terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Imagem do dia


 A noite é o piscar de olhos da eternidade...



Foto de Nellie Vin em Flickr




O mundo dos complôs

 

O inferno é um pantanal onde se pode encontrar cidades que parecem destruídas pelo fogo, porém os condenados se sentem à vontade ali. São felizes a sua maneira, ou seja, estão cheios de ódio, e esse império não tem soberano, seus habitantes estão continuamente conspirando uns contra os outros. Esse é o mundo dos complôs, da política sórdida. Isso é o inferno.

Jorge Luís Borges




Crédito da imagem: arte by Gustave Dore



Tomar água imediatamente ao acordar

 

Um hábito: tomar água imediatamente ao acordar. Coisa antiga, de quando morei na roça, caminho da escola, a mina fresquinha borbulhando sob o bambuzal. Lavava o rosto, molhava os cabelos, penteados com a mão. E me via, refletido, na poça, um garoto de cabelos negros com a cabeça cheia de sonhos. Um dia, no reflexo, notei no azul, quase me tecendo uma coroa de louros, o traço semi lunar da esfera que nos ronda. Outro dia, na borda úmida, um sapo assustado, com um certo odor de musgos. Um tempo que me interessava amorosamente por sapos e planárias, seres que julgava oriundos de outros planetas. Todos, revestidos de água fresca da mina, do mesmo gosto que, todas as manhãs, entorno goela abaixo, sabor de memória. As tatuagens das quais nunca nos livraremos. Tenho certeza que foram este bichos úmidos que me deram um inexplicável interesse pelos mistérios. Reverencio a todos e agradeço. 

José Antonio Abreu de Oliveira 



Imagem da Web





Da leitura





O ato de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Teresa M. G. Jardim 
in Jogos Radicais



Imagem via Pinterest



Cabelos de chuva


 

Antes de sair de casa, ela guardava as lágrimas no bolso mais fundo. Depois andava o dia todo a desembrulhar sorrisos abertos e quando lhe fugiam as forças, metia discretamente a mão no bolso e empurrava as lágrimas mais para dentro, sentia-as atravessarem-lhe o tecido da roupa, umedecerem-lhe a pele morna do peito. Com os dedos molhados, ajeitava então os cabelos em desalinho, naquele gesto tão dela que todos lhe conhecíamos, e sorria de novo. Chamávamos-lhe cabelos de chuva.

Nunca a vimos chorar. Nunca a veremos chorar porque ela partiu hoje, a mulher que guardava as lágrimas no bolso mais fundo.
Quando me fui despedir dela, fiquei muito tempo a olhar-lhe os dedos entrelaçados, cruzados sobre o peito finalmente seco de lágrimas. No rosto cadáver, um teimoso ponto de luz iluminava-a toda: o mais belo sorriso aberto que jamais lhe conheci.

Ana Mateus




Crédito da imagem: Fotografia de Man Ray


 

A árvore é um pássaro falhado


 

Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.

 Afonso Cruz
in Os livros que devoraram o meu pai





Crédito da imagem: Niklas Photography, no Flickr




O tempo das memórias


 
O tempo, infinito tempo, em que te abracei. 
O tempo das memórias. O tempo da tua voz. 
O tempo, inacessível tempo, dos nossos beijos. Inatingível tempo do nós
O tempo das memórias fingidamente esquecidas do futuro tempo sonhado. 
O tempo das lágrimas, queridas lágrimas. 
O tempo da incerteza. O tempo do carinho. 
O tempo do nada e da tristeza, na tua ausência. 
Este tempo em que te digo: - Fala-me, não pares de falar.
Ouvindo-te tenho a certeza de que sou real, e de que também tu és, fora de mim, real.

Manuel António Pina

in Lembranças



Crédito da imagem: arte de Sofia Bonati



Errata

 

Errata

Na pág. 81, onde se lê mulher,
Deverá ler-se feitiço.
Tendo em atenção a isso
Ilude-se apenas quem quiser.

