro de um espaço conhecido, no qual você é um prisioneiro, mas não sabe. Você acredita ser feliz, assim como um passarinho que se acostumou a viver dentro de uma gaiola. Porém, a consciência naturalmente evolui, assim como um botão de rosa que desabrocha. Não importa quanto tempo demora, a consciência começa a sentir angústia pelo enclausuramento. Você começa a sentir a limitação de estar preso dentro de uma armadura, porque apesar dela te proteger e te oferecer um relativo conforto, você não consegue se mover dentro dela. Por isso, em algum momento da jornada, você começa a sentir o desconforto dessa falta de movimento. Isso começa a te angustiar e você sente um aperto no coração. Às vezes, a angústia é tão grande que você não consegue nem respirar. Então, quando você estiver suficientemente maduro para retirar a máscara, o mestre aparece para te ajudar a se libertar dessa armadura. O mestre é um portal para a liberdade. Ele abre a gaiola para o passarinho poder voar.”

Sri Prem Baba


Crédito da imagem: arte de © Adam Martinakis


terça-feira, 10 de maio de 2016

Sim




Sempre no primeiro casamento das manhãs de sábado, na igreja perto de casa, uma velha senhora assiste, do lado de fora e a uma confortável distância, a ansiedade da noiva com um buquê de margaridas entre os dedos. Nem bem a marcha nupcial começa a soar e ela vai embora, levando suas flores. Em um sábado, ao visitar a memória de um amigo que se foi cedo demais, deparei-me com a velha senhora depositando suas margaridas. Não rezou, muito menos prestou reverência. Disse apenas uma palavra e se foi. No túmulo, estava gravado um nome que, se estivesse vivo, teria seus 82 anos. Não ouvi direito o que disse, mas sinto uma certa alegria melancólica em acreditar que foi “sim”.

Leonardo Sakamoto

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

...