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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Árvore Genealógica




- Mãe, vou casar!
- Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça? 
- Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.
- Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?
- Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
- Nada, não. Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.
- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...
- Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.
- Você vai ter uma nora. Só que uma nora... meio-macho... Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea...
- E quando eu vou conhecer o meu... a minha... O Murilo? 
- Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido. 
- Tá! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?
- Por quê?
- Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.
- Você acha que o Papai não vai aceitar?
- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.
- Mãe, que besteira... Hoje em dia... Praticamente todos os meus amigos são gays.
- Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.
- A Bel já tá namorando.
- A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é?
- Uma tal de Veruska.
- Como?
- Veruska...
- Ah! Bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.
- Mãe!!!...
- Tá..., tá..., tudo bem.... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto...
- Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
- Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?
- Quando ele era hétero... A Veruska.
- Que Veruska?
- Namorada da Bel...
- "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel... É isso? Porque eu me perdi um pouco...
- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.
- De quem?
- Da Bel.
- Mas. Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska...
- Isso.
- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.
- Em termos...
- A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.
- Por aí...
- Por outro lado, a Bel..., além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã.
- Exato. E no ano que vem, vai ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.
- Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.
- Exato!
- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...
- Entendeu o quê?
- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!
- Que swing, mãe?!!....
- É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...
- Mas...
- Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio...
- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...
- Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos...
- Nós ajudamos.
- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que....
- Que…?
- Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser f......!

Crônica do Luís Fernando Veríssimo 
Folha de S. Paulo


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A familia "encolheu"

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Se você tem 40 anos ou mais, provavelmente se lembra daqueles grandes almoços de família aos domingos, na casa da mãe ou da avó. Desses almoços faziam parte pelo menos outros dez ou vinte parentes. Lá em casa de minha avó era assim: todos chegavam cedo, e as mulheres se reuniam na cozinha para preparar o almoço, a massa do espaguete, o frango assado, a salada...
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E era uma verdadeira festa. Não faltava a sobremesa, o vinho, a cerveja... A conversa e a comilança se estendia até a noite, quando as mulheres iam para a cozinha preparar um lanchinho, invariavelmente uma pizza, para finalizar o encontro.
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E só então todos iam embora...
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Mas, há uns vinte anos, minha avó precisou vender a casa. A idade foi chegando e ela se sentia incapaz de cuidar de uma casa tão grande, e se mudou para um apartamento próximo a casa de minha tia. Como resultado disso, o número dos convidados para o almoço de domingo caiu consideravelmente. Meus primos foram os primeiros a desistir e não aparecerem mais. Meu irmão também deixou de visitar a vovó semanalmente. Meus tios se divorciaram.... Meus pais faleceram e aqueles grande almoços de família ficaram somente na memória. Nem lembro mais quando foi a última vez que minha família se reuniu.
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E é assim: hoje em dia essa tradição ficou mesmo para trás, excluída de um tempo onde todos têm muita autonomia desde cedo. Esse encolhimento da família acontece na maioria das casas brasileiras. Aquela família enorme, com dezenas de primos, tios e agregados está em extinção.
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Os estudos mostram alguma causas para esse fenômeno:
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1) A queda acentuada da taxa de fecundidade: na década de 70 cada familia gerava entre 6 e 7 filhos; hoje essa taxa caiu para 1 e 2 filhos.
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2) O grande número de separações: segundo o IBGE, o número de divórcios no Brasil aumentou em 52% nos ultimos dez anos.
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3) A desfragmentação dos núcleos familiares: os laços com primos de graus distantes e tios de gerações anteriores perderam a força; a família nuclear, composta de pais e filhos, é mais individualista, e não aceita a interferência dos parentes mais distantes na educação de suas crianças.
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4) A taxa de urbanização no Brasil nos anos 80 era de 65% e hoje é de 83,5%: as famílias se cindiram, com parentes mudando-se do campo para os centros urbanos.
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5) A transformação social: há doze anos 56,5% das famílias tinham filhos morando em casa. Em 2007, esse número baixou para 49%. Muitas famílias hoje em dia tem os filhos morando em outras cidades, e até mesmo em outros países
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Éramos tantos e hoje somos tão poucos!
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Os casais têm menos filhos, os filhos se dispersam, os primos desaparecem, ninguém quer opinião da tia – e as famílias enormes viram um retrato na parede.
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Fonte: Revista Veja

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