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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Em que lareiras na floresta



[...]
aqui ao lado deste jardim (vê-se do jardim) há uma cegonha. Vive numa chaminé, claro. A cegonha não lhes interessa, a estes homens, porque não está presa, acho que é por isso que a cegonha não lhes interessa, mas não sei se me deva contentar com essa explicação. 
Sei que nas lojas às vezes têm animais em gaiolas. Às vezes no meio da rua. É para abater a pedido, a carne palpitante. É um cheiro, não de fezes, mas de medo: toda a esquina, quase toda a rua, cheira a medo. 
No entanto os animais continuam a comer. Comem até morrer. Não sei se diga que são originais, quanto a estes visitantes, a estes homens, não sei se comem também até morrer, nem sei se já defecaram hoje, todos. Chegam aqui e ficam à espera: olham para mim e uns para os outros e estão à espera: de qualquer coisa vinda de fora deles, de fora para dentro, um consolo, uma emoção, uma surpresa, um divertimento, qualquer coisa que lhes anime a vida, que por momentos os faça não estarem arrependidos de ter nascido. 
Hoje melhor seria, claro, terem ficado diante da televisão, terem ficado a ler qualquer graciosa história de amor com happy-end, por exemplo aquela novela intitulada em português "um homem no jardim zoológico". Não sabem por que é que eu estou aqui: mas sabem que não é para os divertir. E se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eu, como eles? sim, se as jaulas estivessem todas cheias com outros como eles, como eu?

[...]


Alberto Pimenta
em Que Lareiras na Floresta


Crédito da imagem: Uol Notícias, (Visitantes deixaram homenagens ao gorila morto em zoológico norte-americano), aqui


domingo, 22 de maio de 2016

Olhos de nada




"Ela entrou no ônibus. Sentou-se. Ligou sua música, e foi. Todo dia, no caminho, a menina ia cantado, mesmo que sem som. Gostava sempre de reparar as pessoas, e notava que, normalmente, todas pareciam ter a mesma expressão facial de “nada”. 

Foi quando o Sol começou a mágica brincadeirinha de se esconder, e encheu a visão da menina de cores e o coração de sonhos e esperança. Alguns pássaros surgiram passarinhando em “V” em direção ao Sol, e levaram todas as tristezas da mocinha para bem longe! Os olhos da menina queriam acompanhá-los até lá, até o final, afinal não é todo dia que a tristeza vai embora. E assim fizeram, não desgrudaram um minuto dos belos passarinhos que iam em perfeita sincronia em direção ao céu colorido. 

Foi quando a menina se deparou com um daqueles olhares de “nada”, o qual ela imaginava não mais existir depois de tão belo espetáculo bem a frente de todos os olhos presentes naquele caminho. Porém, lá estavam eles. Todos os olhares vagos e tristes, em especial o de uma mulher. Um olhar de quem julgava louca a menina que se curvou toda pra ver um pôr-do-sol e uns pássaros: coisa que se vê todo dia." 

Rita Apoena


Crédito da imagem: daqui



quinta-feira, 19 de maio de 2016

As flores do medo




Na rua onde moro
junto ao restaurante da esquina
plantaram um pequeno roseiral
na calçada esburacada
houve logo quem ficasse com medo
que subisse o preço das refeições
mas afinal isso não aconteceu
há uma semana que as rosas
vão esmorecendo na calçada
enquanto o medo muda de cor.

Carlos Alberto Machado
em Registro Civil - poesia reunida.


Crédito da imagem: Google



domingo, 27 de abril de 2014

Nossos tempos


A ciranda do comer, desciranda da fome


Primeiro foi nossa mãe que deu de não mais comer. Em meu desentender eu admirava aquilo. Ela servia-nos as pequenas porções em cumbucas de plástico, se sentava num canto e trocava olhares cumpliciosos com a santa triste do quadro na parede.

Sentados no chão, em roda, todos os filhos comiam o de comer e as palavras, ninguém dava assunto falado, apenas uma ou outra vez olhávamos os olhares silenciosos das duas santas trocando diálogo mudo, uma em cada canto do cômodo pobre.

