terça-feira, 2 de junho de 2020

Está hoje um dia de vento

 
 
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz a música
que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento atualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
 
Ruy Belo
 
 
 
Imagem da Web
 
 
 

Para voar



O velho homem nasceu  das ousadias do destino.
Usava a camisa pelo avesso, assobiava uns velhos versos, canções perdidas, amores empilhados na prateleira vazia.
Ousava ouvir  estrelas, arrancar raízes do céu e dançar pirilampos nas noites insones.
O velho homem nasceu envelhecido, o velho homem nasceu entardecido... O velho homem laçou o sol, outonou , deitou nas redes do "para sempre" e deixou escapar todas as aves presas no recôndito da sua alma.
Libertou todos os pios.
Gorjeou labirintos celestes. Deitou n'outros ninhos e embalou um berço de cristal.
Para que todos os pássaros de vidro aprendessem a voar.
E, voou de si.

Elke Lubitz



Imagem via Pinterest





A nossa poesia silenciosa

 
 
Quero nosso amor bem costurado, com pontos firmes e resistentes.
Quero aqueles sábados de manhã, café forte e a nossa poesia silenciosa acontecendo deliciosamente.
Quero inteiro, completo, sem faltar pedaço para agregar-te dentro do meu abraço.
Quero nossos silêncios preenchidos com beijos e afagos intermináveis.
Contigo, quero mãos dadas, do meu lado, dentro de mim, estrada afora, você e eu, por inteiro seu.
 
Erick Tozzo
 
 
 
Fotografia de Dalva Nascimento
 
 
 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Preciso escrever-te


 

... tenho sentido a tua ausência nas palavras que não te escrevo. Trabalho, muito, distrações várias, preocupações mil que me afastam de ti. Nas palavras quero dizer. Em pensamento, tu a interromperes-me as manhãs as tardes as noites. As mesmas manhãs tardes noites que não te escrevo. Sinto-te na ausência do que não digo. Preciso de escrever-te.
Repito: preciso de escrever-te.

Paulo Ferreira
in Cartas a Mónica




Imagem da Web 





Um abraço para sempre



Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo minha vida se mudou. Depois desse abraço, trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração. Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando. E se eu peço que ele regresse é para sua mão peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro. Todo este tempo me madreperolei, me enfeitei de lembrança. Mas o homem de minha paixão se foi demorando tanto que receio me acontecer como a ostra que vai engrossando tanto a casca que morre dentro de sua própria prisão. Certamente, ele passará por mim e não me reconhecerá.

Mia Couto,
in Na Berma de Nenhuma Estrada


 Imagem via Pinterest



 


Sobre o não dito

 

Três lindas meninas bordavam ao lado da mãe no distante socavão de onde se avista a cidade de Faria Lemos. Lugar seco, de pedregulhos, muitos besouros no verão, revoada de tanajuras em novembro, fortes trovões. A mais velha muxoxeava:
- Quero ser feliz, minha mãe!

A mãe dizia:
- Borde, minha filha.
A moça prendada borda.

Acontece que os amores não vinham, ninguém passava por ali, e, aos domingos, na missa, o pai ficava de olho. As meninas já sabiam fazer costuras variadas, tricô, crochê, ponto cruz, ponto haste, nó francês e ponto cheio. E arroz doce. E pudim de laranja. E caldas, e licores. Arranjos com hortênsias e samambaias. Polvilho.

Usavam um leve toque de ruge, mesmo que fosse para espiar pela janela, nunca se sabe. E os janeiros se iam, ia fevereiro, e nada.

- Deixe-me namorar, meu pai!
Pediu a moça mais velha.
E o pai não deixava, por um motivo ou outro, que era muito cedo. E as filhas aprendendo virtudes.

Um dia, a mais velha apareceu grávida: mas como, não saía de perto da mãe, sempre sob os cuidados do pai? Arrumaram um casamento rápido com um empregado do sítio, rapazinho tímido, que soía ser apaixonado na moça. Envergonhados, nem mais iam à missa. Mas não parou por aí.

