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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Amanhecer barulhento




Trago um texto delicioso, com jeitinho de roça, de interior - e de delicadeza. De um autor que admiro. Peço licença ao autor pelo título meramente ilustrativo que dou à sua prosa poética.
Espero que gostem.
Uma barulhada lá fora entrando por frestas das janelas, fui ver. Era o sol, um monte de sol, uma montoeira. Tanto em rumas como espalhado: finas camadas.É um tipo de oceano, com ondas que vão e vêm, espumoso nas bordas. Brilhoso nos pelos dos gatos.Pra todo lado, na pele verde dos pinheiros, galopando sobre pastos, ruas, inventador de sombras.Tinha sol voando e sol cabisbaixo, parado e semovente, uma coisa.E azulado de tudo, no alto claro. Tinha até sol alaranjado nos caquis.Ensurdecedor. Por isso levantei-me presto, mergulhei no seu calor, Eu estava líquido de sono, me solidifiquei.
Bom dia.

José Antonio Abreu de Oliveira



Crédito da imagem: Pinterest


terça-feira, 10 de maio de 2016

Sim




Sempre no primeiro casamento das manhãs de sábado, na igreja perto de casa, uma velha senhora assiste, do lado de fora e a uma confortável distância, a ansiedade da noiva com um buquê de margaridas entre os dedos. Nem bem a marcha nupcial começa a soar e ela vai embora, levando suas flores. Em um sábado, ao visitar a memória de um amigo que se foi cedo demais, deparei-me com a velha senhora depositando suas margaridas. Não rezou, muito menos prestou reverência. Disse apenas uma palavra e se foi. No túmulo, estava gravado um nome que, se estivesse vivo, teria seus 82 anos. Não ouvi direito o que disse, mas sinto uma certa alegria melancólica em acreditar que foi “sim”.

Leonardo Sakamoto

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Além das aparências...


... porque as aparências encantam!

♥


Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?

Guimarães Rosa

Expressões



Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz.

Mia Couto, em "O último voo do flamingo"


Imagem: facepage Colors For You


Clariceando


... quem não gosta de delicadezas? Ainda mais quando acontecem por causa do outono...


"Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos.
(...)
Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, (...), morta.
Jogo-a fora (...) também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios.
Achei Deus de uma grande delicadeza."

Clarice Lispector



Foto Google

segunda-feira, 28 de abril de 2014

domingo, 27 de abril de 2014

E quem não gosta de sonhar acordado?



Das coisas simples



Tudo que parece meio bobo é sempre muito bonito, porque não tem complicação. 
Coisa simples é lindo. 
E existe muito pouco.

Caio F. Abreu


Somente a ti...



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus. 

Nuno Júdice 


Dia de outono



É, abril chegou e já quase se despede. Mas os dias ainda estão muito quentes (consolo: as noites são mais frescas). Hoje teve de tudo um pouco. Sol logo cedo, céu azul, calor. Perto da hora do almoço uma chuvinha suave, parecia que ia refrescar; caiu, a água fez poças – mas que nada: veio de novo o sol, e o calor também. 

Mesmo assim a cidade já tem cara nova. Tem magia no ar – este ar que, apesar de quente, tem um brilho diferente. Se repararmos bem, algumas praças já apresentam aquele tapete amarelo-avermelhado espalhando-se aos nossos pés. Acho que se o Céu tiver uma porta, o tapete de boas-vindas vai ser assim, de folhas alaranjadas, amarelas e vermelhas.

O vento sopra diferente cantando novas músicas, tirando as folhas para dançar... e as árvores que ficam nuas parecem chorar.

A tarde hoje foi de Clarice (ela, a Lispector), enternecida que me deixou com a gentileza das folhas a caírem. Vinha uma folha embalada pelo vento, caindo da árvore – insistente, permanecia no ar, se negando a cair ao chão – leve esperança que resta antes da dura e úmida calçada.

Em cada vento, em cada folha, em cada cor – é o outono introspecção e reflexão.

Dalva Nascimento


Crédito da Imagem: Google



Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em http://infinitoparticulardalva.blogspot.com.br/.



