domingo, 20 de março de 2022

Te querendo eu vou tentando me encontrar

 


prometemos inúmeras vezes que não trocaríamos aquele amor. e então a nossa solidão é o vão que se formou entre todas as ruas. são as ruas: antes lavadas por suor e chuva e os teus beijos e agora existentes num motivo enganado de que, ah!, tudo ainda há de passar. há, sim! mas, quando vejo, amor, já estou cantando aquela música de caetano: ‘é verdade, eu não minto’.

te li poesia via videoconferência, chamei quando deu, também aprendi a não chamar o tempo todo, prendi a respiração por dois minutos debaixo da água numa antiga banheira de porcelana e depois emergi. arrastei a meia por vezes e vezes e vezes no chão da sala que ficava no prédio da década de cinquenta. quebrei as taças, colei caixa com fita isolante. fiquei dias de cama e pensei que morreria - eu sempre penso que vou morrer. aprendi numa terça-feira há dez anos que o amor acaba ao meio dia e às vezes às três da tarde – quando é sempre calor. descobri que amor jurado a não ser troca não se encaixa nesse aprendizado – onde andam vocês e teus sonhos? tentei tudo: banho de ervas, cento e oito suryas namaskar, terapia, escrever um livro, chorar olhando tuas fotos – só me aumenta a falta de ar. você, seguiu.

me reordena diariamente a sentença de Sena: ‘nada nos salva desta porra triste’.


Olívia Nicoletti 

 

 

sábado, 19 de março de 2022

instagram filter reyes

 

 

Os móveis planejados ocultam o tamanho pequeno dos cômodos e as paredes texturizadas são ocas, pré fabricadas. As suculentas em compartimentos quadrados abaixo da pia do lavabo são as plantas preferidas porque não morrem se lhes faltar cuidado diário, podem conservar sua boa imagem sem que haja, de fato tanto apreço por elas. As formas são precisas e a paleta de cores, harmônica, em tons pastéis e cinzas claros. O apartamento é perfumado por um dispositivo que, de tantos em tantos minutos, espirra essência artificial de eucalipto (isso não pode ser visto nas fotos, mas é sugerido por elas, pois algumas fotos têm cheiro). A varanda ampla, que contorna toda a extensão do andar é especialmente pensada para acolher a luz.

O sol se transforma quando adentra esse tipo de casa mostruário. Desfaz-se da qualidade de astro e torna-se holofote: fica mais pálido e ameno, mais distante. Deixa de ser sol, bem como as pessoas, aqui dentro, deixam de ser pessoas e se tornam pessoas mostruário. Da varanda ampla se vê a Mata Atlântica que mal existe, mas aquele pedacinho distante de verde encarece cada centímetro quadrado do imóvel. Não está muito longe, mas aqui não chega o cheiro do mato. O mar fica no final da rua e a poeira da casa é areia trazida pelo vento, essa poeira litorânea é única lufada de verdade aqui. Estamos no vale dos perfumes plásticos, do odor de coisa recém-comprada e do assombro do como- pode-esse-chão-de-porcelanato-ser-tão-limpo.

A dor aqui vivida parece meditação. Sem espasmos ou soluços, mas determinada forma de se refastelar no sofá e contar a passagem do tempo pelos toques na tela do celular. A anestesia é dosada de forma homeopática, tão mais elegante que a tarja preta das verdades indizíveis. Vivemos baixando a saturação e aquecendo a foto, usando algum filtro pronto: Reyes, quem sabe.


Ravenna Veiga

 

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

América do Sol

 


um budismo às avessas, solaramericano, transparente em paz e rosa, pastagem de sapo-boi zebu, em que a iluminação do nada não seja representada pelo luzeiro da lua cheia, alheia às nuvens de maia, mas sim pelo emblema-sol-ardente-aurirrubro, pantofântico e indomável.  que de tudo faça osso, um sol carnífico e carnívoro, porque também é carne. carne do sol que é língua, serpente, de fogo, que beija, taturana, em ti e em cada–um.e o buda é um grande jaguar que respira às nossas costas, ora seco, ora úmido, sempre, hálito do meio-dia, que me abate, que te abate, e abate a cada-um.


                                                  O sol é malho e a terra forja.

Tudo sempre tão quente...
dá-me o remanso do mar.

Bruno Jalles

 

 

Imagem:  "Caminhos Pragmáticos", pintura por Celia Marinho

 

 

 

quinta-feira, 17 de março de 2022

Eu durmo comigo e com o meu caderninho

 



eu durmo comigo e com o meu caderninho/ deitada de bruços eu durmo comigo e com o meu caderninho/ virada para direita eu durmo comigo e com o meu caderninho/ eu durmo comigo abraçada comigo e com o meu caderninho/ não há noite tão longa em que eu não durma comigo e com o meu caderninho/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo e com meu caderninho/ eu durmo comigo e com meu caderninho debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo e com meu caderninho enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo e com meu caderninho às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo e com meu caderninho/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado


Luana Claro

 

 

 Foto de Dalva Nascimento

 

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Só não vôo

 

 

Se eu fosse do signo do deus Aquário, com certeza eu voaria...
Meu elemento é o fogo.
Mas tudo que queimo no outro, queima em mim, com dor maior!
Pena, nem todo mundo mundo é uma fênix...
Eu sou.
Só não vôo.

