domingo, 21 de dezembro de 2008

Nunca acreditei muito em Papai Noel

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"Natal, Natal - bimbalham os sinos!". Sempre tive vontade de começar um artigo assim. O Rubem Braga dizia que há certas frases que demitem jornalistas. Essa é uma.
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O Natal me deixa vagamente abobalhado. A própria figura do Papai Noel me dá angústia. Eu acho que isso se deve ao hábito que meu pai cultivava de forjar uma carta que Papai Noel me enviava junto com os presentes.
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Na carta apócrifa, Papai Noel me repreendia pelo mau comportamento: "Não bata em sua irmãzinha, obedeça sua babá, não faça má-criações para sua mãe!..."
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Os presentes vinham com um gosto de castigo que me dói até hoje quando ouço o "Ho ho ho!" do bom velhinho. Papai Noel gostava de todo mundo, menos de mim; surgiu em minha vida como um "superego".
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Talvez por isso, fui o primeiro da minha "gang" de nenéns do Rocha a desmistificar a figura do barbudinho. "Papai Noel não existe...!" - foi minha declaração revolucionária. Eu bradava a meus amiguinhos, que olhavam desconfiados para meu "ateísmo" natalino. "Existe sim!" - protestavam - "ele me deu o velocípede que eu pedi..."
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"Ah, é?" - eu replicava, subversivo - "fica acordado esse ano para ver se não é o teu pai mesmo que finge que é Papai Noel e põe os presentes lá na árvore!..."
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Meus amiguinhos lutavam contra essa desilusão, mais ou menos como hoje os velhos comunas não desistem do socialismo e vivem acusando o Lula de ter ficado "neo-liberal"...
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Um outro trauma aconteceu em um Natal remoto, quando ganhei uma bicicletinha bem legal, mas que veio sem o "quadro", sem a barra de ferro que definia se a bicicleta era para homem ou para mulher. O "quadro", fálico, denotava bicicleta de homem; sem "quadro", era para moças. Falei: "Essa é de mulher..." "Mas, a bicicleta é para você, meu filho...
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Comprei sem "quadro" para você não se machucar, se cair..." Minha mãe estava cuidando de minha castração, pois eu poderia machucar meus pobres ovinhos na barra de ferro...
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Fiquei apavorado de desfilar nas ruas com "bicicleta de mulher". Que diriam os vagabundos mirins que assolavam as ruas do Rocha, se me vissem rodando nas rodinhas femininas? Claro que berrariam: - Viado! Viado!", - supremo xingamento da época, terrível pecha que poderia destruir a reputação de qualquer um de nós. "Viado" (e não "veado", por favor) tinha uma sombra de ambigüidade, um desequilíbrio que me assustava. Viado não era nem homem, nem mulher; "viado" era o mistério. Daí que nunca saí na rua com aquela máquina que selaria minha identidade em crise.
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Papai Noel me dava culpa e a bicicleta ameaçava a minha sexualidade. Por isso, creio, o fervor subversivo contra a festa magna da cristandade que atingia, de tabela, meus problemas com o pai real.
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Nessa época, em pleno delírio nacionalista do Getulio no fim do Estado Novo, lançaram uma campanha para substituir a figura - imperialista - de Papai Noel por outro símbolo mais "coisas nossas". Inventaram uma figura tropical que nunca colou: o Vovô Índio , um velho semi-nu com uma peninha na cabeça, que traria presentes para os curumins. Foi um fracasso total, numa época em que o cinema americano alardeava o Bing Crosby cantando "White Christmas" sem parar.
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Tentei flagrar meu pai colocando os presentes no corredor longo e triste (por que o corredor era triste?), onde uma Santa Terezinha brilhava sozinha numa pequena peanha, mas nunca consegui. Recorri a meu avô, conselheiro e aliado, e ele me confirmou, de mãos dadas, me levando ao Jóquei Clube: "Isso é pra criancinha mesmo... Você já tem seis anos..."
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A partir daí, eu não parei mais. Fui além. Entrei de sola na lenda da "cegonha" e do "bebê que o papai do céu mandou..." Meus amigos me olhavam em pânico, quando eu lhes tirava a inocência: "Vocês pensam o quê? A mãe de vocês ficam nuas e o pai de vocês bota uma coisa dentro da barriga dela pelo umbigo e, aí, vocês nascem..."
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Essa tese me valeu várias brigas de rua. "Minha mãe não, cara! Minha mãe é direita..." E tome porrada no meio fio, rolando no chão.
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Depois, fui partindo para religião e duvidas metafísicas sobre Deus, já maior, atazanando os padres do colégio: "Se Deus é bom, por que ele cria um sujeito que ele sabe que irá para o inferno quando morrer?" Nenhum padre me respondeu essa pergunta até hoje, mesmo falando em "livre arbítrio" etc.
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Mas, a verdade é que eu nunca fui feliz no Natal. Lembro-me que, nas ceias, ficavam visíveis as frágeis ligações familiares, pálidas amizades entre primos e tios, um certo tédio constrangido depois dos presentes abertos, dissensões e antipatias adivinhadas em abraços frios. Eu olhava aquela família "viajando através do tempo", como um cortejo trôpego para um futuro baldio, eu via a solidão do primo insignificante, do tio fracassado, da tia maluca e muito pintada, dos avós já tristes e ausentes, eu via que, a cada ano, as festas ficavam mais ralas, o eterno presunto caramelado e o peru com apito ficavam mais sozinhos na mesa, os presentes mais baratos e nossa fragilidade mais clara.
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O destino das famílias é evidente no Natal. Os pobres ficam mais tristes com a dor do pouco que podem dar aos filhinhos e os ricos mais obstinados em provar a si mesmos que serão felizes a qualquer preço. A obrigação da felicidade me enlouquecia. Parentes que eu nunca via me abraçavam com uma forçada ternura, molhada por vinho e uísques misturados, terminando tudo naquela tristíssima saída na madrugada, com crianças chorando ou dormindo no colo, presentes carregados para os carros, berros de "feliz natal" nas calçadas. Por isso, só me resta o lugar-comum do início: "Natal, Natal - bimbalham os sinos!"...
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Arnaldo Jabour

Um comentário:

Valter Montani disse...

Olá Dalva, tudo bem?

Mais um ano que se vai, mas com certeza não foi igual aos outros. Depois que eu tomei a iniciativa de criar um Blog para divulgar meu trabalho e conhecer outras pessoas que gostem de poesia, minha vida nunca mais foi a mesma.

Conheci e interagi com pessoas superlegais assim com você, que deram a honra da companhia, palavra amiga, dividiram comigo notícias e informações relevantes em todas as áreas culturais e do conhecimento.

Foram conselheiros, ajudaram com dicas que me nortearam a incrementar meu Blog cada vez mais.

Sei que nem sempre estive presente em seu Blog, não por falta de vontade, pois o tempo é escasso, lhe peço desculpa se não respondi algum comentário ou não te visitei em algum momento importante. Saiba que você é especial para este Poeta que está aprendendo muito com essa convivência saudável.

Más uma coisa eu já trago de berço que é saber valorizar as pessoas importantes.

Portanto aceite meu abraço fraternal e os Votos de Boas Festas e um Ano Novo Repleto de Realizações para você e todos que te cercam.

Em 2.009 pode contar com O Blog do Valter Poeta e com o Poetacards

Luz e Paz

Valter Montani
23.12.2.008

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