quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Mona... quem?

 Durante todo esse ano Monalisa ouviu a frase:

- Tudo vai ficar bem... falta pouco! Aguenta firme!

O fim do ano está chegando:

- Já estamos quase no final do ano... falta pouco! Você tem que aguentar.

Monalisa aguentando.





terça-feira, 17 de novembro de 2020

O toque do vento

 


Tu sempre disseste que gostava do cheiro que tenho na curva do meu pescoço, naquele lugar onde começa o ombro. Eu escutava e ficava a pensar: isso lá é coisa que se goste? Gosto de perfumes com toque cítrico, sempre usei algumas gotinhas, neste teu lugar preferido. Quando falavas assim, ficava parada, te olhando. Dizias que esse pedacinho meu era uma espécie de resumo de mim toda. Que a pele ali era mais macia, o calor mais sensível... Me encolhia toda quando falavas assim, e nunca soube o que te responder. Nunca soube que palavras escolher para te dar em troca desse presente que me davas.
Não sei porque hoje lembrei-me disso. Talvez seja esse vento de final de primavera, abafado, que traz um cheiro de verão no ar.  O certo é que lembrei-me e encostei o rosto no ombro, pensando em ti. Lembrei também dos teu beijos, sempre apertados, em contraste com teu toque suave nos meus ombros. Naqueles dias tu me davas a impressão de estar sempre a pedir mais - mais alguma doçura, mais alguma promessa. E eu a te olhar, sorrindo. E tu me sorrias de volta, sempre.
Esse vento que sopra quente me sufoca com tudo o que não te disse, com os carinhos que não te fiz. O calor do vento me provoca arrepio no ombro - como teus dedos costumavam fazer. Me arde o olhar e afasto o pensamento de levinho, prá não chorar.

 

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Amor e afinal nada

 

Olhava para a fotografia daquela que amei com amor. 

Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. 

Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa sequer uma ilusão, uma mentira. 

Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. 

Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. 

Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém virará a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada.



José Luís Peixoto
em Uma casa na escuridão

 

 Crédito da imagem: Högabo Eden Wellcome (@hogabophotography)





Doce Cacau, minha saudade verdadeira

 


CACAU
08.01.2000
27.10.2013

Há mais ou menos um ano e meio eu e a Cacau tínhamos o hábito de passear ao finalzinho da tarde, princípio das noites de sábado e domingo, ir até a Rua Dias da Cruz, na pracinha. Devido a sua idade e ao seu tamanho minúsculo, nunca gostou muito de andar no chão. Na metade do primeiro quarteirão, voltava-se para mim e pedia colo. Lá na pracinha, nos juntávamos a um grupo bem especial. Oito cães, quase todos de raças pequenas (yorkshires, poodles, tenerifes... e entre eles um grande e doce retriever chamado Oscar). Os cães e seus donos. Sentávamos nos bancos com os cachorros geralmente no colo e a conversava levava às vezes horas... Cacau era a mais velhinha do grupo, todos a tratavam de Senhorinha Cacau - diga-se de passagem, sempre arredia. Como uma boa pinscher não fazia amizades facilmente. Passados 15 dias de sua partida, fui visitar o grupo. Todos conheciam os problemas de saúde pelos quais ela vinha passando e, ao me verem chegar só, não foi difícil adivinhar o acontecido. Abraços, palavras gentis e consolo. O que me deixou mais emocionada foi a reação dos cachorros. Todos eles vieram me cumprimentar quando cheguei, mas de uma forma diferente. Alguns me cutucavam com o focinho, principalmente o Oscar. Outros se levantavam na pata traseira e ficavam em pé, diante de mim. E não era só alegria pelo meu retorno depois de duas semanas... tinha algo mais. Quem conhece e convive com cachorros, sente. Estavam solidários - alguns pareciam que queriam perguntar onde ela estava. Oscar, com certeza, me consolava... Por essas e outras coisas, amo os cães.



terça-feira, 3 de novembro de 2020

Mona... quem?

MONALISA FLOWER POWER

Monalisa, como toda jovem que se preza, participou ativamente do Movimento Flower Power! Como uma boa "hippie" dos anos 60, abraçou a ideologia da não-violência, repudiando as guerras, principalmente a do Vietnã. De cara nova e novos ideais, antenada como que se passava ao redor do mundo, Monalisa ajudou a criar canções que falavam da paz, da natureza e da liberdade de expressão, através do comportamento, do amor e do sexo. Envolta pelo ambiente psicodélico e efervescente do festival de Woodstock, sua aparência e gestual tornaram-se carismáticos e alucinógenos. Uma das músicas mais populares da época - o hit "São Francisco" (cidade que se tornou o berço das bandas que comandaram a enorme popularidade do Rock nos EUA): cantava esse nova fase da música e do mundo: "If you are going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair..."