Nosso pai comia de pé, tinha preferência por não utilizar pratos, se servindo na própria panela de barro à beira do fogão. Comia pouco o nosso pai, um quase nada, o que me causava de incompreender.
Um a um íamos terminando nossa rala refeição, e, quando cada um se erguia, dava sempre uma espiada pidona pra ele, que comovido repartia com todos o pouco que lhe restava, engolia uma água barrenta, dedicava um olhar terno à nossa mãe e saía.

Ela se levantava trôpega, desistida dos olhares da santa, miúda e sumida dentro do vestido largo e gasto; encostada no batente da porta ela dava dois minutos a olhar ele sumindo na estrada. Depois ela sacudia os braços fingindo tanger algum bicho, nas sacudidas batia os dedos na porta e quando se virava estava com os olhinhos cheios d’água, se culpando pela distração. Nossa mãe, quando deu de não mais comer, deu também de não chorar pela miséria.

O sol grande ainda tinha metade do dia para cumprir sua sina; e nosso pai um tanto disso também para conseguir a próxima refeição. À vezes, em muitos às vezes, ele falhava de não conseguir, e retornava calado, recusando nossos olhares famintos.

Depois foi nosso pai que deu de não mais comer, imitando nossa mãe, se resguardando para as magrezas que faziam morada em seu corpo, e juntava os beiços assobiando melodias tristes pra tanger a fome.
Certo dia, enquanto sentados no chão em ciranda aguardávamos as nossas porções de comida, ele fez com que nosso irmão mais velho saísse da roda. Nossa mãe suplicou com o olhar, pedindo socorro à santa do quadro na parede; tive a sensação que a santa evitou o olhar angustiante de nossa mãe. O prato de nosso irmão permaneceu vazio e só.

Agora foi nosso irmão mais velho que deu de não mais comer. Seus olhos se afundavam na cara, sumiam lá pra dentro das cavas, insistiam em nos fazer doer umas dores estranhas quando dávamos com seus olhos. Ele, mais nosso pai, repartiam as magrezas pelos seus corpos. Nossa mãe, distraída, se atropelava pelos dedos quando sacudia os braços tangendo bichos que não se via, e chorava de dor servindo o de comer que cada dia era menos e menos.

Noutro dia foi a minha vez, também dei de não mais comer. E a ciranda de meninos sentado no chão foi se diminuindo sob o olhar triste da santa na parede.

Joilson Kariri - Sertão Urbano



Crédito da imagem: Google


terça-feira, 8 de maio de 2012

Nossos tempos


A arte de ignorar

(seja em que época for...)



"Não poderia ser elaborada punição mais demoníaca, se tal coisa fosse fisicamente possível, do que estar numa sociedade e passar totalmente despercebido por todos os seus membros. Se ninguém se volta quando entramos, responde quando falamos ou se importa com o que fizemos e cada um que encontramos  'vira as costas’ e age como se não existíssemos, uma espécie de raiva e desespero impotente muito em breve brotará em nós e a tortura física mais cruel seria um alívio se comparada com isso. "

William James
in "Os princípios da psicologia"
(Boston, 1890).


sábado, 5 de maio de 2012

Por um pouco mais de silêncio



Preste atenção:
No trânsito sirenes, buzinas, freadas
Em casa a tv ,o som , as crianças
Mais ainda: a tv do vizinho, o som do vizinho, as crianças do vizinho.
Por toda a parte: conversas, risadas, gritos, vozes de todos os tons.

Fotografia de Anna Peisl

O mundo está mais barulhento ou sou eu que estou menos tolerante? Pode ser. Mas escuto muitas pessoas se queixando do mesmo problema. 
E o que dizer, então, daquele feriadão que finalmente chegou depois de uma semana de trabalho estafante? Você se programa e planeja dormir até mais tarde... quem sabe até acordar só na hora do almoço! Mas eis que o seu vizinho de cima, de baixo, do lado, resolver arrastar os móveis pela casa. Ou ainda resolve que é hora de começar aquela obra, quebrando tudo - inclusive seus tímpanos! Ah, sem falar  nos rapazes que saem para lavar o carro e estrondam o som lá nas alturas. Vai me dizer que isso não é capaz de fazer com que você se sinta num verdadeiro inferno, sofrendo o calor das labaredas???

