A química é surreal... mas o relacionamento é impossível e isso costuma confundir mais do que qualquer outra coisa.
Porque a intensidade faz parecer que ali existe algo raro, quase inevitável.
Só que química não é escolha, não é construção e não é sinal de compatibilidade. É resposta do corpo. É ativação. É um tipo de reconhecimento que acontece antes de qualquer avaliação mais consciente,
O problema não está em sentir, está em transformar essa sensação em direção.
Nem toda química aponta para um lugar que pode ser vivido. Pelo contrário, muitas vezes ela aparece justamente onde não há espaço real para um vínculo se desenvolver. Em relações marcadas por distância emocional, por indisponibilidade e por incerteza. Lugares onde falta clareza, mas sobra estímulo, onde você não é escolhida de forma consciente, mas também não é totalmente descartada.
E é exatamente esse "quase" que mantém o corpo engajado. Existe uma lógica nisso. O que é instável ativa mais. O que não se resolve mantém você ali, tentando, esperando, interpretando.
Na psicanálise, isso não é lido como azar, mas como repetição. Não da pessoa, mas da sensação.
Uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de reviver algo conhecido... não porque é bom, mas porque é familiar. Como se, dessa vez, você pudesse conduzir a história para um desfecho diferente. Só que o outro não está nessa mesma dinâmica. Ele apenas ocupa o lugar que, de alguma forma, já existia antes.
E é por isso que a química, por mais intensa que seja, não sustenta um relacionamento. Porque relação não se constrói só com aquilo que você sente mas com o que o outro pode oferecer... e com o que, juntos, é possível viver.
Sem isso, a intensidade vira um ciclo.Você se envolve, se aproxima, se prende,,, e, em algum momento, se frustra. Não por falta de sentimento, mas por falta de realidade.
Sair desse lugar não é simples, porque o corpo continua respondendo. A vontade de manter contato, de ver, de falar, de tentar mais um pouco... não desaparece só porque você entendeu racionalmente que não vai dar certo. E é aí que entra uma escolha mais adulta... Não de negar o que sente, mas de não se guiar por isso. De sustentar uma distância mesmo quando existe vontade de proximidade. De não alimentar aquilo que já mostrou não ter continuidade.
De olhar para a própria vida e perceber o quanto essa intensidade ocupou um espaço que poderia estar sendo construído de outra forma. Com mais estabilidade. Mais presença. Mais verdade. Porque, no fim, não é sobre abrir mão da química. É sobre não transformar um impulso em destino.
Nem tudo que te movimenta por dentro foi feito para ser vivido por fora. E maturidade é reconhecer quando sentir não é motivo para ficar.
Márcia Peters
Crédito da imagem: Ilustração vetorial de Bunsen, farmacologia

Nenhum comentário:
Postar um comentário