Marco Antônio Prado

 

 

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

... e o mundo era tão grande

 


Havia um perfume adocicado muito intenso que se desprendia da cesta das maçãs e que eu não sei escrever... Nos degraus de pedra ancorava um raio de sol onde se aninhavam quietos os lagartos e nas asas das aves, inundadas de azul, estavam gravadas todas as rotas... Tudo estava certo, o mundo desdobrava tardes infinitas de pés descalços na terra tão seca, que era a alegria suprema desenhar no pó da pele enigmas secretos com o dedo molhado de saliva. E ríamos... O mundo era tão grande, o mundo era enorme...! Encostávamos as costas à cal das paredes para lhes sentir o calor e lambíamos as mãos pegajosas de compota vermelha e de sumo de laranja... No velho tanque, cheio sempre de água gelada, mergulhávamos o rosto e parávamos de respirar o máximo que pudéssemos, a ouvir o som distorcido das gargalhadas que só sabemos dar na infância... Éramos peixes, éramos pássaros. E não tínhamos medo.

Ana Mateus

 

 

Crédito da imagem:  Children escape the heat of the East Side in the spray from a fire hydrant in 1943. Photograph: Roger Smith/Loc






quinta-feira, 10 de março de 2022

Um conceito de amanhecer

 


Espreguiçou-se e bocejou. Repeti-lhe os movimentos e saí da cama. O chuveiro acordou-me às primeiras águas. No regresso ao quarto, lá estava ela enroscada. Senti inveja daquela tranquilidade e do tempo que tinha para dormir até tarde. Fui-me embora, enfrentei a manhã cinzenta e fria e quando já ia em pé no ônibus, pensei cá para mim: "que tranquila é a vida de um gato."

Fernando Guerreiro

 

 

Imagem via Google

 

 



quarta-feira, 9 de março de 2022

Receita para virar lobisomem

 


Isto eu não posso explicar porque para virar lobisomem é preciso acordar uma coisa muito dentro, que só a você diz respeito. Contudo, conto como foi comigo: Era noite de primavera e eu, como um bicho na jaula, estava em casa andando de um lado pro outro de um lado pro outro sem solução. O luar na cozinha. (Os gatos me acompanhavam com os olhos acesos). Um amigo havia falado de uma festa de Cosme e Damião no Morro. Eu queria ir à festa, mas meu coração estava frio e ensopado porque meu coração anda frio e ensopado desde que voltei de viagem. Eu voltei de viagem muito diferente. Discretamente outra. Por coisas que, por fortuna, só a mim dizem respeito. Mas me lembrei de algo que aprendi no caminho: que quando precisasse de silêncio, era o caso de ir pra rua com os pés descalços. Então, pela primeira vez, tirei os chinelos e saí. (Os gatos ficaram no portão, com as alminhas pretas). E o asfalto, que brilhava extraordinário, me conduziu noite adentro sem um arranhão.

 

Juliana Bernardo

 

Imagem via Pinterest

 

 

terça-feira, 8 de março de 2022

Que nunca as pernas se cansem de dançar


 

Que nunca as pernas se cansem de dançar, pois é essa a única maneira de recomeçar.
Que nunca as pernas se cansem de tropeçar, pois é essa a única maneira de caminhar.
Que eu seja o que cai mas nunca descai, que eu seja o que desfruta e nunca o que aguenta – e que nunca abdique de ser o que tenta.
Que todos os homens aprendam a andar – e que corram e sonhem a cada saltar.
E que não haja pernas pequenas de mais, e que não haja no mundo dois homens iguais – e que se faça um começo de todos os finais.
E que o passo por dar continue a nascer, e que o caminho se faça pelo mero querer – e que eu ouse o perigo de insistir em viver.
E que nada termine sem o ai do orgasmo, e que nada se dobre sob o peso do pranto – e que um simples abraço me encha de tanto.
Que nunca as pernas se cansem de tropeçar, pois é essa a única maneira de caminhar.
Que nunca as pernas se cansem de dançar, pois é essa a única maneira de recomeçar.


Pedro Chagas Freitas

 

 

Imagem via Google

 

 


 



segunda-feira, 7 de março de 2022

Insgtruções para dar corda ao relógio

 

Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.


Julio Cortázar

 

 

Imagem  "Tempus Fugit", digital art by Ricckihop (homenagem a Dali)




 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

...