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terça-feira, 9 de junho de 2020

Amar o que sou

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Amar o que eu sou,
Todo indivisível que constitui o ser e o acontecer do meu corpo, no espaço e no tempo.
Amar as coisas que eu estou fazendo e o modo como eu as faço.
Amar as minhas limitações, como amo as minhas possibilidades.
E nos meus acertos e erros, amar o projeto que vai se transformando em obra no trabalho da construção de mim mesmo.
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Amar-me como eu estou aqui e agora, vivendo a vida simplesmente, naturalmente, com o ar que eu respiro, o chão que eu piso, as estrelas que eu sonho.
Às vezes gostar de mim é um desafio, uma prova de fogo que revela se eu realmente me amo, ou apenas finjo amar-me.
Gostar de mim na perda, quando a vida me fecha uma porta, sem nenhum aviso ou explicação.
Gostar de mim quando erro, quando fracasso, quando não dou conta, quando não faço bem feito e ainda encontro quem me critique ou zombe de mim por eu ter sido apenas o que sou:
- limitado, vulnerável, imperfeito, humano.
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Gostar de mim no fundo do poço, cabeça a mil, coração a zero,
e ainda assim ser capaz de ouvir e respeitar as referências do meu próprio corpo como um amigo fiel, atento e carinhoso.
Eu me relaciono com as outras pessoas do mesmo modo como eu me relaciono comigo.
Se eu me amo, não sei te odiar.
Se eu me odeio, não sei te amar.
Se eu me desprezo, não sei te respeitar.
Se eu me respeito, não sei te desprezar.
Como eu te aceitar, se eu me rejeito?
Como eu te rejeitar, se eu me aceito?
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Celebro no amor a mim mesmo o nascimento do amor pelo meu próximo!
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Geraldo Eustáquio de Souza



Imagem da Web



 

Recomece...




Partir para uma nova etapa de vida,
é um momento deflagrador
que nos permite como as cobras,
sair da nossa própria pele e ressurgir em outra nova.
Se a imagem é forte,
bem mais fortes foram os momentos vividos
enquanto ia perdendo a pele antiga.

Anna Geruzia Ferraz Bittencourt 





Desconheço a autoria da imagem


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Mapas da alma



Fotografia de Raul Alexandre

À primeira vista, o mundo parece uma multidão de solidões amontoadas, todos contra todos, salve-se quem puder; mas o sentido comum, o sentido comunitário, é um bichinho duro de matar. A esperança ainda tem quem a espere, alentada pelas vozes que ressoam desde nossa origem comum e nossos assombrosos espaços de encontro.

Eu não conheço felicidade maior que a alegria de reconhecer-me nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também me reconhecer em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos.

Os mapas da alma não têm fronteiras.

Eduardo Galeano


sábado, 2 de maio de 2020

Cartas ao "Eu"

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Meu caro eu, meu obscuro poeta, se as portas se fecham, acalme o coração que o tudo deseja. (Deixe supurar todo o mar da fúria.) Eu sou esta fúria espalmada , sou aquele caracol, aquela abelha, que de seu limbo escapam . Um certo ângulo da alma, um certo abismo que lhe chama. Mas não se deixe engolir por esta força que lhe toma. Aceite, escreva, e cale. Sossegue o coração, lesmas, abelhas, abismos, não são propriamente aos quinze minutos de fama destinados. Mas e então ?
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Se a poesia chama, apesar dos ‘nãos’, empenhe-se em colocá-la para fora com as ferramentas que lhe cabem. E aos ouvidos que lhe pedem, fale. Alguma boa alma haverá que lhe adote. E basta. Entre em bom termos com a mágoa. Que a sua alma acolha mais e mais a dor dos elefantes. E nestes tempos tão ecologicamente alarmantes temos que entender que talvez não reste um futuro leitor para orbitar às nossas vaidades. Então, chegue-se mais a mim, a sua secreta verdade. Sinta como é bom poder acordar consigo próprio, abrir as janelas, ler seus jornais, carregar seus hábitos. Pernoitar no coração dos amigos que lhe sentem, lhe apalpam. (São eles seus termômetros , suas asas.)
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Vá ao seu quintal, ame suas flores, observe aquela luz que as ilumina e se transfigura em sua alma. A beleza são estes achados , uma certo conciliar entre um sentido que enxerga e as inesgotáveis manifestações da alteridade. É este paradoxo encantado, esta ilusão que nos diz que não existimos sem o mundo e o mundo não vive sem nossos olhos. Expresse-a, a beleza que corta a alma, estas fatias da dor que dói calma. E reme o barco.
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No mais, os dias passam, o sol diminui no ocaso o seu passo , e tudo volta, com a nova luz ao seu antigo hábito. Ah, escreva para os elefantes. (Dizem que eles não esquecem.) Assim sua alma inteira irá se aquietando em sua casa. Como as tardes emudecendo os ruídos, após as tempestades.
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Fernando Campanella



