quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Lost & Found



Se me vires assim de olhar esfumado e sorriso desencontrado, não te preocupes. Sou só eu perdida nos meus mundos, à espera do tanto que há para vir, com vontade de sempre mais, com os arrepios nas pontas dos dedos e a intensidade à flor da pele. Mesmo como eu gosto.

Procuro em linhas desenhadas e em palavras surrupiadas, letra a letra, das páginas que me enchem os dias, o tudo que ainda hei de ser, o tanto que já sei que sou.

Pões-me a mão no ombro, tentas chegar-te a mim, mas neste momento não me fazes falta, não te preciso aqui, não sei que te dizer. Talvez porque faças parte de mim e isso me chegue. Por agora chega.

Mas depois quero ganhar mundo, quero bater à porta da vida, não quero sequer pedir licença para entrar, quero deixar-me levar, quero que me levem, leve, leve, sem o peso de mim, para descobrir o que por aí há, para vir a sentir mais do que mais, mais do que os outros, mais do que tenho agora aqui.

Não te preocupes se eu ficar horas à janela, ou à beira de um muro sobre o mar ou sequer num quarto escuro. Não te preocupes porque não sou eu que lá estou, mas a vontade do que serei. Estou a viajar, estou a sonhar. Estou a desenhar em mim as estradas que vou correr, as vidas que vou viver.

Deixa-me ficar assim, então, que eu volto já, prometo que não demoro, não ficarei por regressar. Espera por mim, mesmo que quem volte já não seja eu, mas um eu um bocadinho maior, um bocadinho mais cheio, um bocadinho mais perdido das histórias de mim. Mas eu volto. Eu volto.
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Monstro

Em Creta procuramos o labirinto. No labirinto procuramos o Minotauro. No Minotauro procuramo-nos sós um ao outro e quando encontramos o que procurávamos e matamos o que não compreendíamos começamos a procurar novos monstros como se fosse uma saída o perder.

 Björn Hakansson



Desconheço a autoria da imagem




Futuro

 

Alguém, uma pessoa que conhecia, estava preocupado com o futuro.
Dizia-me que costumava ter terríveis pesadelos.
Com que sonhas? - perguntei-lhe.
Sonho que tudo continua como antes e que o que se transforma - se transforma de modo como tinha podido prever.
Não seria culpa tua nesse caso - respondi-lhe.
Também essa resposta fazia parte do sonho - disse.
Agora não há saída alguma onde possa despertar.

Bjorn Hakansson

 

 

Imagem via Pinterest

 

 

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Florações


Estou à primavera de sensações indóceis. Florações extremas, e no entanto, mudas, só eloquentes de silencio e olhar. Discretamente solitária, aguardo pela ventania inconfidente da alma, a fim de que ela cante minhas proezas, revele minhas histórias, as sonhadas e vividas. Minha quietude é de bosques que trazem a urgência dos verdes, revivendo a cada estação, o definitivo da vida. Cresço inesperadamente nessa temporada, feita de noites arrastadas, consumida no ópio de palavras silenciadas pelo medo de morrer de amor. A estrada desses mornos dias é longa demais, a rotina é uma reta que desejo bifurcar porque sonho com curvas de mulher. Sonham as curvas comedidas em mim. Mesmo calando sussurros, palavras, frases inteiras, orquestro-me, alcanço as estrelas dos meus delírios, agigantada por dores e agonias, por ilusões, sóis temporais, secretamente difundida nas minhas entranhas, nas dimensões multiplicadas de meus eus. Minha natureza sabe que, a despeito de quaisquer rios que eu navegue, desembocarei sempre em versos livres; e assim será até que as flores perfumem alegrias e tragédias.

Roberta Tostes Daniel
 
 
 
Imagem Google
 
 
 

Livro eterno de escrituras efêmeras

 

O céu é um livro eterno de escrituras efêmeras.
Até profecias ele revela, através das letras rápidas: vai chover, vai secar, vai cair pedra.
Às vezes fala de alguns destinos: quem partiu para longe.
Por outras, letras meteóricas, um ponto final.
Mas o livro, em si, é sempre novo, sempre no começo.
E permanentemente aberto. O que abre e fecha é a janela. Ou nossos olhos.
O céu é um livro que todos lêem e entendem, seja em Varre-Sai ou em Pequim.

José Antônio Abreu de Oliveira


Fotografia de Dalva Nascimento




segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

O que mais custa a suportar


Porque o que mais custa a suportar
não é a derrota ou o triunfo,
mas o tédio, o fastio, o cansaço, o desencorajamento.
Vencer ou ser vencido não é um limite.
O limite é estar farto.

Vergílio Ferreira



Fotografia de Pantunes Fotos





Faça o favor de entrar

Bateram-me à porta e recusaram-se a entrar. «Entre» disse eu lá do fundo de mim – Entre, que já aqui estou sozinha há muito tempo. Preciso de alguém que diga como ele um dia me disse «Que tens, passarinho?», que me toque como ele fazia, sempre com a dúvida no ar, sempre mostrando que alguma coisa havia, que alguma coisa me queria, mas sem o poder desvendar.

