domingo, 1 de novembro de 2026

É preciso

 

Arte de Micaela Lattanzio



É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas, teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar, a trevo machucado, as folhas de alecrim desde há muito guardadas não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

Memento mori

 


Memento mori é um adágio latino que significa "Lembra-te que és mortal" ou apenas "Lembra-te da morte". A frase, em letras barrocas e a negrito, situava-me na minha pequenez, um grão de poeira na grandeza do universo... Esquecemo-nos disto tantas vezes, da nossa insignificância no mundo, do quanto a nossa perda nada altera o correr dos dias, as voltas que o mundo dá. Achamo-nos gigantes e donos do mundo, nada tememos e em tudo acreditamos, tudo julgamos possível quando temos a força do amor. E no entanto morremos tantas vezes! Caímos no chão como aves abatidas em pleno voo, como peixes sufocados fora de água ou frágeis mariposas esmagadas nas paredes da vida por um murro certeiro... Há dias em que nos matam as palavras ou a falta delas, os gestos falsos e a lâmina de uma mentira... Há dias em que morremos, tombados como árvores depois do vendaval e ninguém vê, a ninguém importa a nossa dor ou a nossa morte...

Também hoje eu morri, como morro tantas vezes... Deram-me um tiro no coração, um só, a sangue frio e à queima roupa. Mas o que se despedaçou em mim e nos meus sonhos que sangram ainda, esvaziou-me de vida e de força, atirou-me para a berma da estrada da vida. E pela primeira vez, não quero que nenhum caminhante me veja, escondo-me nas sombras da noite e no pó do chão, no silêncio da terra manchada de sangue, do meu sangue...  

Memento moris... A culpa é minha, esqueci-me disto... Julguei-me grande e imortal, pensei-me gigante... eu, apenas um pardal ferido de morte, com as asas cortadas, a esvair-se dos sonhos na berma dos caminhos...

Ana Mateus



Kafkiando

 

Fonte: Pexels

Hoje a noite chegou de braço dado com a angústia. Trazia Kafka em contra mão, em busca do fio à meada num tratado de economia. Não houve metamorfose, pois o monstro há muito deitara a cabeça de fora, mas sentiam-se as garras da masmorra do castelo, em dimensão global. O negro da fome irrompia como cenário, mas o processo ainda estava incompleto. Na sombra, expectante, a besta esperava pelo seu momento, pronta a devorar qualquer resquício de sonho

AC



Teias de aranha inspiradas na razão



Numa paisagem de cinza absorta, passou o furacão do amor, E nenhum pássaro fica. Tão pouco nenhuma folha. Todos vão longe, como gotas de água de um mar quando seco, quando não há lágrimas bastantes... 

Porque alguém, cruel como um dia de sol na primavera, só com sua presença dividiu em dois um corpo. Agora faz falta encontrar os pedaços de prudência, ainda que sempre nos falte algum. Recolher a vida vazia e caminhar esperando que lentamente se encha. Se é possível, outra vez, como antes, de sonhos desconhecidos e desejos invisíveis... Tu nada sabes disto, tu estás além, cruel como o dia. O dia, essa luz que abraça apertando um muro triste. 

Um muro, não compreendes? Um muro frente ao qual estou só. 

Luís Cernuda



Imagem da Web





Mona quem...?

 

Mona Plastificada



Em tempos de botox e preenchimentos nossa musa se rendeu a harmonização facial. 

Abusou dos mega hair, do silicone,do botox e pronto... Mas, expectativa vs. realidade: sua beleza natural teria sido aumentada, ou se tornaria mais uma entre tantas?

Será que está satisfeita com a carinha atual, tão igual a de todas as dondocas que procuram os doutores e esteticistas para lançar nas redes um novo rosto? 

Não bastasse isso tudo, anda recorrendo demais  também a IA para sua fotos no Insta...




sexta-feira, 17 de abril de 2026

A Química do Amor

 



E quando a química é surreal mas o relacionamento é impossível?

A química é surreal... mas o relacionamento é impossível e isso costuma confundir mais do que qualquer outra coisa.

Porque a intensidade faz parecer que ali existe algo raro, quase inevitável.

