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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Finais iluminados


Pessoa de poucas palavras sempre fui. Certa vez vi uma frase de Dostoiévski que pareceu ter sido escrita por mim, tão grande era essa a sensação que sentia:
Eis a frase:
"Sou um mestre na arte de falar em silêncio. Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra."

Diante de papel e caneta, não é assim. As palavras jorram... este texto também é de maio de 2013.


FINAIS ILUMINADOS


Anoiteceu, depois de mais um dia de sol e calor no Rio. Lá do céu a luz da lua desce clareando a praça, iluminando as esquinas e afligindo meu peito. Esta mesma lua que também brilha no céu dos teus sonhos. Durante todo o dia o Largo da Segunda Feira, a Praça Saens Pena, a São Francisco Xavier - tudo era um imenso mar de tanta gente, andando prá todo lado. Risos, conversas altas, cheirinho de churros, de pipoca, crianças correndo. E eu ali, no meio de tudo isso - eu estava ali, mas também não estava. O peito apertado não entrava naquela barulhenta alegria... mas mesmo assim fiquei encantada quando vi a lua crescendo no céu, invadindo os jardins, iluminando mais um dia que termina. Então o ônibus chegou e a luz da lua também iluminou o final deste instante. Final de dia, final do instante. Com o choro guardado no peito vou prá casa, sob a luz da lua que iluminará outros finais, sabe-se lá quantos.



Crédito da Imagem: Fotografia de Roberta Soriano




Licença Creative Commons
O trabalho Finais iluminados de http://infinitoparticulardalva.blogspot.com.br/ foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dizendo adeus... até quando?



Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'



Crédito da Imagem: Google


Separações



"Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa para ocupar o tempo, um banco de almofadas coloridas, e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banco do nosso amor, do nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a não sei quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas." 

Rita Apoena



Imagem: Google

terça-feira, 15 de maio de 2012

Esperança


Hoje é dia da Blogagem Coletiva "Amor aos Pedaços" em sua 3ª fase com o tema “ESPERANÇA”, que tive conhecimento através do Blog Luz de Luma.


Não tive oportunidade de participar das duas fases iniciais da blogagem pois estava vivendo o meu luto. Meu marido, com quem fui casada durante 32 anos, partiu em fevereiro, vítima de um infarto. Hoje, quase três meses depois, estou vivendo ainda a fase do desencanto em busca de esperança para recomeçar.

Vivi, logo no início, a fase de reconhecer que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Minha vida não seria mais a mesma. Esta é a realidade da perda. O que eu amava, o que me era tão familiar não fazia mais parte da minha vida. E o mundo me chamava urgentemente a continuar, a olhar a realidade das coisas que não mudam, que são e sempre serão as mesmas. No meio deste turbilhão muitas vezes tive vontade de gritar: "As coisas são diferentes, agora!" 
Trabalhar, andar pela rua, falar com as pessoas, ler um livro, ver um filme - pequenos afazeres que deviam ser terapêuticos - foram, na verdade, obstáculos que tive que vencer dia após dia.


E a vida vai passando como um trem. Os dias se sucedem como vagões, cada qual com sua carga. Uns dias mais fáceis, outros mais difíceis. Há dias em que a mágoa se intensifica e fico me achando... sou aquela que a dor escolheu. Como não pensar: “o que eu fiz para merecer tal sofrimento” - ou ainda: “o que o meu amor fez para merecer o sofrimento e a morte?” Racionalmente eu sei que, de fato, o que acontece na vida é muito diferente daquilo que julgamos bom e justo. No plano emocional, tudo é muito diferente...

"A chuva não cai sobre você; a chuva cai, apenas."
(autoria desconhecida)



O choro nos traz algum alívio, mas não traz respostas. Podemos contar a história tantas e tantas vezes, mas a fonte da dor não seca. Não existe uma resposta, não existe uma solução, não existe volta para essa coisa chamada morte. Só nos resta aceitá-la.

Vivi também a fase de preservar o tempo para recordar e render tributo à todas as lembranças. Viver o luto não é querer esquecer, apagar as memórias, mas aprender a lidar com elas para que não causem tanta dor. Honrar o amor que partilhamos, amor com o qual fomos abençoados. Estou aprendendo que não preciso ver com os meus olhos para saber que aquele que amo está a salvo no meu coração. 

"Você não está curado, mas... um dia - uma idéia que o deixa horrorizado agora - esse infortúnio intolerável tornar-se-á a abençoada lembrança de um ser que nunca o deixará de novo."
(Marcel Proust)

Apesar da dor, no instante em que as lembranças chegam, sinto como se toda perda e pesar se dissipassem... Nossa relação foi forte e bonita, e tenho um grande tesouro de boas lembranças que dão vida, e que sempre posso tirar do baú.

