sexta-feira, 17 de abril de 2026

A Química do Amor

 



E quando a química é surreal mas o relacionamento é impossível?

A química é surreal... mas o relacionamento é impossível e isso costuma confundir mais do que qualquer outra coisa.

Porque a intensidade faz parecer que ali existe algo raro, quase inevitável.

Só que química não é escolha, não é construção e não é sinal de compatibilidade. É resposta do corpo. É ativação. É um tipo de reconhecimento que acontece antes de qualquer avaliação mais consciente,

O problema não está em sentir, está em transformar essa sensação em direção. 

Nem toda química aponta  para um lugar que pode ser vivido. Pelo contrário, muitas vezes ela aparece justamente onde não há espaço real para um vínculo se desenvolver. Em relações marcadas por distância emocional, por indisponibilidade e por incerteza. Lugares onde falta clareza, mas sobra estímulo, onde você não é escolhida de forma consciente, mas também não é totalmente descartada.

E é exatamente esse "quase" que mantém o corpo engajado. Existe uma lógica nisso. O que é instável ativa mais. O que não se resolve mantém você ali, tentando, esperando, interpretando.

Na psicanálise, isso não é lido como azar, mas como repetição. Não da pessoa, mas da sensação.

Uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de reviver algo conhecido... não porque é bom, mas porque é familiar. Como se, dessa vez, você pudesse conduzir a história para um desfecho diferente. Só que o outro não está nessa mesma dinâmica. Ele apenas ocupa o lugar que, de alguma forma, já existia antes.

E é por isso que a química, por mais intensa que seja, não sustenta um relacionamento. Porque relação não se constrói só com aquilo que você sente mas com o que o outro pode oferecer... e com o que, juntos, é possível viver.

Sem isso, a intensidade vira um ciclo.Você se envolve, se aproxima, se prende,,, e, em algum momento, se frustra. Não por falta de sentimento, mas por falta de realidade.

Sair desse lugar não é simples, porque o corpo continua respondendo. A vontade de manter contato, de ver, de falar, de tentar mais um pouco... não desaparece só porque você entendeu racionalmente que não vai dar certo. E é aí que entra uma escolha mais adulta... Não de negar o que sente, mas de não se guiar por isso. De sustentar uma distância mesmo quando existe vontade de proximidade. De não alimentar aquilo que já mostrou não ter continuidade.

De olhar para a própria vida e perceber o quanto essa intensidade ocupou um espaço que poderia estar sendo construído de outra forma. Com mais estabilidade. Mais presença. Mais  verdade. Porque, no fim, não é sobre abrir mão da química. É sobre não transformar um impulso em destino.

Nem tudo que te movimenta por dentro foi feito para ser vivido por fora. E maturidade é reconhecer quando sentir não é motivo para ficar. 

 

Márcia Peters 

 

 

 

Crédito da imagem: Ilustração vetorial de Bunsen, farmacologia 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Diálogo com as flores

 

 

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza. Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião. O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho. Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava.”
 
Carlos Drummond de Andrade
 
 
 
Arte de Katalin London
 

 

A semântica das lágrimas

  


As lágrimas são um mapa pleno de significação e de leituras. Temos muitas maneiras de chorar e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos mas choramos sempre para um outro ver.
As lágrimas são um traço tão pessoal como o olhar, ou o mover-se ou o andar.

José Tolentino de Mendonça 

 

 

Arte de Maria Fett

 

 

 

Urdindo o destino

 

 

Os olhos, habituados à luz, suavizam a tormenta, procurando o fio condutor da construção do labirinto. E, a pouco e pouco, vão bebendo a escuridão.
Quando se insinua o repouso, o horizonte, feito recompensa, parece mesmo ali, o longe tornado perto. É quando, à tardinha, se ouve o murmúrio do regato, e as aves entoam o seu mais belo canto.
Mas de longe chega o rumor da zanga das águas, rumo perdido em torrente impetuosa. Qualquer coisa que se foi, outro tanto que se teima em procurar...

 

A.C.

 

 

Arte de Maria Fett 

 

 

 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Vestido de solidão

  


Deteve-se junto à figueira despida, mas que não sentia vergonha nem frio. Agarrado a um ramo, um pequeno pássaro clamava por companhia. Admirava a coragem do pássaro. Sentiu uma enorme vontade de gritar bem alto. A solidão é uma roupa que é feita de muitos tamanhos e que serve a todos por igual.

Fernando Guerreiro

 

 

Crédito da imagem: Freepick 

 

 

 

 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Mona... quem?

 

 Mona Fitness


Nossa musa aderiu a academia, visando melhor qualidade de vida. Não pensou duas vezes: seu objetivo é alcançar um shape tipo Graciane Barbosa. Matriculou-se no Gymn próximo ao Louvre e, exalando confiança e determinação, pegou seu shake e partiu para se tornar uma senhora dinâmica! Seu condicionamento físico promove motivação e inspiração para todos nós!