Continuando o feriadão, o próximo programa é fugir para um lugar mais isolado, num sítio em meio à natureza... mas lá também não tem sido diferente. É muito comum encontrar pessoas que passeiam pelas estradas verdes portando seus MP3, celulares ou mesmo CD Players com músicas tão altas  que conseguem abafar o som dos pássaros, das cachoeiras e o silêncio das árvores.

Já reparou que até no cinema as coisas vão mal? É difícil ir a uma sessão e não ter duas ou mais pessoas que resolvem colocar o papo em dia justo ali, na hora do filme.  E aí começa com os "shhhh" e "psius" até chegar ao grito mais indignado de alguém que, afinal, foi ali para assistir o filme! 

E dentro do ônibus? Sempre tem a placa de "proibido o uso de aparelho sonoro" - e sempre tem também um ou mais aparelhos de mp3 ou celular tocando musica alta, não é verdade?

Essas situações provam que não foi apenas o silêncio que sumiu da face da terra. Com ele desapareceram, também, a educação, o bom senso e a cortesia - essenciais para se viver em sociedade.

Não se consegue mais fazer silêncio. De fato, existe uma grande dificuldade não só de encontrar silêncio, mas principalmente de suportar o silêncio; este silêncio que nos é tão necessário, capaz de serenar nossa mente agitada, acalmar nosso corpo cansado de tantas atividades. A expressão "ouvir o silêncio" nada mais é do que nos colocar face a face com os ritmos mais suaves do nosso dia... esse silêncio que anda em extinção, tão escasso e tão raro... 


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Nossos tempos




Quanto terror latente
nesse mar gelado
que desde sempre
levamos na alma.

António Castañeda


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Árvore Genealógica




- Mãe, vou casar!
- Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça? 
- Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.
- Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?
- Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
- Nada, não. Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.
- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...
- Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.
- Você vai ter uma nora. Só que uma nora... meio-macho... Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea...
- E quando eu vou conhecer o meu... a minha... O Murilo? 
- Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido. 
- Tá! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?
- Por quê?
- Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.
- Você acha que o Papai não vai aceitar?
- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.
- Mãe, que besteira... Hoje em dia... Praticamente todos os meus amigos são gays.
- Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.
- A Bel já tá namorando.
- A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é?
- Uma tal de Veruska.
- Como?
- Veruska...
- Ah! Bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.
- Mãe!!!...
- Tá..., tá..., tudo bem.... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto...
- Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
- Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?
- Quando ele era hétero... A Veruska.
- Que Veruska?
- Namorada da Bel...
- "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel... É isso? Porque eu me perdi um pouco...
- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.
- De quem?
- Da Bel.
- Mas. Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska...
- Isso.
- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.
- Em termos...
- A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.
- Por aí...
- Por outro lado, a Bel..., além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã.
- Exato. E no ano que vem, vai ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
- Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.
- Exato!
- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...
- Entendeu o quê?
- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!
- Que swing, mãe?!!....
- É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...
- Mas...
- Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio...
- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...
- Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos...
- Nós ajudamos.
- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que....
- Que…?
- Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser f......!