sábado, 25 de abril de 2020

Despedida

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E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste.
Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim,
uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval —
uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão.
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É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais.
Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado —
sem glória nem humilhação.
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Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa;
que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades;
nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento
de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.”
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Rubem Braga
in "A Traição das Elegantes"



Crédito da imagem: Obvius Lounge





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domingo, 22 de maio de 2016

Olhos de nada




"Ela entrou no ônibus. Sentou-se. Ligou sua música, e foi. Todo dia, no caminho, a menina ia cantado, mesmo que sem som. Gostava sempre de reparar as pessoas, e notava que, normalmente, todas pareciam ter a mesma expressão facial de “nada”. 

Foi quando o Sol começou a mágica brincadeirinha de se esconder, e encheu a visão da menina de cores e o coração de sonhos e esperança. Alguns pássaros surgiram passarinhando em “V” em direção ao Sol, e levaram todas as tristezas da mocinha para bem longe! Os olhos da menina queriam acompanhá-los até lá, até o final, afinal não é todo dia que a tristeza vai embora. E assim fizeram, não desgrudaram um minuto dos belos passarinhos que iam em perfeita sincronia em direção ao céu colorido. 

Foi quando a menina se deparou com um daqueles olhares de “nada”, o qual ela imaginava não mais existir depois de tão belo espetáculo bem a frente de todos os olhos presentes naquele caminho. Porém, lá estavam eles. Todos os olhares vagos e tristes, em especial o de uma mulher. Um olhar de quem julgava louca a menina que se curvou toda pra ver um pôr-do-sol e uns pássaros: coisa que se vê todo dia." 

Rita Apoena


Crédito da imagem: daqui



quinta-feira, 5 de maio de 2016

Sobre a tal tolerância



Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? 
Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? 
O problema é que tenho de continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar este computador, se eu quiser dar descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. 
Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. 
E horror é uma gentileza. 

Charles Bukowski




Crédito da imagem: encontrada no Google, sob o nome de Sede de Camomila neste site

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Finais iluminados


Pessoa de poucas palavras sempre fui. Certa vez vi uma frase de Dostoiévski que pareceu ter sido escrita por mim, tão grande era essa a sensação que sentia:
Eis a frase:
"Sou um mestre na arte de falar em silêncio. Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra."

Diante de papel e caneta, não é assim. As palavras jorram... este texto também é de maio de 2013.


FINAIS ILUMINADOS


Anoiteceu, depois de mais um dia de sol e calor no Rio. Lá do céu a luz da lua desce clareando a praça, iluminando as esquinas e afligindo meu peito. Esta mesma lua que também brilha no céu dos teus sonhos. Durante todo o dia o Largo da Segunda Feira, a Praça Saens Pena, a São Francisco Xavier - tudo era um imenso mar de tanta gente, andando prá todo lado. Risos, conversas altas, cheirinho de churros, de pipoca, crianças correndo. E eu ali, no meio de tudo isso - eu estava ali, mas também não estava. O peito apertado não entrava naquela barulhenta alegria... mas mesmo assim fiquei encantada quando vi a lua crescendo no céu, invadindo os jardins, iluminando mais um dia que termina. Então o ônibus chegou e a luz da lua também iluminou o final deste instante. Final de dia, final do instante. Com o choro guardado no peito vou prá casa, sob a luz da lua que iluminará outros finais, sabe-se lá quantos.