Por isso eu disse «Entre», porque já me sentia sozinha há algum tempo, porque queria companhia, porque já não sabia viver assim e porque já não queria. Porque ao fim de tantos «Entre» nunca mais era ele, nunca mais ele me ria, me desenhava com o olhar, me apartava com um gesto, nem me tinha querido falar.

Por isso sempre que me batem à porta eu tenho dito pacientemente «Entre», mas nunca o fazem, nunca chegam sequer a pisar a soleira da porta, nem sequer a tocar devagarinho o tapete que tenho estendido há tanto tempo para quem quer entrar, nem o chá esquecido em cima da mesinha de mogno, nem o calor que guardo ali na lareira.

Por isso já me vou cansando de dizer «Entre», por isso já não o digo todas as vezes, nem tantas, nem quase nenhuma, porque já sei que não vai ser ele, nem ninguém sequer parecido, porque já ninguém me vai dizer «Que tens, passarinho?», nem desvendar-me o olhar, nem pegar-me na mão mesmo sem eu saber que preciso mesmo que alguém o faça, nem despir-me de tudo sem eu perceber, nem olhar-me com aqueles olhos brilhantes quando eu estiver nua à sua frente, a tremer de frio e de tudo.

Porque ele já não vai bater à minha porta. Ou porque se cansou, ou porque não quer ou porque já não pode.

Tem outras portas a que bater, há alguém que tem sempre um «Entre» para ele, só para ele, um colo onde ele se possa sempre sentar e isso eu antes não sabia que tinha para dar.

Já tentei pôr um pé fora da minha porta, espreitar as coisas lá fora, deixar-me de falar do fundo de mim e soerguer-me até à superfície para ver se ele lá está. Para quando o encontrar dizer-lhe que agora estarei sempre à sua espera quando quiser entrar, que o meu colo está sempre pronto, que o chá não deixará de o esperar, que cada vez que bater à minha porta direi sempre ... Entra, entra e apressa-te porque preciso que me passes a mão pelo corpo, que me apartes com um gesto, que me dispas com o teu olhar, que me pegues no queixo enquanto eu estiver ao teu colo e me segredes baixinho «Que tens,  passarinho?»

 

historiasdenos.blogspot.com

 

 

Crédito da imagem:  fotografia de mallorylucille em flickr

 

 

Olhos de comer o mundo

 

 Fome às avessas

Quando nasci, me deram olhos de comer o mundo. E tão grandes eram meus olhos, pretos e redondos como bolas de gude, que houve pouco espaço para a boca. E eu devorava as pessoas, seus gestos de amor ou de desprezo, o amaciar dos cabelos com dedos finos ou grossos, suaves ou grosseiros. Mas o tamanho dos meus olhos estragou os meus lábios. Eu pouco falava porque minha boca era tão pequena e tinha medo de que as minhas palavras vagassem pelo espaço como muriçocas transmitindo um ruído fino. Eu compensava minha deficiência silábica engolindo, engolindo com os olhos as casas, os muros carcomidos pela chuva, o chapéu de folhas largas de árvores muito, muito antigas. Quando eu nasci, disseram que eu não teria nada mais que olhos muito grandes. E por serem enormes, tudo caía dentro dos meus olhos: pássaros, lesmas, cães de rua, besouros, bonecos, a fina poeira dos móveis, as frestas das paredes. Meus olhos também caíam dentro deles mesmos e aí eu conhecia o tamanho de um abismo, eles caíam até o fundo e eu descobria monstros, pátios desertos, florestas escuras. Quando eu nasci, me deram uma visão de águia e lábios quase inexistentes. Nas fotos, os olhos ocupavam todo o rosto. Nem que eu sorrisse, gritasse, fizesse caretas a boca aparecia. Depois me deram por mudo, pensaram que eu tinha tragado todas as palavras do mundo dentro dos olhos. Mas deles também saíam coisas, grandes rios salgados quando eu lembrava da minha boca mais fina que uma linha, da minha incapacidade de cantar, como se em mim faltasse uma perna ou um braço. Também jorravam dos meus olhos algumas estrelas, brilho, muito brilho quando eu descobria paisagens grandes, tão grandes. Paisagens douradas. Paisagens roxas. Paisagens da aurora ou ãodo crepúsculo. Todas flutuavam e dançavam na ardência dos meus olhos, olhos de comer o mundo.

Magno Catão


Crédito da imagem: Fotografia criativa de Allen Staley




sábado, 9 de janeiro de 2021

Solilóquio

 

Antes que anoiteça, e já anoiteceu, busco reencontrar-me com as palavras. Inútil. Partiram. Todas. Um riso baixo ecoa da janela. Abro-a. E lá estão elas, as minhas palavras, escondidas no canteiro de hortênsias cor-de-rosa, zombando da minha aflição. Se acaso se escondessem por entre as hortênsias azuis, seria menor a minha sensação de abandono e solidão?

Márcia Maia



Imagem via Piterest



quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Um novo ano



 Tudo bem no ano que vem?

 
 Permita-me, nestes últimos dias do ano:
 sonhos e esperanças no melhor!
 Deus assim quer para todos nós!
 
 
"Quando sonho, sou outra...
inauguro-me."
(Helena Kolody) 
 
 
 
 


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