 

 

 

Eu nunca seria bonita

 


 

Todos têm a sua vez, agora é a minha. Ou pelo menos era o que nos ensinavam no jardim-escola. Não é realmente verdade. Alguns têm mais vezes que outros, e eu nunca tive uma, nem uma. Eu mal sei dizer eu, ou meu, tenho sido ela, a ela, aquela, há tanto tempo. Nem sequer me foi dado um nome; fui sempre a irmã feia, ponham ênfase no feia. Aquela para quem as outras mães olhavam e depois desviavam o olhar abanando as cabeças suavemente. As suas vozes baixavam ou calavam-se quando eu entrava no quarto, com os meus vestidos bonitos, a minha cara inerte e carrancuda. Elas tentavam pensar em algo para dizer que redimisse a situação - bem, ela é forte - mas sabiam que era inútil. E eu também. Acham que eu não odiava a pena delas, a sua bondade forçada? E saber que, não importava o que eu fizesse, o quão virtuosa eu era, ou trabalhadora, eu nunca seria bonita. Não como ela, aquela a quem bastava estar sentada para ser adorada. E ainda se admiram porque eu espetei alfinetes nos olhos azuis das minhas bonecas e lhes puxei o cabelo até elas ficarem carecas? A vida não é justa, porque é que eu deveria ser? Quanto ao príncipe, acham que eu não o amei? Amei-o mais do que ela; amei-o mais que tudo. O suficiente para cortar o meu pé, o suficiente para matar. Claro que me disfarcei com muitos véus, para tomar o lugar dela no altar. Claro que a empurrei da janela para fora e puxei os lençóis para cima da cara e fingi ser ela. Quem não o faria, se estivesse no meu lugar? Mas todo o meu amor chegou sempre a um mau fim. Sapatos a escaldar, barris cheios de pregos. É assim que se sente, amor não correspondido. Ela também teve um filho. A mim nunca me foi permitido. Tudo o que vocês quiseram, eu também quis. 


  Margaret Atwood

 

 

Imagem:  Retrato de Margaret Atwood, by John Reeves

 

 

 

 

Um gato preto

 

 

Enamorei-me de um gato preto que vem quotidianamente dormitar nas sombras do meu jardim de agosto. Muitos outros vêm e a todos vou dando de comer e de beber mas, como é próprio dos gatos, nenhum consente aproximações ou se deixa ficar depois de saciado. Por mim está bem assim porque, de qualquer modo, não tenho, jamais tive, esse velho e vulgar fascínio pelos felinos, desagradam-me os trânsitos dissimulados, a postura egoica de quem dá por certos os aduladores, e o olhar fixo, que me trespassa a consciência e desafia para um jogo de propósitos ocultos. Também não vibro com os seus atos de insubordinação, tampouco me seduzem as elaborações em torno do mistério, da sensualidade e da dimensão psíquica que lhes atribuem. Entre o rol de espécies protagonistas do sobrenatural, agentes de magia e mensageiros lunares, prefiro de longe o lobo. Oposto ao gato, que tantos invejam pelo desapego, o lobo tem a nobilíssima virtude da lealdade, que aprecio sobre quaisquer outras. 

Mas este gato que dormita nas sombras do meu jardim de agosto, este gato interessa-me. Tenho deixado a porta de casa entreaberta – a mais gentil de todas as armadilhas – supondo que nele, como em mim, possa haver um instante em que a curiosidade supere a desconfiança. Um dia destes. E, embora nomear seja coisa que evito porque, de alguma forma, nomear é predestinar, decidi chamá-lo de Rasputin.

 

Mãe Preocupada https://maepreocupada.blogspot.com/

 

 

 

Crédito da imagem:  O pôster apresentado na imagem é "Floral Black Cat" da artista Olga Telnova.

 

 

 

Em cacos

 

 

Dizia que eu era o seu maior amor e a palavra maior parecia tão grande... Dizia todos os dias, todas as horas, a toda a gente, chegava a ser inconveniente. 

E eu achei graça a um amor assim. Parecia que não quebrava prato, por sua causa até me livrei do gato, e no fim, dois anos depois, oito estações, uns apeadeiros*, deixou o meu coração em cacos, o meu coração partido no chão de azulejos da cozinha... 

Depois de um "temos de falar", de me informar, depois de sair, depois de eu jantar, um prato de sopa, - consegui comer um prato de sopa, - depois de lavar na pia o prato e a colher de sopa, 

depois o meu coração partido no chão de azulejos da cozinha, - eu não sabia que tinha um coração de porcelana, - eu de vassoura e pá a recolher os cacos, eu a tentar não cortar os dedos e a provar o meu sangue, eu sentada no chão de azulejos da cozinha, nos azulejos que não azulejam, a chorar lágrimas azuis.


Raquel Serejo Martins

 

* apeadeiros 

subst masculino
1. lugar onde não há estação e em que o comboio para apenas para deixar ou receber passageiros
2. sítio de pouca demora; ponto de passagem

Etimologia: De apear+-deiro 

 

Imagem via Pinterest

 

 

 


 

 

Proparoxítonas

 



Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto.
As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico.
Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais lúgubres. Das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.
Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica!
Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito. 

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.
O inclinado e o íngreme.
O irregular e o áspero.
O grosso e o ríspido.
O brejo e o pântano.
O quieto e o tímido.

Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice.
Uma coisa é estar no topo – outra, no ápice.
Uma coisa é ser fedido – outra é ser fétido.
É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido.
Ser artesão não é nada, perto de ser artífice.
Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice.
(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da gramática.)

Quer causar um impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.
É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo. 

O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo – mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.
Da mesma forma, errar é humano. Épico mesmo é cometer um equívoco.
Escapar sem maiores traumas é escapar ileso – tem que ter classe pra escapar incólume.
O que você não conhece é só desconhecido. O que você não tem a mínima ideia do que seja – aí já é uma incógnita.
Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago.

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo – e são chamados de oxítonos e paroxítonos. Não é o cúmulo?


Eduardo Affonso,
Arquiteto, escritor e colunista do jornal "O Globo" (publicado em 2020)

 

 

Imagem gerada por IA (ChatGPT) 

 

 

 

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