Crônica do Luís Fernando Veríssimo 
Folha de S. Paulo


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Nota de falecimento


EDUCAÇÃO
É com profundo pesar que anunciamos o falecimento da Educação. O princípio de todos os princípios foi vítima da falta de investimentos. Sim, mas também da nossa indesculpável falta de tempo paa os filhos da evasão escolar, da negligência familiar, das prioridades equivocadas e da falta de preocupação com o futuro de cada um e de todos nós.
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EMPREGO
Consternados, comunicamos o falecimento de nosso querido emprego, devido ao fracasso de políticas sociais e da falta de confiança para investir no emorme potencial do nosso país. Sentiremos muito a sua falta.
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FAMÍLIA
É nosso doloroso dever informar o falecimento da família. Instituição querida que se foi devido aos maus-tratos, ao alcoolismo, ao abuso sexual, à falta de planejamento familiar, ao trabalho e à exploração infantil e à recorrente falta de carinho, apoio e respeito ao próximo.
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DIGNIDADE
Lamentamos comunicar o falecimento da dignidade, fruto da dificuldade que homens, mulheres e crianças do nosso país encontram para garantir oportunidades e condições mínimas para levar uma vida decente.
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INFÂNCIA
Lamentamos a partida da nossa querida infância. Um período tão importante de nossas vidas que, infelizmente, se foi graças à exploração e à necessidade do trabalho infantil, ao desrespeito ao estatudo da criança e do adolescente, ao erro de não se viver cada coisa ao seu tempo e aos inúmeros "cresce menino!" ouvidos Brasil afora. Sentiremos saudades da infância. Mais ainda por aqueles que, por não a conhecerem, não poderão sentir.
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RESPONSABILIDADE
Informamos a todos, com muita dor, o falecimento da responsabilidade; vitimada pela inconsequência daqueles que mesmo cientes de seus deveres, deixam de cumpri-los e pela classe média, que financia o tráfico por meio do consumo de drogas, uma diversão hipócrita que não tem a menor graça.
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CIDADANIA
É com dor e consternação que informamos a todos o falecimento de nossa muito amada cidadania. Fundamento básico da convivência social, a cidadania foi vítima de violações de leis e direitos humanos e até mesmo da nossa atitude, cada vez que nos omitimos, preferindo reclamar que "ninguém faz nada" a levantar, tomar voz e participar ativamente da construção da nossa sociedade.
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TOLERÂNCIA
Comunicamos o falecimento da nossa querida tolerância, causado pela arrogância, pela prepotência, pelo preconceito, explícito ou velado, que todos manifestamos em algum momento de nossas vidas. Em homenagem a essa triste partida, lembremos que o princípio de que uns são melhores do que os outros só nos torna piores.
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MORADIA
Informamos com pesar o seu falecimento. A nossa querida moradia se foi por flta de planejamento público, pela incapacidade de lidar corretamente com a favelização e pela dificuldade em garantir que comunidades carentes tenham acesso à luz, ao saneamento básico, enfim, às condições propícias para o estabelecimento digono de uma base familiar.
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RESPEITO
É com extremo pesar que comunicamos o falecimento do respeito, causado por carros avançando os sinais, pessoas jogando lixo nas ruas, lugares não cedidos nos ônibus, carteiradas e por todas as situações em que esquecemos que o nosso direito termina onde começa o do outro.
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HONESTIDADE
Com profunda dor, informamos o falecimento da honestidade. Um princípio que se foi devido à sonegação de impostos, às compras de produtos piratas, às "cervejinhas" deixadas nas blitz e, principalmente, devido à nossa equivodada mania de chamar corrupção em pequena escala de "jeitinho".
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JUSTIÇA
Lamentamos a partida de nossa amada justiça, causada pelo corporativismo, pelos pré-julgamentos e preconceitos, pela arrogância, pela troca de favores, pela corrupção e, principalmente, pela impunidade.
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SOLIDARIEDADE
É com extremo pesar que comunicamos a todos o falecimento de nossa querida solidariedade, vítima do individualismo exacerbado, do egoísmo e da nossa crescente incapacidade de levantar uma mão que seja em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.
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CIVILIDADE
Consternados, informamos o falecimento da civilidade. Muitas foram as causas desse triste óbito: a nossa mania de levar vantagem em tudo, as filas que desrespeitamos, as brigas no trânsito e a nossa insistência em escolher, por conveniência, as leis a serem respeitadas. O país sentirá saudades.
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AUTORIDADE
Comunicamos, consternados, o falecimento da autoridade. Mais uma vítima dos progressivos deamandos e abusos de poder, da corrupção, do descaso e do mau exemplo, que geraram desconfiança e fizeram com que a palavra autoridade se tornasse sinônimo de medo e de omissão, e não mais de respeito e reverência.
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BOM SENSO
Comunicamos o lamentável falecimento do bom senso. Mais uma vítima dos incontáveis equívocos na definição de prioridades, da falta de diálogo e das inúmeras coisas que deixamos de fazer, ou trocamos por outras absolutamente irrelevantes, simplesmnte por não pararmos uma minuto sequer para refletir sobre o que realmente importa.
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Recebi este texto já há algum tempo por e-mail, de autoria desconhecida.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Aqui na terra...


Hoje é dia de poesia...