Mário Osório
in Fumo do Meu Cigarro



Crédito da imagem: Fotografia de Rita Hayworth




Poesia do dia

 

Notícias da minha vida — para quê?
O que tu possas imaginar dela talvez tenha mais encanto.
Notícias minhas?
Caberiam em três palavras: — Tento, apenas, esquecer-te!

António Botto




Crédito da imagem: de  Eyal Menahem Brosh


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Preferiu o silêncio

 

Preferiu o silêncio. Era isso o que acima de tudo os unia, um silêncio rumoroso como o das lixeiras onde os mendigos vasculhavam a sobrevivência.

Inês Pedrosa
in: Dentro de ti ver o mar.





Crédito da imagem: arte de Rick Lelieveld




Impermeáveis

 

Tornamo-nos impermeáveis na solidão: dentro da pele não viaja ninguém; fora da pele ninguém nos vê passar.

Jesús Jiménez Domínguez




Crédito da imagem: arte de Katia Chausheva



Nossa época é a época da verdade?

 

Vocês já notaram que neste século tudo ficou mais verdadeiro, mais autêntico? O soldado tornou-se assassino profissional, a política virou criminalidade, o capital virou uma grande indústria equipada de incineradores de cadáveres para exterminar seres humanos, a lei virou a regra do jogo sujo, a liberdade mundial virou a prisão dos povos, o antissemitismo virou Auschwitz, o patriotismo virou genocídio. Nossa época é a época da verdade, quanto a isso, não há dúvida. No entanto, todos continuam mentindo, pela pura força do hábito, mas ninguém se deixa enganar mais; quando se ouve o grito: AMOR – todos sabem que chegou a hora do assassínio; ao ouvir: LEI – é a hora do furto, do roubo.

[…] A vida deve ser um grande privilégio, se no fim temos que pagar por ela com a morte.

Imre Kertézs
in “Eu, Um Outro”



Crédito da imagem: Arte de Laurie Lipton


Como ficar sozinho

 

Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando filtradas pela interface sexy do Facebook. Estrelamos nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia é apenas uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar suas manipulações, como faríamos no caso de pessoas de verdade. É um movimento circular sem fim. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la em nossa lista particular de espelhos elogiosos.

Jonathan Franzen
in: Como Ficar Sozinho



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Procissão dos entediados




[...]

O que mais chama a atenção quando caminho pelas ruas é a enfermidade do silêncio, os entediados e os sobreviventes. Todos juntos. Caminho entre eles e vejo o princípio do fim. [...] E ao final: uma procissão saturniana roxa fará sua aparição no cortejo dos entediados com nervos feitos de imagens televisivas e bactérias infecciosas.
Roberto Piva
in: O Erotismo Dará o Golpe de Estado




Crédito da imagem: Arte de Misha Gordin

Prepara-te, pois terás que viajar sozinho

 


Prepara-te, pois terás que viajar sozinho.
O Instrutor pode apenas indicar o caminho.
A senda é uma para todos;
os meios para chegar à meta variam com os peregrinos.
Assim, a mais importante de todas as obras
é o exemplo da própria vida.

Helena Blavatsky




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Dos meus filmes



Não lemos e escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão. E medicina, advocacia, administração e engenharia, são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo, mas a poesia, beleza, romance, amor... é para isso que vivemos.

Do filme "Sociedade dos Poetas Mortos", de 1989



Embotamento

 

Vão bater na sua porta, sentar numa cadeira e consumir seu tempo sem lhe acrescentar nada. Quando muitas pessoas nulas aparecem e seguem aparecendo, você tem que ser cruel com elas, pois elas estão sendo cruéis com você. Você tem que botá-las pra correr. Tolerar os embotados não é sinal de humanidade, apenas aumenta seu próprio embotamento, e eles sempre deixam um pouco desse peso com você quando vão embora.
 
Charles Bukowski




Dos meus livros




Merceditas: As pessoas são muito malvadas.

Fermín: Malvadas não. Imbecis, o que não é a mesma coisa. O mal pressupõe uma determinação moral, intenção e certa inteligência. O imbecil ou selvagem não para para pensar ou raciocinar. Age por instinto, como besta de estábulo, convencido de que está fazendo o bem, de que sempre tem razão e orgulhoso de sair fodendo, desculpe, tudo aquilo que lhe parece diferente dele próprio, seja em relação a cor, credo idioma ou nacionalidade.

