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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Ainda que eu falasse a língua dos anjos...




O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas;
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus;
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte

João Cabral de Melo Neto






sábado, 25 de abril de 2020

Despedida

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E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste.
Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim,
uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval —
uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão.
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É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais.
Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado —
sem glória nem humilhação.
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Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa;
que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades;
nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento
de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.”
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Rubem Braga
in "A Traição das Elegantes"



Crédito da imagem: Obvius Lounge





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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Finais iluminados


Pessoa de poucas palavras sempre fui. Certa vez vi uma frase de Dostoiévski que pareceu ter sido escrita por mim, tão grande era essa a sensação que sentia:
Eis a frase:
"Sou um mestre na arte de falar em silêncio. Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra."

Diante de papel e caneta, não é assim. As palavras jorram... este texto também é de maio de 2013.


FINAIS ILUMINADOS


Anoiteceu, depois de mais um dia de sol e calor no Rio. Lá do céu a luz da lua desce clareando a praça, iluminando as esquinas e afligindo meu peito. Esta mesma lua que também brilha no céu dos teus sonhos. Durante todo o dia o Largo da Segunda Feira, a Praça Saens Pena, a São Francisco Xavier - tudo era um imenso mar de tanta gente, andando prá todo lado. Risos, conversas altas, cheirinho de churros, de pipoca, crianças correndo. E eu ali, no meio de tudo isso - eu estava ali, mas também não estava. O peito apertado não entrava naquela barulhenta alegria... mas mesmo assim fiquei encantada quando vi a lua crescendo no céu, invadindo os jardins, iluminando mais um dia que termina. Então o ônibus chegou e a luz da lua também iluminou o final deste instante. Final de dia, final do instante. Com o choro guardado no peito vou prá casa, sob a luz da lua que iluminará outros finais, sabe-se lá quantos.



Crédito da Imagem: Fotografia de Roberta Soriano




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O trabalho Finais iluminados de http://infinitoparticulardalva.blogspot.com.br/ foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sábado, 21 de março de 2015

Quem me dará a mão?


Sempre gostei de papel e caneta. As palavras nunca foram o meu forte, pelo menos as faladas. Sou perita na arte de falar o que não devo, ou de não saber o que devo dizer. Por isso lápis e papel sempre foram uma forma de me expressar mais segura... Daí foram surgindo alguns textos. Este foi um dos primeiros que postei. É de maio de 2013:



Tem dor que não se aquieta nunca. É teimosa, insistente. Dor de amputação. Perde-se de si o pedaço mais querido, mais íntimo; daí então o sangue não para de correr nunca mais do buraco que ficou. Remexo nas lembranças, procuro um fato ocorrido, meio parecido, que me fizesse aprender a lidar com a dor, aprender a esquecer. Não encontro. Não sei lidar com ela, não com esta dor.  Vem-me então um trecho de Clarice, em sua Paixão segundo G.H.:  “... não sei o que fazer de ter vivido... estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão. Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.”  Leio e releio tanto que me distraio, e fico a cismar  - quem me dará a mão?



Licença Creative Commons
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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Renascer


"O amor dá as horas"..................... eu fico só esperando!




::: (re)nascer :::

Seu toque criou mundos e amores inteiros dentro de mim.

Guilherme Antunes


Imagem: Via conteoutra.com


Excessos



Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.

Graciliano Ramos



Crédito da imagem: A Goodnight Hug, Mary Cassatt. American (1844 - 1926) - pastel on brown paper

Bagagem



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus 

Nuno Júdice



via Fabrica de Escrita


domingo, 27 de abril de 2014

Domingo com poesia... e saudade II



vou-me embora com ar de borboleta triste, depois da chuva, e volto mais tarde de peito cheio de rosas.

Manuel Cintra


Domingo com poesia... e saudade



vinham ondas e ondas e mais ondas
rebentar dos teus nos meus olhos

Joaquim Manuel Magalhães


Eles x Elas



Samantha: "Como era ser casado?"
Theodore: "Era emocionante...Nós crescemos e mudamos juntos. Mas essa é a parte difícil. Mudar sem assustar o outro."

(do filme "Ela")

Somente a ti...



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus. 

Nuno Júdice 


Saudade de amar



Saudade, eu tenho saudade.
Mas não de contigo voltar.
Eu vivo sentindo saudade,
De amar

(Nana Caymmi, em Saudade de Amar)

.................

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo (...).
O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza. 
Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente. Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.

A felicidade é amor, só isto. Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito. 
Mas amar e desejar não é a mesma coisa. O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.O amor não quer possuir. O amor quer somente amar.

Hermann Hesse


Crédito da imagem: arte de Christina Nguyen





Será?

Alguns dizem que há controvérsias...


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Das coisas simples


AMAR É...


....
quando as diferenças não são mais capazes de separar.

J. de Bourbon Busset


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Beijo


Desconheço algo mais perfeito que o beijo. Também não sei de nada mais complexo. Qual medida determina a distância entre a troca de olhares e o primeiro beijo? A retenção do instinto pura e simplesmente, sendo racionalidade cautelar? Preconceitos instalados no eu mais clerical e ortodoxo?