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Fala do Velho do Restelo ao astronauta
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Aqui na terra a fome continua
A miséria e o luto
A miséria e o luto e outra vez a fome
Acendemos cigarros em fogos de napalm
E dizemos amor sem saber o que seja.
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Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti eu nem sei que desejos
De mais alto que nós, de melhor e mais puro.
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No jornal soletramos de olhos tensos
Maravilhas de espaço e de vertigem.
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede onde não chove.
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Mas a terra, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalm são brinquedos)
Onde come brincando só a fome
Só a fome, astronauta, só a fome.

José Saramago
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Invólucros


De Luis Fernando Verissimo :


Telefones celulares, agendas eletrônicas e computadores portáteis cada vez mais compactos, e portanto com teclas cada vez menores, pressupõem usuários com dedos finos. Se vale a teoria da seleção natural de Darwin, as pessoas com dedos grossos se tornarão obsoletas, não se adaptarão ao mundo da microtecnologia e logo desaparecerão. E os dedos finos dominarão a Terra.
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Há quem diga que, como os miniteclados impossibilitam a datilografia tradicional e, com o advento das calculadoras, os cinco dedos em cada mão perderam a sua outra utilidade prática, que era ajudar a contar até dez, os humanos do futuro nascerão só com três dedos em cada mão: o indicador para digitar (e para indicar, claro), o dedão opositor para poder segurar as coisas e o mindinho para limpar o ouvido.
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Outra inevitável evolução humana será a pessoa já nascer com um dispositivo - talvez um dente adicional, cuneiforme, na frente - para desembrulhar CDs e outras coisas envoltas em celofane, como quase tudo hoje em dia.
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E fiquei pensando no enorme aperfeiçoamento que seria se as próprias pessoas viessem envoltas numa espécie de celofane em vez de pele. Imagine as vantagens que isto traria. No lugar de derme e epiderme, uma pele transparente que permitisse enxergar todos os nossos órgãos internos, tornando dispensáveis o raio X e outras formas de nos ver por dentro. Bastaria o paciente tirar a roupa para o médico olhar através da sua pele e dar o diagnóstico, sem precisar apalpar ou pedir exames.
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Está certo, seríamos horrorosos. Em compensação, a pele transparente seria um grande equalizador social. 'Beleza interior' adquiriria um novo sentido e ninguém seria muito mais bonito que ninguém, embora alguns pudessem ostentar um baço mais bem acabado ou um intestino delgado mais estético, e o corpo de mulheres com pouca roupa ainda continuassem a receber elogios ('Que vesícula!').
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Acabaria a inveja que as mulheres têm, uma da pele das outras, e a conseqüente necessidade de peelings, liftings, botox, etc. E como todas as peles teriam a mesma cor - cor nenhuma - estaria provado que somos todos iguais sob os nossos invólucros, e não existiria racismo.
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Fica a sugestão, para quando nos redesenharem.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Démodé



démodé |dêmodê|
(do francês)
adj.
Que está fora de moda. = ANTIQUADO, OBSOLETO
Feminino: démodée. Plural: démodés.

Grafia no Brasil: dêmodê.

Li uma crônica de Carmen Vasconcelos muito interessante que quero compartilhar com vocês. O tema dessa crônica é a tão aclamada e atual morte do amor romântico. Isso, para mim, não passa de uma teoria insana que andam querendo nos impingir. Já escutei muita gente dizendo que o tal do amor romântico nada mais é do que uma busca idealística. E que também ele é tão mais intenso quanto for a sua proporção de sonho irrealizável... Não concordo que a nossa história de amor ( e todos já vivemos uma...) sejam apenas histórias de buscas, jornadas, lutas.

Uma vez também li, não me recordo onde, que "...e foram felizes para sempre..." é sempre o ponto final da história, porque uma vez concretizado o amor nada mais existe, tudo se perde, inclusive o próprio sentimento.

Sei que vivemos um mundo onde tudo é muito rápido, muito imediato, e corremos o risco de buscar apenas a satisfação de nossos desejos, abrindo mão de nossos ideais. Mas... ao perdermos nossos ideais, perdemos tudo.

Leiam a crônica, e logo a seguir "A Necrologia do Verbo Amar".

