Deixei silenciar o tropel de Netuno dentro de mim, acalmar a fome devoradora de meu oceano.
Ao virar-me para abandonar o quarto, a presença de Lucas. Colado em mim, seu rosto era máscara dura, constrangeu-me.
A palavra não acontecia, nem havia generosidade ou pena em sua expressão. Seus olhos petrificavam meu sangue, as artérias debruçavam o medo. Dei as costas, fugi para o meu quarto. Tranquei a porta.
Diante do espelho, alisava a figura que se movia na mesma coordenada, algo apontava existir uma outra linha, finíssima, velada. Aflitivo acariciar um rosto que não possui a imaginação de outro gesto.
O espelho é trágico pela mímica, inércia do movimento, aquele tinha algo de perverso.
Lucia De Moura Chamma, "QUEIMA SANGUE", romance, Litteris Ed, 2014, RJ
Crédito da imagem: Arte de Bear Kirkpatrick

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