segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Nossas muitas fomes

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Do meu cômodo posto de observadora - e o duro posto de cidadã - onerada de altíssimos impostos,contas à pagar,perplexidade,e insegurança, e otimismo anêmico - quero expandir o conceito de fome. A fome, as fomes: de dignidade, a essencial. De casa, saúde e educação, as básicas. Mas - não menos importantes - a fome de conhecimento, de possibilidades de escolha. Fome de confiança, ah, essa não dá para esquecer. Poder confiar no guarda, nas autoridades, nos pais, no país, e também nos filhos. Em nós mesmos, se nos acharmos merecedores. Confiar em quem votei, e em quem não recebeu meu voto: ser digno não é vantagem, é obrigação básica.
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Andamos tão desencantados, que ser decente parece virtude, ser honesto ganha medalha, e ser mais ou menos coerente merece aplausos. Fome de conhecimento: não é alfabetizado quem apenas assina o nome, mas quem assina o que leu e compreendeu. De outro nodo, perigo à vista. Não cursa uma verdadeira escola quem dela sai para a vida sem saber pensar, argumentar e discernir.
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A primeira condição para viver melhor, é conhecer mais coisas, inclusive sobre a própria situação e as possibilidades de mudar. Não tomando, invadindo e assaltando, mas crescendo enquanto ser humano e membro produtivo da comunidade: família, cidade, trabalho, país... Informar-se faz parte disso, de ser integrado, de integrar-se. É tomar contato com a realidade diretamente, não apenas com que os outros relatam ou inventam. É assistir ou escutar as notícias não como quem tateia no escuro,mas com ouvidos de quem deseja entender. Informar-se é também ler: ler como se come o pão cotidiano,ainda que seja o jornal esquecido no banco da praça.
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Não creio que a violência que assola o país e nos transforma em ratos assustados seja simplesmente fruto da fome de comida. Mas da fome de auto-estima. A violência internacional, emblematizada no terrorismo, nasce entre outras coisas da combinação de ideologia torta e fanática. A ideologia nem sempre comanda a morte, nem sempre desconserta o intelecto: sendo positiva ilumina e estimula, assim como a outra degola inocentes, explode crianças e se orgulha disso.
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Andamos acuados pela brutalidade que transcende os limites urbanos, atingindo lugares bucólicos, que antes pareciam paraísos intocáveis: você pensa em comprar um sítio? Inclua nesse pacote o caseiro, os cães, alarmes e quem sabe, cerca eletrificada. Se for uma fazenda, cave trincheiras e contrate guardas. De preferência more na cidade mais próxima, rodeado de toda uma parafernália de segurança, ou lançando-se na vida, (isto é, saindo à rua) com a audácia de um guerreiro medieval.Teremos paz, essa nossa grande fome? Nesse momento estou descrente, embora batalhe por isso do jeito que posso. É dos deveres básicos de qualquer pessoa tentar a paz em si mesmo e ao seu redor, sem necessariamente desfraldar bandeiras, mas existindo e agindo como um ser pacífico ( não confundam com pusilânime!). Se posso ser agregadora - iniciando pela família e amigos -, não devo espalhar ressentimento; se quero a paz, não posso transmitir rancor.
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Tudo começa como dizem, em casa: desde quando ela era uma primitiva caverna, e nós trogloditas um pouco menos disfarçados do que hoje, com fomes bem mais simples de se satisfazer.
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Lya Luft, "Em outras palavras"

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