Monalisa adorava gastar uns minutinhos a mais em frente ao espelho, pois sabia que assim o sentido e a essência do rock se fariam mais percebidos. Afinal, flores tem o grande poder, que transcende qualquer coisa específica, tornando-se símbolo da paz, do amor e da fraternidade.




quinta-feira, 22 de outubro de 2020

À âncora da tua mão

 
Lembro-me bem, gostavas de tempestades. Eras capaz de as pressentir antes de qualquer outra pessoa, ficavas estranhamente quieto e dizias com serenidade: "os deuses vão falar". E quando finalmente os céus escureciam e a chuva em dilúvio parecia fazer desabar as paredes da casa, encostavas-te à porta da rua como um comandante ao leme de uma nau da Índia, e os teus olhos brilhavam como sóis. Nessas alturas falhava sempre a luz, mas na escuridão, apesar dos relâmpagos que tombavam com estrondo rasgando o ventre macio da terra, eu não sentia medo, agarrada à âncora da tua mão, encontrando o norte na claridade do teu peito em fogo. Parecias-me então estranhamente belo, como os leões majestosos e imponentes, que ao colo da mãe, abrigada dentro do jipe, eu via ao longe na savana.


Ana Mateus

 

Imagem via Pinterest

 

 

Perder-se

Durante a ida, eu vou trocando os sapatos pra confundir a sua busca. Deixo pegadas falsas pra que nunca mais me encontre. Durante a ida, olho para trás e não reconheço meus rastros. Na fuga, me perco de você e de mim.


Eduardo Baszczyn

 

Crédito da imagem: "Flying shoes", instalação de Roberto e Shana Parkeharrison




quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Fica sempre aqui

 


 Fica aqui, perto de casa, perto de mim. Fica sempre por aqui, por perto. Aqui, onde o nosso céu é mais azul, as flores mais cheirosas, as árvores têm mais frutos e os animais andam devagar. Fica aqui, anda comigo. Me dê a mão enquanto teus olhos se demoram mais um pouco naquele monte. Sente esse arrepio que corre em mim, enquanto o sabiá canta e eu te digo baixinho o quanto te quero.

Sabes, aqui beijei o teu cabelo, enrolei meus dedos nele. Cheirei aquele lugar em que teu pescoço se junta ao ombro e desvaneci-me em ti. Cantei-te todas as minhas canções e dancei contigo os passos de uma vida inteira.  Tu sabes que sem ti me perco de tudo o que há em mim. Mas se ficamos aqui, perto de nossa casa perfeita, onde embalei-me todo em ti, só aqui consigo sossegar e acalmar o medo que cresce perigoso em mim. Sabes que sem o teu calor nem sei dizer quem sou. Só aqui, dentro destas paredes consigo respirar.

Faça-me esse favor. Não se afaste daqui, nem permita que eu me afaste de nossa casa, de nosso mundo. Prende-me a ti para que eu não me vá. Não me deixe perder-me por aí, confuso com um cheiro que não é o teu, atrás de uma voz que não é a tua, seguir um passo que não é o teu. Perder-me por alguém que não és tu. Prá isso precisas ficar aqui, pertinho de casa.

Tudo isso te digo só para te pedir. Não vás para longe, fica sempre aqui, perto de mim.

Dalva Nascimento



Fotografia de Dalva Nascimento




 

Florações

Estou à primavera de sensações indóceis. Florações extremas, e no entanto, mudas, só eloquentes de silêncio e olhar. Discretamente solitária, aguardo pela ventania inconfidente da alma, a fim de que ela cante minhas proezas, revele minhas histórias, as sonhadas e vividas. Minha quietude é de bosques e trazem a urgência dos verdes, revivendo a cada estação, o definitivo da vida. Cresço inesperadamente nessa temporada, feita de noites arrastadas, consumida no ópio de palavras silenciadas pelo medo de morrer de amor. A estrada desses mornos dias é longa demais, a rotina é uma reta que desejo bifurcar porque sonho com curvas de mulher. Sonho as curvas comedidas em mim. Mesmo calando sussurros, palavras, frases inteiras, orquestro-me, alcanço as estrelas dos meus delírios, agigantada por dores e agonias, por ilusões, sóis temporais, secretamente difundida nas minhas entranhas, nas dimensões multiplicadas de meus eus. Minha natureza sabe que, a despeito de quaisquer rios que eu navegue, desembocarei sempre em versos livres; e assim será até que as flores perfumem alegrias e tragédias.

Roberta Tostes Daniel



Crédito da imagem: fotografia de Katia Chausheva

 

 

 

Melancolia

 

 

Depois de uma certa idade
contemplar a beleza
produz melancolia.

Ángel Guache
in Un Mundo en Miniatura

 

 

Crédito da imagem: Ilustração de María Wernicke

 

 



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