No entanto, o tal ato sem precedentes e não arquitetado perderia, quase que de todo, vigor e fundamento. O beijo é uma mentira que ousa se fazer verdade. Uma repetição simples como o ato de comer e arriscada como a caça do alimento. O beijo é também fermento que se deve saber a medida exata para o confeito. 


Pois se feito sem feitio pode estragar a massa. Apesar disso, beijo é medida, mas é sem receita. Porque a mão, melhor, a boca é ato inconfessável como todo pecado deve ser. Algo que se ousa e se usa.  


Mesmo os mais tímidos já beijaram e, a partir destes, nem pense pensar o que pensaram. Dentro da boca há o céu. Disto sabe-se. Mas a delicia do seu inferno é que nos leva a paraíso prometido.


Cartão de visita? Não. Já é cama feita para o camafeu. Não se deixou de ir se não se foi até o fim. O que pode, no máximo, ocorrer é o desgosto. O muito gosto também pode nos fazer recuar, até fugir de medo. Medo de não mais pertencer a si mesmo. 


Medo do retorno dolorido ou improvável ou da própria viagem rumo ao desconhecido.  


de Aluísio Martins, aqui

Bom final de semana e... beije muito!!!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012


"Mas o melhor do abraço não é a ideia dos braços facilitarem o encontro dos corpos.
O melhor do abraço é a sutileza dele. A mística dele. A poesia.


fotografia daqui

O segredo de literalmente aproximar um coração do outro para
conversarem no silêncio que dá descanso à palavra.
O silêncio onde tudo é dito sem que nenhuma letra precise se juntar à outra.
O melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos.
A mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante."

Ana Jácomo



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma imagem vale mais que mil palavras




Ah... o amor, sempre o amor...!


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Uma imagem vale mais que mil palavras




"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
Friedrich Nietzsche

Desconheço a autoria da imagem

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Romeu e Julieta


De Luis Fernando Veríssimo:


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Ahhh...o amor! Sabem porque Romeu e Julieta são ícones do amor? São falados e lembrados, atravessaram os séculos incólumes no tempo, se instalando no mundo de hoje como casal modelo de amor eterno?
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Porque morreram e não tiveram tempo de passar pelas adversidades a que os relacionamentos estão sujeitos pela vida afora. Senão provavelmente Romeu estaria hoje com a Manoela e Julieta com o Ricardão.
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Romeu nunca traiu a Julieta numa balada com uma loira linda e siliconada motivado pelo impulso do álcool. Julieta nunca ficou 5 horas seguidas esperando Romeu, fumando um cigarro atrás do outro, ligando incessantemente para o celular dele que estava desligado. Romeu não disse para Julieta que a amava, que ela era especial e depois sumiu por semanas. Julieta não teve a oportunidade de mostrar para ele o quanto ficava insuportável na TPM. Romeu não saia sexta feira a noite para jogar futebol com os amigos e só voltava as 6:00 da manhã bêbado e com um sutiã perdido no meio da jaqueta (que não era da Julieta).
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Julieta não teve filhos, não engordou, nem ficou cheia de estrias e celulite e histérica com muita coisa para fazer. Romeu não disse para Julieta que precisava de um tempo, que estava confuso, querendo na verdade curtir a vida e que ainda era muito novo para se envolver definitivamente com alguém. Julieta não tinha um ex-namorado em quem ela sempre pensava ficando por horas distante, deixando Romeu com a pulga atrás da orelha.
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Romeu nunca deixou de mandar flores para Julieta no dia dos namorados alegando estar sem dinheiro. Julieta nunca tomou um porre fenomenal e num momento de descontrole bateu na cara do Romeu no meio de um bar lotado. Romeu nunca duvidou da virgindade da Julieta. Julieta nunca ficou com o melhor amigo de Romeu. Romeu nunca foi numa despedida de solteiro com os amigos num prostíbulo. Julieta nunca teve uma crise de ciúme achando que Romeu estava dando mole para uma amiga dela.
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Romeu nunca disse para Julieta que na verdade só queria sexo e não um relacionamento sério, ela deve ter confundido as coisas. Julieta nunca cortou dois dedos de cabelo e depois teve uma crise porque Romeu não percebeu a mudança. Romeu não tinha uma ex-mulher que infernizava a vida da Julieta. Julieta nunca disse que estava com dor de cabeça e virou para o lado e dormiu. Romeu nunca chegou para buscar a Julieta com uma camisa xadrez horrível de manga curta e um sapato para lá de ultrapassado, deixando-a sem saber onde enfiar a cara de vergonha...Por essas e por outras é que eles morreram se amando...
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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Dar sem medida



Economizar amor é avareza. Coisa de quem funciona na frequência da escassez. De quem tem medo de gastar sentimento e lhe faltar depois. É terrível viver contando moedinhas de afeto. Há amor suficiente. Há amor para todo mundo. Há amor para quem quer se conectar com ele. Não perdemos quando damos: ganhamos junto.

Ana Jácomo


Amor: quanto mais se dá, mais se tem...


Bom final de semana!

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