segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Feminino Plural - Clarice Lispector


Quem foi Clarice Lispector?



Seu rosto transmite mistério. Atrás de seus olhos amendoados e profundos vislumbra-se uma personalidade forte e altiva. Seus traços eslavos, com as maçãs do rosto salientes revelam um temperamento ousado. Seus íntimos escritos são espelhos dessa Clarice tão misteriosa e enigmática, que seduz a quantos se deixam envolver por sua prosa poética.


Sempre que lemos Clarice temos aquela sensação de que ela escreve para nós e sobre nós. Clarice tem uma relação muito particular com o mundo e com os sentimentos humanos. A força de suas palavras e as belas combinação de suas expressões exprimem a vida em toda a sua amplitude. Clarice é inigualável.


Ela é um quebra-cabeça que nós, leitores, tentamos montar através de seus livros, já que ela, generosamente, expõe, na riqueza de seus textos, as profundezas de sua alma e de sua sensibilidade. Clarice viveu envolta em sombras de mistério e como uma deusa pródiga nos revelava apenas pinceladas de sua densa personalidade.

Clarice Lispector

Talvez não tenha sido por acaso que seu nascimento tenha acontecido no momento em que sua família imigrava da Ucrânia para o Brasil, pois Clarice não pertence a este ou àquele lugar: ela é do mundo, um patrimônio universal.

Clarice nasceu em 1920, quando saiam da cidade de Tchetchelnik, no dia 10 de dezembro. Nascia então a terceira filha de Pinkouss e Mania Lispector... ela recebeu o nome de Haia.


O pai de Clarice conseguiu um passaporte no consulado da Rússia, em Bucareste, para que a família viajasse de navio para o Brasil, partindo da Alemanha. Atracaram em Maceió no mês de março e Zaina, irmã de Mania, e o marido receberam a família de refugiados.
Assim, uma nova vida começava para a família Lispector... daí a mudança de nomes. Todos, com exceção de Tânia, irmã de Clarice, trocaram seus nomes por outros. O pai tornou-se Pedro, a mãe virou Marieta. A outra irmã passou a chamar-se Elisa, e Haia tornou-se Clarice.

A família instalou-se em Pernambuco, e logo a mãe de Clarice adoeceu e ficou paralítica, sendo o cuidado da família delegado à sua irmã Elisa. A infância de Clarice foi marcada por muitas dificuldades financeiras, e no ano de 1930, com apenas 10 anos, ela sofre a morte da mãe.

Clarice dominava o inglês e o francês, mas só escreveu em português. Uma vez alfabetizada, tornou-se logo uma leitora voraz.


"Quando eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor! Aí disse: “Eu também quero”.

Desde criança Clarice já escrevia histórinhas, que foram recusadas pelo Diário de Pernambuco que mantinha um coluna dedicada às composições infantis. Mas as história das crianças tinham enredo, fatos, personagens... e as de Clarice eram diferentes: continham apenas sensações...

Em 1935 a família mudou-se para o Rio de Janeiro e foi morar numa casa alugada próxima ao Campo de São Cristóvão, mas nesse mesmo ano mudam-se para uma casa na Tijuca, na Rua Mariz e Barros, e Clarice onde Clarice começou a trabalhar como professora particular de português.


Os olhos felinos de Clarice debruçavam-se sobre o mundo, e ela se mantinha sempre perto do coração da vida. Sua infância junto à natureza agreste de Pernambuco fez dela uma menina diferente, transgressora, que sempre se questionava, se criticava. Clarice era como um sol que ilumina enquanto se queima si mesma... e é por isso que até hoje seus escritos nos aquecem e nos consomem...

"Clarice devora-se a si mesma."
(Lúcio Cardoso)


http://bloglog.globo.com/FCKeditor/UserFiles/Image/Clarice-Lispector-12-739257.jpg

"Nasci para escrever.(...) Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz."

As obras de Clarice, apesar do poder que têm de iluminar, não a desvelam totalmente. Sua prosa poética é encantada pelo silêncio. A vida, por ela narrada, sempre está envolta em muitos véus.
Clarice não conta histórias, ela conta a vida...


Clarice era tida por todos como "meio esquisita", mas estava sempre entre amigos escritores, como Fernando Sabino, Érico Veríssimo, Carlos Drummond e outros.
Casou-se, aos 24 anos com um colega da faculdade de Direito, Maury Gurgel Valente. O marido entra na carreira diplomática e por conta disso Clarice foi viver na Europa, na época do final da 2ª Guerra Mundial, quando presta assistência a brasileiros feridos na guerra, trabalhando em um hospital americano.
Vivendo na Itália, mandou editar no Brasil o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que causou rebuliço na crítica literária brasileira. Alguns disseram que o livro era horrível. Outros elogiaram sua coragem em lançar um livro tão original, um romance introspectivo, cheio de metáforas extravagantes e com um estilo tão diferente dos romancistas regionalistas da época, como Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos e José Lins do Rego.


Clarice criava um novo modo de narrar, muito semelhante ao das escritoras inglesas Katherine Mansfield e Virgínia Woolf - onde o enredo importa menos que o "mergulho" na intimo da personagem. A primeira protagonista de Clarice, Joana, já nos primeiros parágrafos iniciais de Perto do Coração Selvagem, aparece em meio aos seus pensamentos:

"A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.

Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer."
Vivendo na Europa, Clarice se correspondia com os amigos brasileiros, o que a mantinha ao par das novidades. Trocava cartas quase que diariamente com o escritor Fernando Sabino. Sentia falta da família, dos amigos e do Brasil, e em cartas às irmãs fala de sua inadaptação à vida no estrangeiro:

"Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma."

Em 1948 Clarice engravida do primeiro filho. A vida em Berna, na Suiça a desgostava. Conlui o livro a Cidade Sitiada, após três anos de trabalho, e dá a luz ao filho. Para cuidar do filho, Clarice adota um novo modo de escrever: com a máquina no colo. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de uma cidade", Clarice afirma que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro, ocorrido em 10/09/1948.

Em 10 de fevereiro de 1953 nasce Paulo, seu segundo filho. Nesta época Clarice escreve A Maçã no Escuro em meio a conflitos interiores e familiares. Sua vida é dividida entre cuidar dos filhos, seu livro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil.

Clarice separou-se do marido em 1959 e fixou residência no Rio de Janeiro, com os filhos. Escrevia em colunas para o Correio da Manhã e Jornal da Tarde; colaborava para a revista Senhor e, depois, para o Jornal do Brasil, além de manter a coluna "Só Para Mulheres", no Diário da Noite.


Sua vida de escritora deslanchava em meio a educação dos filhos e aos cuidados com a saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia. Apesar de tantos livros publicados, sua situação financeira é difícil.

Em 14 de setembro a escritora dorme com um cigarro aceso, provocando acidentalmente um incêndio que destruiu o seu quarto. Com muitas queimaduras, ficou hospitalizada por dois meses, gravemente ferida. Quase perdeu a mão direita, parte do seu corpo que foi mais queimada.
Com a mão deformada e cheia de cicatrizes, teve seus gestos tolhidos e sua assinatura distorcida. Continuava, entretanto, a escrever seus textos à máquina, como sempre fizera. Deprimida, passou a recusar convites e homenagens, iniciando um recolhimento doméstico que duraria até o fim da vida.

Para manter a renda familiar, Clarice escreveu crônicas para o Jornal do Brasil ate 1973, o que a tornou mais conhecida do grande público que desconhecia seus textos tão originais.

Jornal do Brasil: Sábado, 10 de dezembro de 1977 - capa do Caderno B


Clarice já publicara nove obras entre romances e contos, mas a leitura de suas obras se restringia ao âmbito acadêmico. Costumava-se dizer que era uma "escritora da elite". Sempre muito recolhida em si mesma, Clarice chegou a ser acusada de ser uma "escritora alienada", pois não se envolvia nas graves questões políticas que o país vivia desde 1964. Timidamente, a escritora chegou a participar de passeatas de intelectuais e artistas contra a ditadura, em 1968.


Os dez últimos anos de sua vida ela os viveu de forma bastante enclausurada. Escreveu ainda alguns textos, entre eles um livro de contos eróticos (A Via Crucis do Corpo - 1974), e o romance Água Viva - 1973. Doente de câncer, escreve aos poucos, à mão, o que viria a ser A Hora da Estrela - 1977, e morre no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário vitimada por uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida que, depois, veio-se a saber, ter sido motivada por um adenocarcinoma de ovário irreversível. O enterro aconteceu no Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju, no dia 11.


A vida de Clarice é de uma riqueza que não caberia nas poucas linhas deste post. Aqui, se te agradar, podes fazer um mergulho um pouco mais profundo no universo intimista da escritora que ilumina e consome seu leitor. De tudo que já li, o que mais me agradou foi Laços de Família, um verdadeiro deleite para a alma...

Finalizo com um fragmento de uma entrevista concedida por Clarice à um jornalista de O Globo:

J.C. — Por que você escreve?
C.L. — Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?
J.C. — Por que bebo água? Porque tenho sede.
C.L. — Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.




7 comentários:

Úrsula Avner disse...

Oi Dalva, amo Clarice e suas obras... Excelente postagem. Bj.

DILERMArtins disse...

Mas bah, guria.
Já falei que gosto muito do seu "Femino Plural"? Já.
De gostar tanto, me permito uma opinião; acho que deverias usar um marcador do tipo "biografia de Fulana...", ou coisa parecida, assim tua contribuição às pesquisas seria melhor aproveitada.
Abração e parabéns.

Tucha disse...

Gostei deste feminino plural... clariceou. Li um livro sobre a biografia da autora e vc conseguiu captar os momento mais marcantes da vida da autora. As foto tb forma bem escolhidas.

Stella disse...

Clarice é profundeza e espanto, leveza e clamor. Os extremos compunham o que escrevia, mas, só de olhar em seus olhos, dá para perceber que sua alma é que era gravad em cada linha que ela preenchia.

Adorei o texto! Perfeito!

Um abração pra ti, Dalva! E mais uma vez, parabéns infinitesimal ao seu "Infinito..."!

Menina Travessa disse...

Já disse q adoro passear por aki né?! Ótimo post! Adorei!

Georgia disse...

Dalva que post enooooooooooooorme, mas Clarice merece. Eu só li um livro dela. O último com as coletâneas das escolhas de vários amigos dela ou que gostam dela.

Achei em muitos contos dificuldades em entendê-la, pois a profundidade com que ela escreve é incrível.

Bjao

by Nanda disse...

Olá Dalva, jah me perdi no seu blog... adorei ...

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