Só que química não é escolha, não é construção e não é sinal de compatibilidade. É resposta do corpo. É ativação. É um tipo de reconhecimento que acontece antes de qualquer avaliação mais consciente,

O problema não está em sentir, está em transformar essa sensação em direção. 

Nem toda química aponta  para um lugar que pode ser vivido. Pelo contrário, muitas vezes ela aparece justamente onde não há espaço real para um vínculo se desenvolver. Em relações marcadas por distância emocional, por indisponibilidade e por incerteza. Lugares onde falta clareza, mas sobra estímulo, onde você não é escolhida de forma consciente, mas também não é totalmente descartada.

E é exatamente esse "quase" que mantém o corpo engajado. Existe uma lógica nisso. O que é instável ativa mais. O que não se resolve mantém você ali, tentando, esperando, interpretando.

Na psicanálise, isso não é lido como azar, mas como repetição. Não da pessoa, mas da sensação.

Uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de reviver algo conhecido... não porque é bom, mas porque é familiar. Como se, dessa vez, você pudesse conduzir a história para um desfecho diferente. Só que o outro não está nessa mesma dinâmica. Ele apenas ocupa o lugar que, de alguma forma, já existia antes.

E é por isso que a química, por mais intensa que seja, não sustenta um relacionamento. Porque relação não se constrói só com aquilo que você sente mas com o que o outro pode oferecer... e com o que, juntos, é possível viver.

Sem isso, a intensidade vira um ciclo.Você se envolve, se aproxima, se prende,,, e, em algum momento, se frustra. Não por falta de sentimento, mas por falta de realidade.

Sair desse lugar não é simples, porque o corpo continua respondendo. A vontade de manter contato, de ver, de falar, de tentar mais um pouco... não desaparece só porque você entendeu racionalmente que não vai dar certo. E é aí que entra uma escolha mais adulta... Não de negar o que sente, mas de não se guiar por isso. De sustentar uma distância mesmo quando existe vontade de proximidade. De não alimentar aquilo que já mostrou não ter continuidade.

De olhar para a própria vida e perceber o quanto essa intensidade ocupou um espaço que poderia estar sendo construído de outra forma. Com mais estabilidade. Mais presença. Mais  verdade. Porque, no fim, não é sobre abrir mão da química. É sobre não transformar um impulso em destino.

Nem tudo que te movimenta por dentro foi feito para ser vivido por fora. E maturidade é reconhecer quando sentir não é motivo para ficar. 

 

Márcia Peters 

 

 

 

Crédito da imagem: Ilustração vetorial de Bunsen, farmacologia 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Diálogo com as flores

 

 

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza. Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião. O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho. Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava.”
 
Carlos Drummond de Andrade
 
 
 
Arte de Katalin London
 
] 

 

A semântica das lágrimas

  


As lágrimas são um mapa pleno de significação e de leituras. Temos muitas maneiras de chorar e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos mas choramos sempre para um outro ver.
As lágrimas são um traço tão pessoal como o olhar, ou o mover-se ou o andar.

José Tolentino de Mendonça 

 

 

Arte de Maria Fett

 

 

 

Urdindo o destino

 

 

Os olhos, habituados à luz, suavizam a tormenta, procurando o fio condutor da construção do labirinto. E, a pouco e pouco, vão bebendo a escuridão.
Quando se insinua o repouso, o horizonte, feito recompensa, parece mesmo ali, o longe tornado perto. É quando, à tardinha, se ouve o murmúrio do regato, e as aves entoam o seu mais belo canto.
Mas de longe chega o rumor da zanga das águas, rumo perdido em torrente impetuosa. Qualquer coisa que se foi, outro tanto que se teima em procurar...

 

A.C.

 

 

Arte de Maria Fett 

 

 

 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Vestido de solidão

  


Deteve-se junto à figueira despida, mas que não sentia vergonha nem frio. Agarrado a um ramo, um pequeno pássaro clamava por companhia. Admirava a coragem do pássaro. Sentiu uma enorme vontade de gritar bem alto. A solidão é uma roupa que é feita de muitos tamanhos e que serve a todos por igual.

Fernando Guerreiro

 

 

Crédito da imagem: Freepick 

 

 

 

 

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