domingo, 19 de abril de 2020
Toda mãe é uma catedral
quando ficamos sem casa, vi a mãe inclinar-se sobre nós, eu e meus irmãos. vi, e ela abria os braços à volta - como arbustos
o copado de uma árvore na qual o outono ia tardando sempre um dia mais
a chegar
quando ficamos sem ter o que comer, vi a mãe em torno do fogão. preparava a sopa, mantinha-se à beira do fogo
as palavras desprendendo-se dos seus lábios com uma tal aura de sonho
era na mãe uma mulher - e ia soprando canções
e tentava esquecer que amar envolve tanto de brutalidade
(querer que um caldo ralo feito de batata e sal engane a fome
de quatro bocas)
quando ficamos sem fé e sem futuro, vi a mãe erguer uma cabaninha
e nos chamando pra brincar no meio da sala. as cadeiras, uma em cada canto, e o cobertor estendido em cima
poderia ser uma igreja qualquer
(digamos, aquela onde a falta de fiéis tivesse levado ao cancelamento das missas)
toda mãe é uma catedral que, tendo se libertado do culto à tristeza de um deus
pode enfim abrigar essa tristeza
de gente
Marceli Andressa Becker
Imagem via Pxhere.com

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Manoel de Barros