Crédito da Imagem: Fotografia de Roberta Soriano




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O trabalho Finais iluminados de http://infinitoparticulardalva.blogspot.com.br/ foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sábado, 21 de março de 2015

Quem me dará a mão?


Sempre gostei de papel e caneta. As palavras nunca foram o meu forte, pelo menos as faladas. Sou perita na arte de falar o que não devo, ou de não saber o que devo dizer. Por isso lápis e papel sempre foram uma forma de me expressar mais segura... Daí foram surgindo alguns textos. Este foi um dos primeiros que postei. É de maio de 2013:



Tem dor que não se aquieta nunca. É teimosa, insistente. Dor de amputação. Perde-se de si o pedaço mais querido, mais íntimo; daí então o sangue não para de correr nunca mais do buraco que ficou. Remexo nas lembranças, procuro um fato ocorrido, meio parecido, que me fizesse aprender a lidar com a dor, aprender a esquecer. Não encontro. Não sei lidar com ela, não com esta dor.  Vem-me então um trecho de Clarice, em sua Paixão segundo G.H.:  “... não sei o que fazer de ter vivido... estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão. Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.”  Leio e releio tanto que me distraio, e fico a cismar  - quem me dará a mão?



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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Aos nossos filhos



Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes
arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre;
enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no
gatilho.

Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em
que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe
e mais puro, e ajude a redimi-lo.

Paulo Mendes Campos


Crédito da imagem: fotografia de Marcelo Buainain




'Lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só'. 

Eu cantei esse verso de Adriana Calcanhoto tantas vezes sem saber, mas de um modo que intuía que a vida me preparava uma virada.
Hoje, experimento a solidão. Aquele monstro que me aterrorizava. 
De um modo novo como quem anda de ônibus tendo sempre andado de carro com motorista. 
E sobretudo nos fins de semana tenho vivenciado um olhar absolutamente ímpar diante da cidade que habito. Costumo dirigir, sem eira nem beira, por aí, olhando as gentes. Por enquanto, meus olhos se debruçam sobre os solitários que antes me pareciam apenas derrotados na vida. 
Gosto de chegar sozinha nos bares ou nos restaurantes e identificar os meus iguais. Eu nunca veria os solitários, homens sobretudos mais velhos, quase nunca mulheres, com esse olhar amistoso, solidário, companheiro com que os vejo agora, se não tivesse no mesmo lugar. 
Há uma poesia terna nas solidões compartilhadas nas tardes de domingo. Há um olhar trocado como quem troca a melhor companhia da vida. Uma solidariedade sem resposta pronta.
Mas advirto: é preciso estar bem disposto, bien dans sa peau, como dizem os franceses, sem amargura, sem desespero, apenas com uma tristeza aplacada pela serenidade da certeza de que só ficamos sós se realmente for nosso destino. Eu agradeço a vida ter me proporcionado ver o que eu nunca tinha visto. E como não sei fotografar, só queria mostrar meu olhar.

Sandra Helena Souza, em Elegia da Solidão - Parte I

Crédito da imagem: achei essa foto sensacional por sua criatividade, mas não sei de quem é a autoria. Encontrei no Google+ com a seguinte descrição: domingo lluvioso, melancólico y lleno de recuerdos.
la foto pertenece a la promoción del libro El hombre invisible (The Invisible Man en el original en inglés) que es una famosa novela de ciencia ficción escrita por H.G. Wells.


Expressões



Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz.