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A MORTE DO AMOR ROMÂNTICO
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Carmen Vasconcelos - Poetisa
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E chegamos ao fim.
Sinos dobram, arautos anunciam e o gajeiro da nau catarineta avisa: o amor romântico, este ser abominável, criado há uns oitocentos anos para nosso deleite e nosso padecimento está em vias de desaparecer.
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Ele, o dito cujo, o anjo decaído, aquele que desvia, o excomungado, o senhor das moscas, sucumbirá. Será extinto pelos valores da sociedade moderna, a sociedade do ego, que exalta a individualidade, desdenha o coletivo e execra definitivamente todos os tipos de dependência.
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E ele, o encardido amor romântico, cria uma enorme gama de dependências. Parece que é feito só disso. É dependência física, emocional, espiritual, dependência de companhia para tomar sorvete, para ir ao supermercado e vai por aí. O amor romântico é tinhoso também porque mente, inventa, ludibria. Envolve os incautos amantes numa teia de delírios. O que sentimos, afinal, não é o puro sentimento imaginado por nós, é só uma projeção que resulta na invenção de uma alma, à qual destinamos a imagem de uma pessoa real escolhida e então passamos a amar irremediavelmente e para sempre (ou até a descoberta da ilusão sordidamente traçada por ele, o-rabo-de-seta do amor).
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O nosso, a gente inventa. E haja terapeutas e técnicos de auto-ajuda para dizer-nos que nossa individualidade é mais interessante do que a procura da cara-metade inexistente, que a completude tem de ser nossa e não buscada em outra pessoa (ainda mais, inventada com aquilo que, de nós, supomos existir nela – é de Fernando Pessoa o verso: “Ninguém ama o outro, senão o que de si há nele ou é suposto”). Temos de estar inteiros para nos envolvermos emocionalmente com outro ser, que também deve ser pleno. E o amor romântico nos quer carentes, desejantes do outro que nos complete.
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É, o amor romântico está na berlinda. Ou melhor, está no cadafalso, em vias de ser enforcado. Amor bom, dizem os entendidos de exatidões, é amor entre seres que, antes de amar, precisam estar suficientes. Auto-suficientes. Devemos amar é a nós mesmos. O outro, aquele que, segundo o amor romântico, seria a razão da nossa felicidade eterna ou da nossa imortal tristeza, é alguém que deve caminhar ao nosso lado, mas cuidando dele mesmo, como cuidamos de nós. E nem se fale em eternidade. É até que a vida nos separe. Sem dramas, afinal, seremos sempre nós mesmos.
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É, o amor romântico não cabe na nova cultura, fixada no eu sozinho. Não nos vale procurar a mítica unidade: dois seres em um. O desejo de fusão deságua na dor concreta, real, da impossibilidade dessa fusão. “...tão contrário a si é o mesmo amor.”
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O amor romântico é trágico de nascença, porque a perfeição é inatingível. Ele não é o capitalismo (ao contrário, é um fator de caos no capitalismo), mas contém em si o germe da sua destruição. Por isso, pregam os profetas do modernismo e os livros de auto-ajuda: protejam-se do amor romântico. Fortaleçam-se em si mesmos. O amor romântico é Maya, ilusão. Não existe.“Porém, se acaba o sol, por que nascia?” Se o renegado não existe mesmo, ou se está às portas da morte, que graça terá a vida? A vida só vale ser vivida porque inventamos sentido para ela, e o amor romântico (perdoem-me os soltos), com os seus mistérios gozosos, gloriosos e dolorosos, é um sentido plenamente justificado.
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NECROLOGIA DO VERBO AMAR
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Amo
- lançando-se contra moinhos de vento - gritava dom Quixote.
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Amo
– envenenado de céus - gritava Otelo.
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Amo
– recostado em Ossian - soluçava Werther.
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Amo
– tremendo nas carruagens de Jasvin - repetia Vronski.
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Amo
– separando-se de Grusenka - sonhava Dimitri Karamazov.
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Amo
– brandindo a espada - recitava Cyrano.
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Amo
– regressando do comício - sussurrava Jacques Thibault.
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Amo
– gritaria também o herói de um romance contemporâneo,
mas o autor não lho permite.
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Não está na moda.
O amor já não é contemporâneo.
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Izet Sarajlic
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Trad. de José Luís Peixoto e Juan Piqueras
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terça-feira, 21 de junho de 2011

Nossos tempos


Onde fala a fé


Em Cairo,
assim como os fiéis se
voltam para Meca,
nos terraços
nos telhados
no alto dos edifícios
as antenas de televisão se voltam
numa única direção
para melhor captar as mensagens
dos novos deuses.