Tempos depois, a segunda apareceu grávida e a terceira também. E, da mesma forma, casamentos foram feitos à pressa, com rapazinhos sem futuros, socavados nos ermos. Os filhos cresceram, todos muito parecidos com o avô, impressionante semelhança, sussurravam os vizinhos. Quando o avô morreu, as três mulheres obrigaram os filhos a beijá-lo.

Decidiram vender o sítio e dividir os resultados entre as três filhas. A mãe, já idosa, moraria com a mais velha. Feito o negócio, com a mudança nas charretes, a mais velha ainda olhou a antiga casa colonial de pau-a-pique, de imensas janelas azuis, e gritou, sabe-se lá para quem, em alta voz, que penetrou profundo nos formigueiros e cupinzeiros, que seguiu pirambeira abaixo, que pairou sobre a cidade de Faria Lemos, ao pé do morro:
- Dane-se, maldito!

Nenhuma irmã respondeu, os cavalos tocaram passo. A velha mãe sequer esboçou um ar triste, ou alegre, apenas sacudiu os ombros pelo meneio do cavalo.

Contaram-me hoje esta história, achei que daria um enredo curioso sobre o silêncio, o não dito, o que não se revela. Tentei dizer, não dizendo. Mas todo silêncio reverbera, ainda hoje, nas barrancas da velha casa.

José Antonio Abreu de Oliveira



Imagem: Fazenda Pedra Branca, acesso pela Estrada Velha de Indaiatuba, Campinas SP, 19/08/2018. (casa de colono).







Enquanto respiro a saudade


 

E então escorrego para dentro dos meus olhos fechados... E do lado de dentro dos meus olhos há uma rua ventosa igual a tantas outras ruas cheias de vento e uma casa igual a todas as outras casas da cidade. Dentro dessa casa cheira a mar e ouvem-se as ondas num suave murmúrio ecoando toadas inquietas nas paredes pintadas de azul... Um corpo rasga as sombras e percebo que é o teu, pela maneira como te moves... O rádio antigo, abandonado no varandim amarelecido, deixa escapar do seu pequeno corpo de lata uma música imortal e há uma borboleta com as asas feridas presa entre as vidraças da janela onde o sol morre devagar, numa quietude morna... Lá fora o mundo move-se, impassível, alheio ao que sinto, e enquanto respiro a saudade lentamente, mantenho os olhos fechados, deixo que por uns instantes, num tempo suspenso, a memória te veja melhor.
 
Ana Mateus




Crédito da imagem: "Lady in Vintage Clothing Hiding Behind Old Door", by Jill Battaglia




quarta-feira, 27 de maio de 2020

Como o gato

 

Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que  me tocasses sem desejar encontrar qualquer sentimento a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.

Pedro Paixão
in Assinar a Pele



Crédito da imagem: @daaack46




E quando a tempestade tiver passado

 

E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami



Fotografia: Pixabay/Inmet




Reflexos de brilho, como pó lançado ao ar

 

Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava, eram pontos líquidos de brilho no céu. Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.
Naquela noite, fiquei a esperá-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensão. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma única forma noturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao céu claro da noite. E faltou uma batida ao coração.
O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer. Corremos pelo passeio de mãos dadas. A minha mão a envolver a mão fina dela, a força dos seus dedos dentro dos meus. Na noite, os nossos corpos a correrem lado a lado. Quando parámos, as nossas respirações, os nossos rostos admirados um com o outro: olhámo-nos como se nos estivéssemos a ver para sempre. Quando os meus lábios se aproximaram devagar dos lábios dela e nos beijamos, havia reflexos de brilho, como pó lançado ao ar, a caírem pela noite que nos cobria.

José Luís Peixoto
in Cemitério de Pianos




Fotografia de Rodrigo Razquin



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