Mia Couto, em "O último voo do flamingo"


Imagem: facepage Colors For You


Uma hora



Escolheu um banco afastado da algazarra da praça e pôs-se a olhar o envelope branco de exame que veio do hospital com o seu nome. Era fino, mas pesava uma vida. Naquele dia, não deu milho aos pombos, não cutucou o vira-lata caramelo nem acenou ao casal de maritacas que o saudava sempre. Na mão esquerda, o tempo em forma de rugas conversava com uma aliança que há muito perdeu o par. Então, olhou o relógio e percebeu que sua hora já havia passado. Enfim, jogou o envelope lacrado no lixo. E se foi. Assobiando.

Leonardo Sakamoto


Imagem: Google


Bagagem



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus 

Nuno Júdice



via Fabrica de Escrita


A vida é uma viagem


Boa viagem para todos nós!




terça-feira, 6 de maio de 2014

Esta noite



Esta noite há um lobo a uivar para a lua. Um uivo de medo. Um uivo de dor por saber que está perto do fim. Sua morte será tal e qual foi sua vida: sem importância nenhuma. Pois que venha, então... mas há tanta coisa ainda para ver - tanta presa, tanta mata, tanto luar. Tanta coisa há ainda para esquecer - a presa, a mata, o luar. E por tudo isso, esta noite, há um uivo ao luar. Este uivo é meu.
Esta noite há uma criança a chorar atrás da porta. Um choro que implora colo, leite e consolo. Está à míngua, esta noite. Um choro que precisa que lhe diga: 'não tenha medo, não vai doer nada'. Por tudo isso, esta noite, há um choro atrás da porta. Este choro é meu.

Dalva Nascimento



Imagem: Google


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terça-feira, 29 de abril de 2014

Incompleta



Tu não sabes quanta coisa que nunca te disse. Essas palavras a menos somam barricadas entre nós. Se te culpo pelo que não procuraste saber de mim ao mesmo tempo não me perdoo o que não pude revelar-te de mim.. O que havia de impensável entre nós, o que não luzia em nosso olhar ensombrecido e não aquecia nossos gestos tristes - tudo isso que nos faltou -  vive, ainda hoje, em mim, na incompletude do que sou.

Dalva Nascimento



Crédito da imagem: fotografia de Francesca Woodman 



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domingo, 27 de abril de 2014



"Não quero adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa."

Oscar Wilde


Dia de outono



É, abril chegou e já quase se despede. Mas os dias ainda estão muito quentes (consolo: as noites são mais frescas). Hoje teve de tudo um pouco. Sol logo cedo, céu azul, calor. Perto da hora do almoço uma chuvinha suave, parecia que ia refrescar; caiu, a água fez poças – mas que nada: veio de novo o sol, e o calor também. 

Mesmo assim a cidade já tem cara nova. Tem magia no ar – este ar que, apesar de quente, tem um brilho diferente. Se repararmos bem, algumas praças já apresentam aquele tapete amarelo-avermelhado espalhando-se aos nossos pés. Acho que se o Céu tiver uma porta, o tapete de boas-vindas vai ser assim, de folhas alaranjadas, amarelas e vermelhas.

O vento sopra diferente cantando novas músicas, tirando as folhas para dançar... e as árvores que ficam nuas parecem chorar.

A tarde hoje foi de Clarice (ela, a Lispector), enternecida que me deixou com a gentileza das folhas a caírem. Vinha uma folha embalada pelo vento, caindo da árvore – insistente, permanecia no ar, se negando a cair ao chão – leve esperança que resta antes da dura e úmida calçada.

Em cada vento, em cada folha, em cada cor – é o outono introspecção e reflexão.

Dalva Nascimento


Crédito da Imagem: Google



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Com base no trabalho disponível em http://infinitoparticulardalva.blogspot.com.br/.



Quero mais



(...) 
Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. 
Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo
do meu prazer e me fazer crer que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre".

Gabriel García Marquez 


Crédito da imagem: Google

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