Sou grata porque sei que o amor é mais forte que a morte. A vida que partilhamos é algo para ser celebrado, para ser lembrado. 


"Você não entende porque a gente chora diante da beleza? A resposta é simples. Ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de eternidade. Tudo o que a gente ama a gente deseja que permaneça para sempre. Mas tudo o que a gente ama existe sob a marca do tempo. Tudo é efêmero. Efêmero é o por do sol, efêmera é a canção, efêmero é o abraço, efêmera é a casa construída para o resto da vida. A gente chora diante da beleza porque a beleza é uma metáfora da própria vida."
(Rubem Alves)

Depois do grande impacto da tristeza, depois que a onda de dor me faz tremer os joelhos, chegou-me uma outra constatação cruel: os golpes continuam: é perda... atrás de perda... atrás de perda. É como um efeito dominó: não foi só a pessoa que eu amo que partiu - foram-se embora também nossos sonhos, nossos projetos. Os planos que fizemos nunca se tornarão realidade. As esperanças que tínhamos se foram. Todo o futuro que imaginamos não acontecerá.

Sim, as coisas estão mesmo muito diferentes. Sempre fui uma pessoa reservada mas, ultimamente, tenho me valido da força, da esperança e da paz das pessoas que me cercam. É uma forma de refazer minhas próprias forças, fortalecer minha esperança e encontrar um pouco de paz. Uma espécie de simbiose. Coragem, força, esperança, fé, paz, saúde: são coisas que vem e vão. Sinto-me como se estivesse carregando minhas energias na energia das pessoas mais próximas... até recobrar minhas próprias forças. Amigos e familiares têm sido grandes reservatórios de todas estas necessidades.

Algumas vezes a presença é tudo. Neste momento de lágrimas e dores, tenho necessidade do consolo dos amigos, dos vizinhos, dos colegas de trabalho, dos familiares, de todos... e também de vocês.

"Sem amigos, o mundo é apenas um deserto... Não há homem que, ao confiar alegrias a um amigo, não se alegre ainda mais; não há homem que, ao confiar os seus desgostos, não fique mais aliviado."
(Francis Bacon)


Tenho esperança de que, com o tempo (este tem passado, mas meu sentimento não...) tudo isto que me  parece tão diferente agora se torne, a cada dia, pouco diferente e, daqui há mais algum tempo, o pouco diferente se torne completamente normal...

Acho que quando você faz a opção de viver o luto, de deixar a dor doer o que tiver que doer, de deixar rolar todas as lágrimas que é capaz de produzir, de cair de joelhos, de gritar, de deixar a raiva fluir - até o coração cansar - naturalmente, com o passar do tempo, o coração ainda dói mas pouco a pouco você percebe que está começando a olhar mais para frente do que para trás... e  começa a esperar com... esperança.

São os primeiros sinais da primavera da alma, que precisam seriamente da minha atenção. Preciso cultivar cada brotinho de esperança que nasce, e deixar que ela atravesse as estações do ano, lembrando-me sempre dos ritmos naturais da morte e da vida, da primavera que chega após cada inverno, da promessa de vida nova que pulsa em meu sangue depois de cada estocada de dor no meu coração.



Que maio me traga todos os sorrisos que abril me roubou.
Que venha com bons ventos que me traga sorte e amor,
que não me deixe sofrer por favor. 
Que esse mês tudo dê certo.
(Caio Fernando Abreu)

Eu sei que dentro do meu amor existe um amor ainda maior. Eu creio que, além deste mundo existe um outro mundo. Preciso ser forte e me apegar a esta esperança. Sei que ela não faz minha dor passar mas, de uma certa forma, a torna mais suportável... Um dia estaremos juntos novamente.

"Não conseguindo encontrar-me no início, tenha coragem;
Não me encontrando num lugar, procure em outro;
Estou parado nalgum ponto à sua espera."
(Walt Whitman)

"A esperança é tanto uma dádiva quanto uma escolha. Pedimos por ela e escolhemos como usá-la."
(Bonnie O. Miller)

Que a esperança - seja ela o que e quem for, seja ela que nome tiver - esteja sempre ao meu lado...
... quando estiver perdida, que me ajude a encontrar o caminho;
... quando estiver cansada, que seja minha força;
... quando estiver assustada, que seja o meu conforto.

Você pode dar a esperança o nome que quiser. A ela eu dou o nome de DEUS.


