domingo, 27 de abril de 2014

Nossos tempos


A ciranda do comer, desciranda da fome


Primeiro foi nossa mãe que deu de não mais comer. Em meu desentender eu admirava aquilo. Ela servia-nos as pequenas porções em cumbucas de plástico, se sentava num canto e trocava olhares cumpliciosos com a santa triste do quadro na parede.

Sentados no chão, em roda, todos os filhos comiam o de comer e as palavras, ninguém dava assunto falado, apenas uma ou outra vez olhávamos os olhares silenciosos das duas santas trocando diálogo mudo, uma em cada canto do cômodo pobre.

Nosso pai comia de pé, tinha preferência por não utilizar pratos, se servindo na própria panela de barro à beira do fogão. Comia pouco o nosso pai, um quase nada, o que me causava de incompreender.
Um a um íamos terminando nossa rala refeição, e, quando cada um se erguia, dava sempre uma espiada pidona pra ele, que comovido repartia com todos o pouco que lhe restava, engolia uma água barrenta, dedicava um olhar terno à nossa mãe e saía.

Ela se levantava trôpega, desistida dos olhares da santa, miúda e sumida dentro do vestido largo e gasto; encostada no batente da porta ela dava dois minutos a olhar ele sumindo na estrada. Depois ela sacudia os braços fingindo tanger algum bicho, nas sacudidas batia os dedos na porta e quando se virava estava com os olhinhos cheios d’água, se culpando pela distração. Nossa mãe, quando deu de não mais comer, deu também de não chorar pela miséria.

O sol grande ainda tinha metade do dia para cumprir sua sina; e nosso pai um tanto disso também para conseguir a próxima refeição. À vezes, em muitos às vezes, ele falhava de não conseguir, e retornava calado, recusando nossos olhares famintos.

Depois foi nosso pai que deu de não mais comer, imitando nossa mãe, se resguardando para as magrezas que faziam morada em seu corpo, e juntava os beiços assobiando melodias tristes pra tanger a fome.
Certo dia, enquanto sentados no chão em ciranda aguardávamos as nossas porções de comida, ele fez com que nosso irmão mais velho saísse da roda. Nossa mãe suplicou com o olhar, pedindo socorro à santa do quadro na parede; tive a sensação que a santa evitou o olhar angustiante de nossa mãe. O prato de nosso irmão permaneceu vazio e só.

Agora foi nosso irmão mais velho que deu de não mais comer. Seus olhos se afundavam na cara, sumiam lá pra dentro das cavas, insistiam em nos fazer doer umas dores estranhas quando dávamos com seus olhos. Ele, mais nosso pai, repartiam as magrezas pelos seus corpos. Nossa mãe, distraída, se atropelava pelos dedos quando sacudia os braços tangendo bichos que não se via, e chorava de dor servindo o de comer que cada dia era menos e menos.

Noutro dia foi a minha vez, também dei de não mais comer. E a ciranda de meninos sentado no chão foi se diminuindo sob o olhar triste da santa na parede.

Joilson Kariri - Sertão Urbano



Crédito da imagem: Google


Um comentário:

Vera Lucia disse...

Vim! ! Gostei! Obgda por apresentar me tal texto além da comoção.

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