Sempre aprendendo



"Eu cai tanto na minha vida que aprendi a ver o chão macio, eu sei que não plantei espinhos porque já voltei descalço pelo caminho e encontrei somente flores."

Rhenan Carvalho


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012


"Mas o melhor do abraço não é a ideia dos braços facilitarem o encontro dos corpos.
O melhor do abraço é a sutileza dele. A mística dele. A poesia.


fotografia daqui

O segredo de literalmente aproximar um coração do outro para
conversarem no silêncio que dá descanso à palavra.
O silêncio onde tudo é dito sem que nenhuma letra precise se juntar à outra.
O melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos.
A mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante."

Ana Jácomo



sexta-feira, 28 de maio de 2010

Almas férteis

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ALMAS FÉRTEIS
- Silvio Reda -
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Viver é um exercício constante de expansão e de introspecção. Há o momento de sairmos, de nos tornarmos transeuntes do mundo e há o instante de nos voltarmos para nós, tornando-nos agrimensores de nós mesmos.
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Tanto sair como ingressar pressupõe compreensão. Compreender a si é imprescindível para entender o que está acontecendo fora de si. Ocorre que hoje em dia somente as atrações do mundo exterior são valorizadas e incentivadas. Aqueles que se dispõem a ver-se por dentro pagam a taxa de serem encarados como excêntricos.
Quem melhor se enxerga por dentro, mais nítida e honestamente transparece para fora. Esse desencontro consigo tem gerado uma sociedade apressada e que a quase tudo enxerga como algo descartável. Os sentimentos e as próprias pessoas passaram a mercadorias ambulantes.

Há um mercado de interesses e não uma comunidade de valores. Mas não precisamos ser pessimistas acreditando que estamos perdidos. Não estamos, o que há é que estamos, isso sim, desacostumados a valorar. Como o ex-aluno que há muito não vai à escola e perde o ritmo e o talento frente à realização das lições dadas e exigidas.

Há muito que não comparecemos às aulas dos verdadeiros e honestos sentimentos; há muito que deixamos de freqüentar a classe de um melhor comportamento moral e ético; há muito que deixamos de nos expressar por um olhar, por um abraço, por um beijo.

Estamos desabituados a estas singelezas e sutilezas da nossa própria natureza humana, porque um dia passamos a preferir a mecânica grosseira da satisfação rápida e interesseira de nossas necessidades, do que satisfazê-las diariamente pela própria noção de esforço e responsabilidade.
De sujeitos começamos a nos tratar como objetos. Contudo, há um fertilizante que nunca perece em nossas almas. Um fertilizante chamado amor.
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Almas férteis são aquelas que permitem o plantio dos sentimentos e das intenções alheias em si e que do que em si possuem no outro plantam. Que confiam na boa semente de seu semelhante.
Que tratam e cuidam dessa cultura amorosa do dar e do receber sem a qual ninguém sobrevive.
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Almas férteis se encontram no arado de um olhar, no adubo natural de um abraço, nas estações sempre propícias de se colherem beijos e mais beijos. Almas férteis alimentam e são alimentadas em qualquer situação. Sabem que nada é descartável, porém tudo inesgotável e por estarem cientes disso estão sempre prontas a recomeçar de qualquer oportunidade, pois toda ocasião, para elas, se torna um momento qualificado para melhorar o que em si sempre pode ser melhorado ampliando a realidade no cotidiano do mundo.
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Almas fecundas não se encontram em qualquer fazenda existencial, mas toda fazenda é capaz de produzi-la e tê-la, pois onde houver sido deixada uma semente de amor haverá a capacidade divina de fazê-la fecundar.
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Somos a semente e somos o solo. Que saibamos eclodir no solo alheio que nos recebe em seu plantio, bem como receber no nosso a semente que nos confiam fazendo dela planta que se soma e se integra a nós mesmos.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Clariceando...

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Iniciando a semana... com calma e delicadeza...
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e com Clarice:
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"Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos.
(...)
Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, (...), morta.
Jogo-a fora (...) também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios.
Achei Deus de uma grande delicadeza."
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Clarice Lispector

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Ternura

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"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondida e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo!”
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Caio Fernando Abreu
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