Marina Colasanti
in Passageira em Trânsito



Crédito da imagem: fotografia de Cristiano de Jesus, no Flickr

terça-feira, 14 de junho de 2011

Nossos tempos



“O que me impressiona,
à vista de um macaco,
não é que ele tenha sido nosso passado:
é este pressentimento
de que ele venha a ser nosso futuro.”

Mário Quintana


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Nossos tempos


Disfarçamos nosso abandono com frases ousadas e sem verdade alguma.
O que a gente gostaria de dizer, mesmo, é:

me dê sua mão.

Martha Medeiros


sábado, 21 de maio de 2011

Nossos tempos



Desejamos mais...
Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginamos, embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.

Michael Cunningham
in "As Horas"


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Nossos tempos



O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses.

José Saramago


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os nossos dias



Era uma vez um menino que gostava de atirar pedras à lua. Quando chegava a noite, refugiava-se nas traseiras do quintal, acariciava as pedras que recolhera durante o dia (para dar sorte) e atirava-as, uma a uma, olhos fixos na lua. Quando sentia o braço cansado, ia para a cama e, exausto, adormecia de imediato. Mas, um dia, o menino foi viver para a cidade, onde já não podia atirar pedras, pois feriria pessoas, partiria vidros, provocaria estragos (disse a mãe). A partir desse dia, nunca mais o menino conseguiu adormecer com facilidade, como antes. E nunca ninguém descobriu porquê.

Paulo Kellerman

sábado, 9 de abril de 2011

Nossos tempos



Encerra-se hoje, no Rio de Janeiro uma semana diferente. Pode-se dizer que foi uma semana com mais dor e perplexidade do que outras.

Muitos pais e professores começaram aquele dia com um beijo de seus filhos e/ou de seus alunos. Muitos fizeram carinho em seus rostos, passaram as mãos nos seus cabelos, abraçaram e beijaram as crianças. E não é difícil supor que muitos pais ficaram emocionados ao se despedir de seus filhos, deixando-os na escola e indo para mais um dia de trabalho.

(fotografia "O Dia Online")

Hoje, certamente, sua emoção ao pensar nessas crianças é outra. O sentimento que domina pais e professores, e a sociedade de uma maneira geral, é bem diferente.

Pelas ruas percebe-se num rosto a dor; em outros a raiva e a revolta; em muitos o que predomina é a perplexidade. O massacre das crianças acontecido na escola de Realengo nos coloca frente a frente com uma desagradável sensação de impotência, espanto e choque.

Isto acontece em parte por não termos culpados a apontar. O agente do ato insano suicidou-se, está morto e portanto longe de nossos dedos acusadores. O que torna este massacre mais assustador é justamente o fato de não se ter culpados a apontar. Não há um cristo que possa expiar, não há atenuantes... e isto faz com que nosso coração doa mais.

Passado o momento da raiva e da revolta, sobra-nos a dor e o assombro. Nossa cidade, como qualquer outra grande cidade no mundo inteiro, sempre foi e será palco dessas grandes manifestações de violência. Mas este caso é diferente.

(fotografia Victor Caivano/AP)

Quem não se lembra do pobre menino João Hélio ao ser arrastados pelas ruas da cidade... Mas tivemos a polícia para culpar, bem como as entidades de proteção ao menor. Quando as crianças foram mortas e chacinadas na Candelária também tivemos a polícia para apontar o dedo: eles fizeram justiça com as próprias mãos. E assim também aconteceu com a tragédia de Vigário Geral... Quando são as chuvas que causam a tragédia, nosso dedo se volta contra o governo municipal, estadual, federal... a culpa é dos políticos.

Será que tudo se resume nisto? Culpar a polícia, o governador, o prefeito, o presidente, o diretor da escola...?

Diante de uma violência deste calibre o que nos assusta é a nossa incapacidade de lidar com aquilo que não conseguimos controlar, com o imponderável que tanto nos atemoriza, e nos põe frente a frente com a terrível impressão de que dias piores virão...


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Os nossos dias

"We are all in the gutter but some of us ar looking at the stars."

Estamos todos na sarjeta,
mas alguns de nós olham para as estrelas

Oscar Wilde

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