Crédito das fotografias, respectivamente:
"The sun sets beyond and reflects on Cochinos Bay", de Walter D. Wilcox
"Sunshine breaking through storm clouds", de Ralf Schultheiss
"Alaska. Cook Inlet. Sharp silhouette of the Barren Islands at dusk", de Ken Grahan
"Italy, View of Lake Garda at sunset", de Michel Reusse


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Efeito dominó



Você não entende porque a gente chora diante da beleza?
A resposta é simples.
Ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de eternidade.
Tudo o que a gente ama a gente deseja
que permaneça para sempre.
Mas tudo o que a gente ama existe
sob a marca do tempo.
Tudo é efêmero.
Efêmero é o por do sol, efêmera é a canção,
efêmero é o abraço,
efêmera é a casa construída para o resto da vida.
A gente chora diante da beleza
porque a beleza é uma metáfora
da própria vida.

Rubem Alves



Depois do grande impacto da tristeza, depois que a onda de dor me faz tremer os joelhos, chega-me uma outra constatação cruel: os golpes continuam: é perda... atrás de perda... atrás de perda. É como um efeito dominó: não foi só a pessoa que eu amo que partiu - foram-se embora também nossos sonhos, nossos projetos. Os planos que fizemos nunca se tornarão realidade. As esperanças que tínhamos se foram. Todo o futuro que imaginamos não acontecerá.



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Esperança




"Não conseguindo encontrar-me no início, tenha coragem;
Não me encontrando num lugar, procure em outro;
Estou parado nalgum ponto à sua espera."
(Walt Whitman)

Eu sei que dentro do meu amor existe um amor ainda maior. Eu creio que, além deste mundo existe um outro mundo. Preciso ser forte e me apegar a esta esperança. Sei que ela não faz minha dor passar, mas de uma certa forma a torna mais suportável... Um dia estaremos juntos novamente.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Razão x emoção



A vida tem passado como um trem. Os dias se sucedem como vagões, cada qual com sua carga. Uns dias mais fáceis, outros mais difíceis. Há dias, como o de hoje, em que a mágoa se intensifica e fico me achando... sou aquela que a dor escolheu. Como não pensar: o que eu fiz para merecer tal sofrimento - ou ainda: o que o meu amor fez para merecer o sofrimento e a morte? Racionalmente eu sei que, de fato, o que acontece na vida é muito diferente daquilo que julgamos bom e justo. No plano emocional, tudo é muito diferente...

"A chuva não cai sobre você; a chuva cai, apenas."
(autoria desconhecida)

domingo, 22 de abril de 2012

Memória



Preservo este tempo para lembrar e render tributo à todas as lembranças. Não quero esquecer, apagar minhas memórias. Quero apenas que elas não causem tanta dor. Quero preservar as boas recordações. Honrar o amor que partilhamos, amor com o qual fomos abençoados. Estou aprendendo que não preciso ver com os meus olhos para saber que aquele que amo está a salvo no meu coração. 

"Você não está curado, mas... um dia - uma ideia que o deixa horrorizado agora - esse infortúnio intolerável tornar-se-á a abençoada lembrança de um ser que nunca o deixará de novo."
(Marcel Proust)

Apesar da dor, no instante em que as lembranças chegam, sinto como se toda perda e pesar se dissipassem... Nossa relação foi forte e bonita, e tenho um grande tesouro de boas lembranças que dão vida, e que posso sempre tirar do baú.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Simbiose



Como eu disse no início desta semana, as coisas estão mesmo muito diferentes. Sempre fui uma pessoa reservada mas, ultimamente, tenho me valido da força, da esperança e da paz das pessoas que me cercam. É uma forma de refazer minhas próprias forças, fortalecer minha esperança e encontrar um pouco de paz.  Coragem, força, esperança, fé, paz, saúde: são coisas que vem e vão. Sinto-me como se estivesse carregando minhas energias na energia das pessoas mais próximas... até recobrar minhas próprias forças. Amigos e familiares têm sido grandes reservatórios de todas estas necessidades.

Algumas vezes a presença é tudo. Neste momento de lágrimas e dores, tenho necessidade do consolo dos amigos, dos vizinhos, dos colegas de trabalho, dos familiares, de todos... e também de vocês.

"Sem amigos, o mundo é apenas um deserto... Não há homem que, ao confiar alegrias a um amigo, não se alegre ainda mais; não há homem que, ao confiar os seus desgostos, não fique mais aliviado."
(Francis Bacon)



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Necessidades básicas



Certa vez alguém disse que, na vida, todos nós precisamos de três coisas simples: alguma coisa para fazer, alguém para amar e alguma coisa pelo que esperar.  Sinto-me como se tivesse perdido essas três necessidades básicas ao mesmo tempo. Uma me foi tirada, e as outras estão ameaçadas. 

