domingo, 16 de novembro de 2008

A inversão de valores

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Um dia eu acordei e tinha mudado tudo. Uma inversão de valores. Tive que me adaptar. Aprender uma porção de coisas na marra. Com a experiência. Experiência besta essa de aprender tudo o que não devia. Estudei no Sion, debalde. Me aborreci à toa com aquelas freiras ensinando francês, boas maneiras... Fiquei sabendo, por exemplo, que hoje em dia não se retorna mais ligação. É chique. Dá status. O importante é ser inatingível, grosseiro. Bons tempos aqueles em que eu falava com Fellini, em pessoa, na Cinecittà, sem intermediários, e passeava com ele pelos estúdios. - Aqui, minha filha, é o restaurante - mostrava-me ele, o braço por cima dos meus ombros - ali os camarins...
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Uma vez liguei também pro George Benson, em Los Angeles, pra mostrar-lhe uma fita da Adriana Calcanhotto, e ele retornou a ligação, interessado! Minha irmã me diz:
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- Pára de contar essas coisas que vão achar que você é a princesa Anastácia, que acabou no hospício, feito louca.
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Mas tinha uma delicadeza... Ontem vi Nara Leão na TV Cultura, linda, cantando Com açúcar, com afeto. Hoje não tem mais açúcar, ele foi substituído pelo dietil e afeto, então, ah! Corre-se dele como o diabo da cruz. Também ninguém mais canta com aquela delicadeza que fazia até carcará ficar sutil.
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Secretária eletrônica só serve mesmo pra pessoa se esconder, ficar quietinha, ouvindo o palhaço deixar o recado. ''Tá pensando que eu vou responder, ah! coitado!...'' Celular é pra ficar fora de área. Tem coisa mais brega que celular funcionando? Antigamente, não. Gente bem educada tinha não só que dar o retorno assim que chegasse em casa e a empregada (nervosa com a possibilidade de errar e perder o emprego) contasse quem ligou. Como também tinha que telefonar para agradecer a festa ou a reunião que tivesse ido na véspera. Pros homens, valia também ligar pra moça no dia seguinte de uma transa, mesmo que fosse só pra fazer uma gracinha qualquer ou dizer:
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- Oi, tô aqui .
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Agora, não. Ninguém mais tá aí pra nada. Isso dos homens ligarem no dia seguinte então, acabou faz tempo. Foi substituído primeiro por um ''a gente se vê'' muito vago, com um beijinho nos lábios, depois de uma suposta noite de paixão, quando se ia levar o cara na porta. Depois, virou um beijinho na testa, já com o pé no elevador, sem texto nenhum. E mais tarde, um gesto que queria dizer tchau de longe, sem beijinho nem texto pra deixar bem claro que não tem gancho pra próximo capítulo, muito menos pra novela. Também não há possibilidade de virar filme porque não monta. Não tem edição. Falta roteiro, seqüência, diálogo. É, no máximo, um clipe rápido, uma cena que você grava na cabeça e fica voltando, se quiser. Vive-se um trailer do que poderia ter sido. Um flash, uma hipótese.
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Outro dia uma amiga jovem concordou em ir pro apartamento do cara contanto que ele ligasse no dia seguinte. Combinaram assim. No dia seguinte ele ligou, como prometera, e quando ela perguntou:
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- E aí, quando é que a gente se vê de novo?
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Ele respondeu:
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- Ah, assim também é demais. Isso eu não prometi pra você...
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Mas não houve só uma mudança negativa. De positivo há a vantagem de que hoje em dia mulher pode ligar pra homem, por exemplo, coisa inadmissível naquela época longínqua do Sion, quando mulher tinha que ser inatingível, cobiçada de longe, de preferência passando de helicóptero, dando adeus. Isso quando o auge da transgressão no colégio era matar aula na Sears ou no Jardim Botânico e não matar o colega de carteira na sala de aula ou a professora no recreio com uma rajada de metralhadora.
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Mas, cá entre nós, se mal lhe pergunte, o que é que adiantou mulher poder ligar pra homem se ninguém responde às ligações? Conclui-se então que telefone, celular, bip, secretária eletrônica, e-mail, servem pra gente se proteger do outro e não pra se comunicar. Ninguém mais quer se comunicar com ninguém nessa era da comunicação. O outro é uma ameaça constante. O que sempre foi, aliás. A diferença é que vivíamos sonhando com ela. Agora, não. Quando perguntei à filha de um amigo por que ela não ficava de novo com o garoto da festa, se tinha sido tão bom, ela respondeu, categórica:
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- Repeteco não preenche álbum de figurinha...
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Transam-se todas as possibilidades de sexo, droga, rock and roll, mas o afeto continua encerrado no peito há tanto tempo que até perdeu-se a chave, substituída por um controle remoto.
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- E se o Bush invadir o Iraque, a Coréia acabar com os Estados Unidos, um asteróide se chocar com a Terra? - perguntei a um amigo, por fax.
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- A gente toma um lexotan e espera bater - respondeu ele, por e-mail, uma semana depois.
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Maria Lucia Dahl

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