terça-feira, 17 de novembro de 2009

25 Poemas da Triste Alegria

. Reprodução/Strana.
Foi em 1930 que ele conseguiu publicar o seu primeiro livro. Tinha 28 anos de idade. E numa modéstia que jamais poderia pressupor a grandeza da obra que produziria, a edição foi de apenas 500 exemplares do livro "Alguma Poesia"..

E eis que hoje estamos prestes a conhecer seu inédito "25 Poemas da Triste Alegria". O original dessa obra, de 1924, estava desaparecido. Alguns estudiosos chegavam a duvidar de sua existência. Há quatro anos, o acadêmico Antonio Carlos Secchin, professor de literatura da UFRJ e especialista em poesia brasileira, conseguiu localizá-lo. Ele comprou o original de um amigo do poeta, cujo nome se comprometeu a não divulgar. Agora, com aval da família, pretende publicá-lo em versão fac-similar. .

Fotos Oscar Cabral e Folha Imagem.

O DESCOBRIDOR E O GUARDIÃO
Secchin (à esq.) reencontrou o livro com que Drummond havia
presenteado Rodrigo Melo Franco (à dir.)

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Drummond escreveu os poemas em 1920. Alguns foram publicados em jornais da época, e 12 deles são inéditos. O livro foi escrito na época em que o poeta se mudou para Belo Horizonte, e conheceu e começou a namorar Dolores, com quem se casaria em 1925. E foi a ela que Drummond pediu que datilografasse 25 poemas escolhidos, que mandou encadernar num único exemplar e o deu a Rodrigo Melo Franco de Andrade, amigo que morava no Rio de Janeiro, e que tinha bons contatos que poderiam ajudar na publicação da obra. E foi esse livro que, por caminhos misteriosos, chegou às mãos de Secchin. Em 1937, Drummond pegou de volta esse original e fez anotações sobre seus poemas juvenis. Os comentários escritos por ele, assinados e datados, trazem uma interessantíssima releitura do escritor maduro sobre seus poemas iniciais, em uma autocrítica carinhosa e ao mesmo tempo arrasadora sobre seus primeiros versos. Depois de 1937, a trajetória dos “25 Poemas...” é um mistério.
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Abaixo, alguns trechos dos poemas inéditos e as notas do poeta:

.CANÇÃO DO GREGO DESENCANTADO
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Ó tocadoras de flauta, nos doces, nos apagados festins de Alexandria... Vós que tínheis o corpo branco como um lírio, e vos perfumáveis de nardo, e sândalo e verbena!
Há muito que vos não ouço, há muito tempo que, reclinado no meu leito de rosas, aguardo o vosso regresso! (...)
. .
Comentário de Drummond: "Se um inimigo apanhasse esses versos..."

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UMA LÂMPADA BRILHA

. (...) Aquela casa, como envelheceu!
(A casa onde morava Carolina.)

. E a lâmpada olha tudo, indiferente.

. Ah! o abandono dessa lâmpada!
O abandono desse olho imoto, amarelo,
brilhando sem desejo,
sozinho,
no alto do poste fino e lírico!

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Comentário de Drummond: "Sempre gostei de botar nomes próprios, principalmente de mulher, em meus poemas. (...) Suponho que eles indiquem em mim uma tal ou qual preocupação de referir a minha poesia à vida real, representada menos nos fatos ocorrentes do que nesses nomes usuais que têm para mim um forte poder de materialização. Carolina deve ter surgido aqui com essa intenção. Ou como reminiscência de Machado de Assis...?"


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MATINAL

. Seios aromados do meu amor,
na manhã cheirando a lírios!

. Volúpia das flores, volúpia das almas!

. Um vento leve nas folhas,
um céu de porcelana, muito fino,
e a manhã cheirando a lírios!

. A vida é bela porque sois belos
e sorri ante a vossa beleza,
ó brancos e redondos
seios aromados do meu amor.
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Comentário de Drummond: "Falsa sensualidade. Falta de experiência. O autor se revela reúno (regionalismo que significa inexperiente) na apreciação do objeto em causa"


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NA TARDE CHEIA DE DOÇURA...
. clique para ampliar
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Comentário de Drummond: Eu supunha haver chegado, com esse poema, a um alto grau de condensação lírica. Trabalhava matéria cotidiana e aplicava o gosto “penumbrista” da época a valores que me pareciam de uma originalidade incontestável. Na verdade, a “menina que perdeu o pai num desastre de trens” devia ser parenta próxima daquela outra “moça da estaçãozinha pobre”, de Ribeiro...
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O MOMENTO FELIZ
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Comentário de Drummond: “Se você algum dia publicar isso rompemos relações! E me crismo Xavier”, escreveu o conselheiro Mario de Andrade, referindo-se a este poema, o único, de 1922-1924, em que realmente me encontro um pouco...

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GRAVADO NUMA PAREDE
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Comentário de Drummond: Este poema conquistou-me a admiração de Abgar Renault e valeu-me alguns (raros) sucessos mundanos. Foi muito recitado em Belo Horizonte. Creio que satisfazia a uma certa necessidade vaga de sofrimento amoroso, nos salões daquele tempo. Algumas pessoas, estimando estes versos, lamentavam que eu perpetrasse, já, coisas menos confessáveis no terreno poético. E esperavam que eu me corrigisse, o que desgraçadamente não foi possível.
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Não sei se o poeta tinha intenção de publicar estes versos de iniciante ou não, mas o que importa é que um poeta de sua estatura já não pertence a si mesmo. Até suas débeis tentativas precisam ser lidas.

.Link



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3 comentários:

Georgia disse...

Dalva que achado rico e maravilhoso.

Adorei o post. Me deliciei com os poemas.

Boa noite!

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Um achado literário único e eterno... Dalva, você é uma mulher que sabe encantar com posts que engrandecem a nossa alma.

Adorei!

Beijo imenso, menina linda.

Rebeca

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Memória de Elefante disse...

Uma grande homenagem aqui em teu blog ao poeta que tanto amo...adorei!

Um beijo

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