Carlos Ruiz Zafón - A sombra do Vento





Solidão do Himalaia





Quando estamos sozinhos, as coisas contempladas em silêncio deixam-nos nus. Despem-nos de todas as desculpas e distrações que haviam de proteger-nos. Deixam-nos a sós, perante nós mesmos e a nossa vida, que vemos como uma montanha exclusivamente nossa. Uma espécie de Himalaia só nosso, e condenados a conviver para sempre nos seus cumes. Um Himalaia de perguntas. E nós sozinhos para lhes responder.'
 
Jordi Nadal,
in 'Tão perto de ti'



 

Crédito da imagem:  foto de Claire Alice Jean, todos direitos reservados



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Imagem do dia



Evolução



Tempos de desamor a verdade


 

Em quem acreditaremos, nestes tempos inglórios, quando se fala de si mesmo, se ninguém, ou quase ninguém, merece crédito quando fala de outrem, caso em que menor é o interesse de mentir? O primeiro sintoma de corrupção dos costumes está no desamor à verdade. A sinceridade é, como dizia Píndaro, o ponto de partido da grande virtude, é a condição primeira que Platão impõe ao governador de sua República. Entre nós, hoje em dia, a verdade não é o que é, mas o que consegue persuadir os outros.
 
Montaigne 


 


Crédito da imagem: Arte de Margaret Keane




Carência




A lua de neon denunciava as sombras de seus olhos.
Não, não era modismo da milagrosa cosmética, era dor de fato. Lançou-se na penumbra da noite certa de que outros olhos solitários iguais aos seus poderiam estar ali à procura.
A chuva instigava o calor humano e os bares estavam cheios, cada qual buscava usufruir da melhor forma aquela noite chuvosa de sábado. Havia também como é natural, embora reservadamente, rostos que ansiavam por serem correspondidos.
Na rua, poças d' águas refletiam estilhaços de luzes coloridas,
e lá dentro, a meia luz uma voz rouca cantava um blues.
Na pista de dança a música envolvia os casais em sua magia e, olhos que se conheceram ali, iam aos poucos buscando afinidades e revelando suas carências.

Fernando Maioni




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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Era uma vez um amor

 

Na minha opinião, amar uma pessoa talvez seja mais fácil que entende-la mas muito mais perigoso porque o amor sempre dói. A gente pode tentar entender alguém mas não pode tentar amá-lo. O amor surge involuntariamente. O amor pode aumentar ou diminuir até se diluir mas não pode ser imposto. Às vezes gostaríamos de amar determinada pessoa, e até podemos comprovar que a pessoa tem todos os atributos para que a amemos, mas isso não acontece. A gente se acostuma a qualquer um com maior ou menor esforço, mas acostumar-se não é amar. Não sei se tenho razão ou se minhas ideias são absurdas mas tendo a acreditar que o amor existe, que é uma invenção do homem e agora está fora de controle. O amor mais estúpido e delirante é o da mãe pelo filho, mas pelo menos tem um fundamento biológico. Mas pensar que você encontra uma desconhecida e em pouco tempo daria a vida por ela me parece inexplicável.


Efraim Medina Reyes
in Era uma vez o amor mas tive que matá-lo




Imagem via Pinterest



domingo, 24 de novembro de 2019

Fazendo parte dos "Invisíveis"

 


Começando a fazer parte dos invisíveis. A sofrer dessa violência invisível psicológica que sofrem as mulheres que envelhecem.

Envelheci. E apesar dos sustos.
Do mundo.
Nunca entendi tudo tão bem.

Pat Lau





V



Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

T.S.Elliot

(tradução: Ivan Junqueira)




Crédito da imagem: foto de João Bittar, todos direitos reservados




Quem é o outro que sempre anda a teu lado?

 



Quem é o outro que sempre anda a teu lado?
Quando somos, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
- Mas quem é esse que te segue do outro lado?



T. S. Eliot





Crédito da imagem: ilustração Antonio Mora




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