É hora de fazer um levantamento do que me restou. Enumerar as coisas que ainda posso fazer, as pessoas com as quais posso contar e amar... e o mais importante: acreditar que ainda existem boas coisas pelas quais posso esperar: mas isso diz respeito ao amanhã. Hoje é o dia com o qual me preocupo mais.

Como exercício tenho me proposto, a cada semana que começa, pegar a agenda e escrever como pretendo passar o sábado e o domingo que terei pela frente. É uma forma que encontrei de me amparar e me ajudar.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Perda



Tem sido muito difícil para mim continuar com as postagens do blog. Tentei, mas não tenho conseguido. Encontro dificuldade em me comunicar. Minhas formas de expressão tem sido outras. Sei que os leitores esperam postagens criativas e edificantes, mas estou num caminho de cura, e poucas coisas têm me motivado. Encontro mais facilidade de me expressar no meu blog de poesias, já que através delas posso expor minha sensibilidade, me ajudando a encontrar palavras e meios de expressar minha tristeza, minha raiva, minha solidão: sentimentos dolorosos que tem me acompanhado de bem perto.

Peço desculpa aos leitores, mas o Infinito Particular vai mudar, pelo menos por enquanto, o teor de suas postagens. Por enquanto preciso escrever sobre a minha perda.

As coisas não serão mais as mesmas. Minha vida não será mais a mesma. Esta é a realidade da perda. O que eu amava, o que me era tão familiar não faz mais parte da minha vida. E o mundo me chama urgentemente a continuar, a olhar a realidade das coisas que não mudam, que são e sempre serão as mesmas. No meio deste turbilhão tenho vontade de gritar: "As coisas são diferentes, agora!" 

Trabalhar, andar pela rua, falar com as pessoas, ler um livro, ver um filme - pequenos afazeres que deviam ser terapêuticos - são, na verdade, um obstáculo a vencer. 

"Muita paz há nos pequenos afazeres."
(Chaucer)

Mas tenho esperança de que, com o tempo (este tem passado, mas meu sentimento não...) tudo isto que me parece tão diferente agora se torne, a cada dia, pouco diferente e, daqui há mais algum tempo, o pouco diferente se torne completamente normal...


domingo, 26 de julho de 2009

Perder a ilusão

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"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
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Miguel Sousa Tavares
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Rabiscos

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"E eu que me contentava com risco de giz na lousa, nem desconfiava da vastidão do verbo riscar. Riscar palavras que sobram nos poemas, riscar pessoas que me machucaram, riscar o medo. Aquele medo que era do tamanho do meu desejo. Vontade de arriscar."
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Gisela Gold
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domingo, 26 de abril de 2009

A dor da despedida

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."Foram-se os belos, os ternos, os bravos. Foram docemente, em silêncio, alimentar as rosas.
Elegante, curva-se o botão, e é perfumado, eu sei.
.Mas não aprovo, e não me conformo:
a luz dos teus olhos era mais preciosa do que todas as rosas deste mundo."
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Edna St. Vincent Millay
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quinta-feira, 12 de março de 2009

Coisas que perdemos

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"As coisas se desprenderam de mim. Eu prolonguei certos desejos; eu perdi amigos, alguns para a morte... outros pela incapacidade de atravessar a rua.”
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Virgínia Woolf
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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Lantejoulas e purpurina

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Sabe, para mim a vida é um punhado de lantejoulas e purpurina que o vento sopra.
Daqui a pouco tudo vai ser passado mesmo - deixa o vento soprar,
let it be,
fique pelo menos com o gostinho de ter brilhado um pouco....
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Caio Fernando Abreu
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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Estação das perdas

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Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: as perdas do ser humano.
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Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos.
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Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói.
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E continuamos a perder e seguimos a ganhar. Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas por que alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair... E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por que? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás.
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Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer. Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros. Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres. Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso. Receamos dar risadas escandalosamente da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as pelanquinhas do braço da vó com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto. Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos.
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E vamos adolescendo; ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pelos, ganhamos altura, ganhamos o mundo. Neste ponto, vivemos em grande conflito.
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O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos... Ah! Os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo. Aí, de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo, todos nos admiram. Tornamos-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?
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E continuamos amadurecendo ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer. Mas perdemos peso!!! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos-lhe aquele beijo estalado, mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias,
títulos honorários e a chave da cidade. E assim, vamos ganhando tempo enquanto envelhecemos.
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De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso e perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir. Perdemos a esperança. Estamos envelhecendo. Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo. Afinal, sempre haverá um renascer... pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede.
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Que a gente cresça e não envelheça simplesmente. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie. Que tenhamos rugas e boas lembranças. Que tenhamos juízo, mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia. Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos. E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados. Afinal, o que é o tempo?
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Aila Magalhães
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