Hoje é dia da Blogagem Coletiva "Amor aos Pedaços" em sua 3ª fase com o tema
“ESPERANÇA”, que tive conhecimento através do
Blog Luz de Luma.
Não tive oportunidade de participar das duas fases iniciais da blogagem pois estava vivendo o meu luto. Meu marido, com quem fui casada durante 32 anos, partiu em fevereiro, vítima de um infarto. Hoje, quase três meses depois, estou vivendo ainda a fase do desencanto em busca de esperança para recomeçar.
Vivi, logo no início, a fase de reconhecer que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Minha vida não seria mais a mesma. Esta é a realidade da perda. O que eu amava, o que me era tão familiar não fazia mais parte da minha vida. E o mundo me chamava urgentemente a continuar, a olhar a realidade das coisas que não mudam, que são e sempre serão as mesmas. No meio deste turbilhão muitas vezes tive vontade de gritar: "As coisas são diferentes, agora!"
Trabalhar, andar pela rua, falar com as pessoas, ler um livro, ver um filme - pequenos afazeres que deviam ser terapêuticos - foram, na verdade, obstáculos que tive que vencer dia após dia.
E a vida vai passando como um trem. Os dias se sucedem como vagões, cada qual com sua carga. Uns dias mais fáceis, outros mais difíceis. Há dias em que a mágoa se intensifica e fico me achando... sou aquela que a dor escolheu. Como não pensar: “o que eu fiz para merecer tal sofrimento” - ou ainda: “o que o meu amor fez para merecer o sofrimento e a morte?” Racionalmente eu sei que, de fato, o que acontece na vida é muito diferente daquilo que julgamos bom e justo. No plano emocional, tudo é muito diferente...
"A chuva não cai sobre você; a chuva cai, apenas."
(autoria desconhecida)
O choro nos traz algum alívio, mas não traz respostas. Podemos contar a história tantas e tantas vezes, mas a fonte da dor não seca. Não existe uma resposta, não existe uma solução, não existe volta para essa coisa chamada morte. Só nos resta aceitá-la.
Vivi também a fase de preservar o tempo para recordar e render tributo à todas as lembranças. Viver o luto não é querer esquecer, apagar as memórias, mas aprender a lidar com elas para que não causem tanta dor. Honrar o amor que partilhamos, amor com o qual fomos abençoados. Estou aprendendo que não preciso ver com os meus olhos para saber que aquele que amo está a salvo no meu coração.
"Você não está curado, mas... um dia - uma idéia que o deixa horrorizado agora - esse infortúnio intolerável tornar-se-á a abençoada lembrança de um ser que nunca o deixará de novo."
(Marcel Proust)
Apesar da dor, no instante em que as lembranças chegam, sinto como se toda perda e pesar se dissipassem... Nossa relação foi forte e bonita, e tenho um grande tesouro de boas lembranças que dão vida, e que sempre posso tirar do baú.
Sou grata porque sei que o amor é mais forte que a morte. A vida que partilhamos é algo para ser celebrado, para ser lembrado.
"Você não entende porque a gente chora diante da beleza? A resposta é simples. Ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de eternidade. Tudo o que a gente ama a gente deseja que permaneça para sempre. Mas tudo o que a gente ama existe sob a marca do tempo. Tudo é efêmero. Efêmero é o por do sol, efêmera é a canção, efêmero é o abraço, efêmera é a casa construída para o resto da vida. A gente chora diante da beleza porque a beleza é uma metáfora da própria vida."
(Rubem Alves)
Depois do grande impacto da tristeza, depois que a onda de dor me faz tremer os joelhos, chegou-me uma outra constatação cruel: os golpes continuam: é perda... atrás de perda... atrás de perda. É como um efeito dominó: não foi só a pessoa que eu amo que partiu - foram-se embora também nossos sonhos, nossos projetos. Os planos que fizemos nunca se tornarão realidade. As esperanças que tínhamos se foram. Todo o futuro que imaginamos não acontecerá.
Sim, as coisas estão mesmo muito diferentes. Sempre fui uma pessoa reservada mas, ultimamente, tenho me valido da força, da esperança e da paz das pessoas que me cercam. É uma forma de refazer minhas próprias forças, fortalecer minha esperança e encontrar um pouco de paz. Uma espécie de simbiose. Coragem, força, esperança, fé, paz, saúde: são coisas que vem e vão. Sinto-me como se estivesse carregando minhas energias na energia das pessoas mais próximas... até recobrar minhas próprias forças. Amigos e familiares têm sido grandes reservatórios de todas estas necessidades.
Algumas vezes a presença é tudo. Neste momento de lágrimas e dores, tenho necessidade do consolo dos amigos, dos vizinhos, dos colegas de trabalho, dos familiares, de todos... e também de vocês.
"Sem amigos, o mundo é apenas um deserto... Não há homem que, ao confiar alegrias a um amigo, não se alegre ainda mais; não há homem que, ao confiar os seus desgostos, não fique mais aliviado."
(Francis Bacon)
Tenho esperança de que, com o tempo (este tem passado, mas meu sentimento não...) tudo isto que me parece tão diferente agora se torne, a cada dia, pouco diferente e, daqui há mais algum tempo, o pouco diferente se torne completamente normal...
Acho que quando você faz a opção de viver o luto, de deixar a dor doer o que tiver que doer, de deixar rolar todas as lágrimas que é capaz de produzir, de cair de joelhos, de gritar, de deixar a raiva fluir - até o coração cansar - naturalmente, com o passar do tempo, o coração ainda dói mas pouco a pouco você percebe que está começando a olhar mais para frente do que para trás... e começa a esperar com... esperança.
São os primeiros sinais da primavera da alma, que precisam seriamente da minha atenção. Preciso cultivar cada brotinho de esperança que nasce, e deixar que ela atravesse as estações do ano, lembrando-me sempre dos ritmos naturais da morte e da vida, da primavera que chega após cada inverno, da promessa de vida nova que pulsa em meu sangue depois de cada estocada de dor no meu coração.
Que maio me traga todos os sorrisos que abril me roubou.
Que venha com bons ventos que me traga sorte e amor,
que não me deixe sofrer por favor.
Que esse mês tudo dê certo.
(Caio Fernando Abreu)
Eu sei que dentro do meu amor existe um amor ainda maior. Eu creio que, além deste mundo existe um outro mundo. Preciso ser forte e me apegar a esta esperança. Sei que ela não faz minha dor passar mas, de uma certa forma, a torna mais suportável... Um dia estaremos juntos novamente.
"Não conseguindo encontrar-me no início, tenha coragem;
Não me encontrando num lugar, procure em outro;
Estou parado nalgum ponto à sua espera."
(Walt Whitman)
"A esperança é tanto uma dádiva quanto uma escolha. Pedimos por ela e escolhemos como usá-la."
(Bonnie O. Miller)
Que a esperança - seja ela o que e quem for, seja ela que nome tiver - esteja sempre ao meu lado...
... quando estiver perdida, que me ajude a encontrar o caminho;
... quando estiver cansada, que seja minha força;
... quando estiver assustada, que seja o meu conforto.
Você pode dar a esperança o nome que quiser. A ela eu dou o nome de
DEUS.
Crédito das fotografias, respectivamente:
"The sun sets beyond and reflects on Cochinos Bay", de Walter D. Wilcox
"Sunshine breaking through storm clouds", de Ralf Schultheiss
"Alaska. Cook Inlet. Sharp silhouette of the Barren Islands at dusk", de Ken Grahan
"Italy, View of Lake Garda at sunset", de Michel Reusse