segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Absurdo!


(1882-1948)


Autor de fábulas que povoaram nossa infância, com seus bichos que falam, e seres encantados em situações que somente são possíveis em suas histórias. Ler seus livros desperta na criança o prazer pela literatura e aguçava sua criatividade, fecundando a imaginação.


O criador do Sítio do Picapau Amarelo é autor sempre presente nas recomendações de leitura das escolas públicas do país. Na semana passada, ele correu o risco de ter suas fábulas banidas das salas de aula por causa de uma acusação de racismo acolhida pelo Conselho Nacional de Educação, com o argumento de não "se coadunar com as políticas públicas para uma educação antirracista."

Se essa tetativa absurda se confirmasse, perderiam as crianças do Brasil e perderia o próprio Brasil.

O autor da questão foi o Sr. Antonio Gomes da Costa, funcionário da Secretaria de Eduação do Distrito Federal e mestrando na Universidade de Brasília. Em sua denúncia ele afirma que o livro Caçadas de Pedrinho incita o preconceito contra os negros em algumas passagens, que se seguem:


"É uma guerra das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Anastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena."

"E aves, desde o negro urubu fedorento, até essa jóia de asas que se chama beija-flor."

"- Tia Anastácia trepou na árvore que nem macaca de carvão."

(trechos de Caçadas de Pedrinho, fábula de Monteiro Lobato acusada de racismo)

O ministro da Secretaria de Igualdade Racial, Eloi Ferreira de Araujo, disse que o conteúdo de Monteiro Lobato deve ser considerado racista e perverso. Ele ainda alega que, mesmo que não influencia uma criança a se tornar racista, fere a autoestima dos negros. Ele se diz contra o veto à obra de Lobato, mas afirma que "para nós, que temos orgulho em ter a pele negra e o cabelo crespo, é duro ler que uma negra subiu (numa árvore) que nem uma macaca."


No parecer da professora Nelly Novaes Coelho, vetar a obra de Lobato é uma tolice, já que não se pode negar a história. Uma das funções da literatura é explorar a realidade. "A história brasileira tem a escravidão por base. Isso levou a um preconceito muito fundo e não se pode passar a borracha nisso nem colocar dentro de um armário e fechá-lo."

O ministro da Educação, Fernando Haddad, não acatou o polêmico parecer do CNE que recomendava a exclusão do livro da lista de distribuição à rede escolar.

Seria um erro reduzir a obra de Monteiro Lobato ao que ela possa conter de racista. E proibi-la seria duplo erro: supor que nossos jovens sejam desprovidos de qualquer senso crítico e que interpretariam ao pé da letra o que foi escrito.

"Estão subestimando as crianças" - é o que alega o psicanalista Mario Corso - "Se ela se tornar mesmo racista, não será por causa da literatura, mas por causa dos pais ou do ambiente."

Erro maior ainda seria rotular uma grande obra como a de Monteiro Lobato, sem perceber a complexa relação do autor com as idéias de seu tempo.


Analisando sua obra, o "racismo" de Lobato é mesmo discutível. Muitas vezes o autor valorizou a contribuição dos negros na cultura brasileira. O conto Negrinha, de 1923, é tão somente uma denúncia contra a elite dos anos 20, saudosa do tempo da escravidão. A personagem, uma órfã de quatro anos de idade, passa fome e medo: "Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão."


O romance O Presidente Negro, de 1926, considerado eugenista por descrever um mundo em que uma raça supera a outra, pode ser lido sob o prisma de uma grande metáfora das conseqüências da desculturação de um grupo étnico. Ambientado nos Estados Unidos do futuro, é uma parábola sobre os guetos raciais do país. O choque entre as raças leva à aniquilação dos negros.

O conto Os Negros, de 1923, revela a discordância do autor em relação à discriminação racial e denuncia o aviltamento dos negros no Brasil pós-escravidão.


Absurdos como esta denúncia nos deixam apreensivos quanto ao futuro: o que virá depois? Depois de Monteiro Lobato, logo logo estaremos censurando Machado de Assis, que em sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, citava o escravo Prudêncio:

"Prudêncio, nascido escravo, servia de brinquedo do nhôzinho. Já adulto e liberto, o antigo pequeno amo, Brás Cubas, o reencontrou surrando um escravo, em pleno passeio público, ante a complacência de um ajuntamento de homens livres. O escravo suplicava: “Meu senhor!” Enquanto ele batia e gritava: “Cala a boca, besta!”.



8 comentários:

Tempestade disse...

Rídicula e sem comentários!
Veja esse link do Estadão, outra proibição rídicula: http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/cega-e-burra/

Beijos!

Noslen ed azuos disse...

Olá Dalva. Muito bom passear pelo seu blog, sempre aprendo algo, principalmente sobre as mulheres, que sempre será útil para mim rsrs e espero q nossas crianças tenham discernimentos e cultura para entender Montero Lobato.

ns

Menina Travessa disse...

Concordo com você! A ídole de uma criança se forma pelo ambiente num todo, não somente pelos livros que lê! Se for assim, que tipo de pessoas seriam aquelas que leram Nelson Rodrigues???

Lis disse...

Oi Dalva
Muito boa publicação sobre Monteiro Lobato que imerecidamente vem quase manchando seu nome por desavisados .
Fiquei triste e lamento o ocorrido porque
também gosto de suas histórias infantis
Acho que a tempo foi revisto o absurdo que iam comentendo com esse grande escritor.
um abraço

Chica disse...

Incrívelmente absurda mesmo! beijos,chica

Tin@ disse...

Oie Dalva!
Obrigada pela visita e comentário carinhoso no meu blog!
Li Monteiro Lobato na infância e n lembro destas frases, ou delas terem ofendido minha autoestima.
Creio que é muito maior do que isso. Já é uma visão comum pessoas que se sentem discriminadas levantar bandeiras racistas e/ou de discriminação. Papo pra horas...

Beijocas!

Tucha disse...

Acho que o texto pode contribuir para a análise crítica dos alunos para a qustão do preconceito racial. E deve ser tema constante das salas de aula o combate a intolerância racial, religiosa, sexual. Um trabalho educativo pela paz e solidariedade.

Georgia disse...

Já tinha lido essa materia num outro blog uns meses atrás. É falta do que fazer ver em tudo racismo. É de matar...

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